8.8.23

“O Fio da Memória” - Eduardo Coutinho (Brasil, 1991)

Sinopse:
Um documentário sobre a identidade cultural dos negros, o preconceito que eles sofrem e como eles povoam o imaginário popular. O foco fica no trabalho de Gabriel Joaquim dos Santos, trabalhador de uma mina de sal, semianalfabeto e artista. Ele construiu em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, a Casa da Flor, uma casa de arte feita com objetos encontrados no lixo.
Comentário: Trata-se do segundo documentário de longa-metragem de Eduardo Coutinho, de quem já assisti aos ótimos “Cabra Marcado para Morrer” (1984) e “Edifício Master” (2002). “O Fio da Memória” foi realizado, sob encomenda, por ocasião do centenário da abolição da escravidão no Brasil, completado em 1988. O site do IMS nos conta que “o filme procura condensar, em personagens e situações do presente, a experiência negra no Brasil a partir de dois eixos - as criações do imaginário, sobretudo na religião e na música, e a realidade do racismo, responsável pela perda de identidade étnica e pela marginalização de boa parte dos milhões de brasileiros de origem africana”. O foco fica no trabalho de Gabriel Joaquim dos Santos, cujo Wikipédia nos conta que “Nascido em 1892, [ele] era residente do bairro do Vinhateiro, Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Filho de ex-escravos, nasceu quatro anos depois da abolição da escravatura. Trabalhou praticamente a vida inteira em salinas e na roça. Construiu a própria casa (Casa da Flor) e tornou-se artista, recolhendo e reutilizando materiais como lâmpadas, cacos de vidros, pedaços de azulejos e até mesmo resto de lixos. Morreu em 1985, aos 92 anos”. No documentário dois narradores se alternam: Ferreira Gullar apresenta o texto explicativo, enquanto Milton Gonçalves interpreta os escritos e falas do personagem central Gabriel Joaquim dos Santos.
O que disse a crítica: O site do Festival É Tudo Verdade nos conta que “De todas as produções de Coutinho, talvez tenha sido esta a mais farta em recursos. Combina investimentos principalmente da Funarj, origem do projeto, e da Embrafilme, entre as fontes nacionais, e de três TVs europeias, além do Hubert Bals Fund do festival de Roterdã. O resultado foi um fracasso, que abalou por quase uma década a vida e a obra de Coutinho. Sequer lançado comercialmente nos cinemas brasileiros, o documentário fez sua estreia em São Paulo em quatro sessões no Museu da Imagem e do Som em agosto de 1993. (...) Passado um quarto de século, “O Fio da Memória” permanece sua obra menos conhecida. Tem hoje o fascínio dos grandes filmes fracassados. Coutinho era o menos adequado documentarista para o projeto, como confirmaria o resto da sua carreira. Nada menos “coutiniano” do que um filme de encomenda com compromissos didáticos sobre um tema nobre e genérico. Ele fez o possível para seguir o desconfortável modelo histórico-sociológico, ao mesmo tempo que resguardava algum espaço de respiração para o cinema que lhe interessava”. Entretanto o site diz que há no documentário “dois momentos iluminados. No primeiro, dona Ercy, uma filha de baiana que se casou com o neto do poeta Cruz e Souza, inaugura no cinema de Coutinho a personagem que complementa a entrevista com um canto. No segundo, como destacou o coprodutor do filme Eduardo Escorel, o quase octogenário Aniceto da Império Serrano desconcerta Coutinho ao assumir as rédeas da conversa, o encher de perguntas e acabar por etiquetá-lo: ‘o senhor é inocente demais’. As raízes do melhor cinema futuro de Eduardo Coutinho se agarram aí”.
O que eu achei: O documentário terminou e eu fiquei me perguntando que fim teria levado a Casa da Flor. Para minha surpresa, localizei no site da prefeitura de São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, uma informação, datada de maio de 2022, de que a casa foi restaurada e está aberta à visitação. A casa, tombada em 1986, completou 100 anos de existência. Em 2016, ela ganhou status de patrimônio cultural material brasileiro com a inscrição no Livro do Tombo de Belas Artes do Iphan, elevando São Pedro da Aldeia ao circuito turístico e cultural nacional. O site diz: “Depois do falecimento de Gabriel, a Casa passou a ser zelada pelo seu sobrinho-neto, Valdevir dos Santos, que hoje atua como assessor histórico do espaço, responsável por conduzir as visitações. ‘O senhor Gabriel partiu, mas deixou o seu sonho e o seu exemplo, mesmo naqueles tempos difíceis. Do lixo ele fez o luxo e assim foi feito como ele sempre dizia para mim ‘meu sobrinho, essa casinha um dia vai ficar na história’. Estar aqui, ao lado do prefeito e de todas as autoridades, comemorando essa maravilha que é a Casa da Flor, agora muito mais bonita, é uma emoção muito grande’, disse Valdevir”. Vale ver.