15.8.23

“Último Tango em Paris” - Bernardo Bertolucci (EUA, 1972)

Sinopse:
Enquanto procura por um apartamento em Paris, um americano (Marlon Brando), cuja esposa recentemente cometeu suicídio, conhece uma jovem atraente (Maria Schneider). Na mesma hora, um deseja o outro ardentemente. O casal inicia um relacionamento sexual prolongado, mas puramente anônimo, em que eles nem sequer dizem seus nomes, mas os acontecimentos vão fugindo do controle de ambos.
Comentário: Trata-se do filme número 62 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “O erotismo já havia feito aparições em outros filmes, como nos de Shohei lmamura nos anos 1960, mestre da Nouvelle Vague japonesa, mas nunca de forma tão emblemática como em o ‘Último Tango em Paris’, onde o sexo finalmente encontrou o cinema de arte. Obra assinada por Bernardo Bertolucci, causou escândalo coletivo, foi banida da Itália entre 1976 e 1987, tesourada após sua estreia em 1973 nos Estados Unidos e tornou-se a grande pauta da imprensa da época. Isso, com cenas nada explícitas e que hoje certamente não chocariam nem os mais desavisados. Um dos motivos da comoção foi o nome de Bertolucci, que ganhara chancela de autor "high art" (alta arte). Outro, mais decisivo, era a presença de Marlon Brando, que mesmo com sua rebeldia revolucionária fizera carreira dentro do grande cinema americano. Assim, era um choque ver aquele astro de Hollywood como Paul, um amargo viúvo, bolinando Jeanne (Maria Schneider). Ou, mais grave, no chão de um apartamento, usando manteiga para sodomizar sua parceira, enquanto soltava blasfêmias imorais. Mesmo esta, a mais famosa sequência do filme, é performática, com Brando de calças em cima de Maria Schneider. Porque, na verdade, a intenção do filme era falar sobre dois seres que buscam no sexo anônimo uma catarse, para serem outra pessoa e fugirem do vazio existencial. Bertolucci fez, de fato, uma obra de ‘alta arte’, escrevendo o roteiro com a cineasta francesa Agnès Varda (de ‘Cléo das 5 às 7’, de 1961) e com o escritor Alberto Moravia. Contou com a fotografia de Vittorio Storaro, inspirada em quadros do pintor britânico Francis Bacon”.
Atualmente o que mais predomina nas resenhas sobre o filme é a polêmica envolvendo o modo como a cena da manteiga foi filmada. O que se conta é que em 2007, a atriz Maria Schneider teria concedido uma entrevista ao jornal britânico The Daily Mail, dizendo que a cena da manteiga não estava no roteiro e que teria sido uma ideia de Brando, durante as gravações. A atriz, que tinha apenas 19 anos na época, revelou ter se arrependido de fazer o filme, dizendo que aquilo, na visão dela, foi como um estupro. Lembrando que, segundo o código penal brasileiro, não é preciso haver penetração para que o crime seja caracterizado como estupro. Schneider nunca se recuperou emocionalmente da cena, tendo mergulhado no mundo das drogas e sofrido de depressão profunda por anos. Ela faleceu em 2011, vítima de um câncer.  
O que eu achei: O filme é tão famoso – e considerado por muitos uma obra-prima – que eu coloquei minhas expectativas lá no alto e, ao final, não achei tão magnífico assim. Creio que a fama se deu pelo ineditismo, na época, da forma como a temática do sexo foi tratada, mas, como disse a Revista Bravo!, “cenas nada explícitas e que hoje certamente não chocariam nem os mais desavisados”. O máximo que se vê é o nu feminino, nu masculino basicamente não há nenhum. Nem a cena da manteiga, que imaginei ser o ápice da pornografia, choca. Na verdade, as coisas ficam mais no âmbito da imaginação do que da encenação. Uma boa parte dos diálogos me lembrou demais os filmes do Godard. Essas falas e a maneira como elas são filmadas, parecem uma Nouvelle Vague fora de época. É um filme que eu gostei de ter visto mais pela curiosidade da fama da película do que pelo resultado em si. Uma curiosidade é que essa questão envolvendo Schneider deverá virar um filme e talvez uma minissérie de tv. O filme - com direção de Jessica Palud - será uma cinebiografia da atriz, a previsão de estreia é 2024. Já a minissérie especula-se que terá o brasileiro José Padilha na direção, ao lado de Lisa Brühlmann. A produção focará nas controvérsias do abuso contra a atriz.