27.8.23

“O Retrato de Dorian Gray” - Albert Lewin (EUA, 1945)

Sinopse:
Na Londres de 1886, vive Dorian Gray (Hurd Hatfield), um homem moralmente corrupto que guarda um retrato seu misterioso: os anos passam e quem envelhece é o retrato, não ele.
Comentário: Albert Lewin (1894-1968) foi um diretor, produtor e roteirista americano. Ele dirigiu seis longas, sendo “O Retrato de Dorian Gray” (1945) seu segundo filme. 
A história, baseada no romance homônimo escrito por Oscar Wilde em 1890, é um clássico que vale a pena ser lido. Conta a história de Dorian Gray (Hurd Hatfield), um jovem aristocrata que está posando para um retrato feito pelo pintor Basil Hallward (Lowell Gilmore). Ao conhecer um amigo de Basil, Lord Henry Wotton (George Sanders), cujas teorias hedonistas fazem o rapaz temer o fim da própria juventude, Dorian diz em voz alta que daria a própria alma em troca de que o retrato envelhecesse em seu lugar. Algum tempo depois, ao perceber que o seu desejo foi atendido, e que o retrato não apenas está envelhecendo enquanto ele permanece jovem, mas também carregando as marcas de seus vícios e pecados, Dorian passa a viver apenas em nome do próprio prazer, não se importando com as vidas que tiver que destruir para obtê-lo. 
Zeca Seabra do site Cinema Para Sempre nos conta que “O diretor Albert Lewin cercou-se dos melhores técnicos da época para apresentar este extraordinário conto lúgubre repleto de citações filosóficas e simbólicas, a começar pelo texto inicial de Omar Khayyán (que abre e fecha o filme). A partitura dramática de Herbert Stothart, com seus acordes comoventes, oferece a tonalidade certa que esta extravagante história pede. (...) Oscar Wilde era um homossexual não assumido que despejava em seus textos todos os impulsos sexuais reprimidos, apresentando personagens ambíguos e inseguros e Dorian Gray é quase como um alter-ego de sua persona. (...) O filme reflete muito bem estas incertezas, pois os personagens masculinos estão constantemente admirando-se e trocando elogios sobre suas aparências. Embora o roteiro contenha ligeiras modificações em alguns conceitos, o filme é bastante fiel à essência do texto de Wilde, pois os personagens refletem a imagem da repressão sexual da era Vitoriana. O filme é narrado em off, por Lord Henry Wotton, uma espécie de colunista social da Inglaterra de 1886, um hostess que analisa e apresenta os personagens, impregnando o texto com tiradas sarcásticas e cheias de ironia”. 
A obra foi adaptada diversas vezes para o cinema, destacando-se, além deste filme, as versões de Massimo Dallamano (1970), Pierre Boutron (1977) e David Rosenbaum (2002).
O que disse a crítica 1: Rafael Lima do site Plano Crítico achou regular. Escreveu: o ator “George Sanders domina todas as cenas de que participa na pele de Lord Wotton, ao dar ao aristocrata um ar sarcástico e blasé, sempre tecendo os seus comentários em um tom clínico e impessoal. Ainda deve-se destacar o trabalho de Angela Lansbury como Sibyl Vane, uma jovem atriz de teatro que tem um pequeno, mas importante papel na trama ao ter sua inocência e juventude destruída por Dorian. Lowell Gilmore e Donna Reed estão igualmente competentes como Basil Hallward, e sua sobrinha Gladys, que acaba se tornando a última chance de salvação para Gray. Diante de ótimos coadjuvantes, o elo fraco do elenco acaba sendo justamente o seu protagonista. Hurd Hatfield entrega um Dorian Gray bastante inexpressivo, falhando em construir a transição do protagonista mais inocente do começo do filme para o homem mais cruel e vicioso que chega ao fim da obra”.
O que disse a crítica 2: E. R. Corrêa do site Boca do Inferno achou excelente. Disse: “o grande mérito desse filme é que ele segue praticamente à risca o livro de Wilde, recriando passagens e diálogos de forma fantástica. A fotografia luminosa só ajuda a criar um clima ainda mais impressionante, inclusive as cenas em que é mostrado o retrato são em cores, formando um belo contraste com as luminosas imagens em preto e branco. O elenco, formado por atores não muito conhecidos, também está muito bem proporcionado, com destaque para George Sanders, que consegue ser tão arrogante e influente quanto o Lord Henry que desfila nas páginas do livro; Hurd Hatfield, o Dorian, às vezes parece distante, mas o personagem do livro também tem essa característica, deixando a dúvida se o ator o fez propositadamente ou se foi um simples acaso de sua atuação”.
O que eu achei: Eu gosto muito de ler um romance e, logo em seguida, vê-lo transposto no cinema. É como pegar toda a história que foi lida durante dias a fio e ver uma espécie de “resumo” feito por uma terceira pessoa, mostrando sua interpretação do que foi originalmente escrito. Se eu comparar o que li com o que vi, sem dúvida o livro é superior ao filme. Mas o filme não é ruim. Rodado nos anos 1940, mas ambientado em 1886, ele tem aquela pegada de filme de época com boa trilha sonora, bons atores, cenários elegantes e cosmopolitas bem arranjados e com o começo, o meio e o fim nos seus respectivos lugares, de acordo com a forma clássica padrão de se fazer cinema. A fotografia assinada por Harry Stradling Jr. é outro mérito. Há um interessante uso do Technicolor quando o retrato aparece, dando destaque à obra. Uma curiosidade sobre o quadro de Dorian envelhecido que aparece no filme, é que ele teria sido pintado por um artista americano chamado Ivan Albright (1897–1983). Ele executou este trabalho especialmente para o filme, pois ele tinha uma reputação estabelecida de capturar o macabro. A tela foi exibida no Art Institute no final de 1945, ano do lançamento do filme, então foi interessante saber que, na época, o Chicago Tribune relatou que o museu “estava tendo muita dificuldade para lidar com as multidões que se aglomeravam para ver sua pintura”. Pelo que consegui apurar ele atualmente faz parte da coleção desse mesmo museu. Já o quadro que retrata Dorian jovem, foi pintado pelo irmão gêmeo de Ivan, chamado Malvin Albright. É um filme calmo, linear, que exige pouco do espectador e, se formos pensar, é uma história atualíssima que fala da eterna preocupação humana em manter-se jovem a qualquer custo ao mesmo tempo em que se observa uma decadência da intelectualidade.