21.8.23

“Kika” - Pedro Almodóvar (Espanha/França, 1993)

Sinopse:
O escritor americano Nicholas Pierce (Peter Coyote) chama a maquiadora Kika (Veronica Forque) para sua casa, pedindo que ela maquie o cadáver de seu enteado Ramón (Àlex Casanovas). Ela acaba "ressuscitando" Ramón, que é catatônico e não estava morto, e vai morar com ele. Enquanto vive com Ramón, Kika tem um caso com Nicholas. O triângulo amoroso também terá que lidar com a interferência da excêntrica repórter de TV sensacionalista Andrea Caracortada (Victoria Abril), a ex-amante de Nicholas, que acha que conseguirá uma matéria quente se seguir os três.
Comentário: Trata-se de mais um filme do grande cineasta espanhol Pedro Almodóvar de quem já assisti pelo menos 11 filmes, dentre eles os ótimos "A Lei do Desejo" (1986), "A Flor do Meu Segredo" (1995), "Abraços Partidos" (2009), "A Pele que Habito" (2011), "Os Amantes Passageiros" (2013), "Julieta" (2016), “A Voz Humana” (2020) e “Madres Paralelas” (2021). Desta vez vou rever um clássico do diretor chamado “Kika” (1993). Kika é o nome da personagem principal do filme, uma maquiadora interpretada pela atriz Veronica Forque. Ela é chamada para maquiar um cadáver chamado Ramón mas, ao chegar lá, ele “ressuscita” já que ele não estava morto, mas sofria de catatonia, uma condição que imobiliza a pessoa. Kika então se apaixona por ele, mas enquanto vive com Ramón, Kika tem um caso com seu padrasto Nicholas. O triângulo amoroso também terá que lidar com a interferência da excêntrica repórter de TV sensacionalista Andrea Caracortada (Victoria Abril), a ex-amante de Nicholas, que acha que conseguirá uma matéria quente se seguir os três. Pedro Almodóvar construiu, nesse filme, uma crítica de forma irônica à sociedade espetacularizada em que vivemos, na qual valoriza-se, sobretudo, a imagem. Fala sobre a comunicação na sociedade midiática marcada pela exposição da intimidade dos indivíduos e pelo jornalismo sensacionalista, especialmente o televisivo, abordando o questionamento sobre a ética nesse modo de “fazer jornalismo”.
O que disse a crítica: Inácio Araujo da Folha SP gostou. Escreveu: “O que mais impressiona em Almodóvar é o gosto pela liberdade. Talvez seja esse o maior atrativo de seus filmes, e "Kika" (...) é um dos exemplos mais claros dessa escolha. Estamos numa época em que a ficção parece insuficiente. Os leitores preferem as biografias. Os espectadores, os filmes baseados ‘em uma história real’. Pois bem: Almodóvar não se dobra às modas, não cede ao infantilismo do cinema e, na contracorrente, trabalha ficções absolutamente alucinadas. Existe ali uma maquiadora chamada para exercer suas artes sobre um cadáver, um jovem que ressuscita, escritores, apresentadoras de TV - e, no meio, amores que ficaram pelo caminho ou não. Almodóvar acumula elementos e atira seus espectadores numa espécie de labirinto em que imagens e sentimentos desgastados ressurgem - ressuscitados como o personagem Ramón da história - nos gêneros que reencontra, para seu prazer e para o nosso”.
Eduardo Aranha do site Mundo de Cinema também gostou. Disse: “Com cores vivas, cenários kitsch e um guarda-roupa muito andrajoso - parte do qual foi fornecido por Gianni Versace - o filme Kika conta com uma energia visual que, uma vez mais, cativa a audiência. O enfoque é sempre dado a Veronica Forque e Victoria Abril: que provam que as mulheres, nos filmes de Almodóvar, brilham sempre mais do que os personagens masculinos.”
Leonardo Ribeiro do site Papo de Cinema foi menos elogioso. Escreveu: “O humor que beira o limite da histeria também pesa no filme. A piada com o estupro, por exemplo, não só vai um pouco além do politicamente incorreto, mas, principalmente, ultrapassa o timing cômico. Já a reviravolta para o suspense que domina o terceiro ato não traz grandes surpresas. Assim, o filme de Almodóvar termina como um reflexo de Kika, a maquiadora que sabe como se valer do poder estético, mas que se perde na busca do rumo para uma viagem sem compromissos e, na maior parte do trajeto, superficial”.
O que eu achei: É a segunda vez que vejo esse filme e o interesse é o mesmo: o filme começa e lá estou eu envolvida pelas cores vibrantes, os objetos kitsch, os personagens bizarros, estranhos e caricaturais e uma história bem latina envolvendo sexualidade, famílias alternativas, incesto, voyeurismo e todos aqueles exageros habituais de Almodóvar que tanto amamos. Tudo com muito humor. O filme fala sobre a natureza intrusiva dos reality shows, que eram relativamente novos no período. Trata dos limites éticos do jornalismo com a repórter registrando ao vivo assassinatos e outras tragédias. É a violência como espetáculo. Além de divertido, é também uma oportunidade de rever a atriz Veronica Forque (ela interpreta Kika) que foi encontrada morta em 2021 em sua casa, aos 66 anos de idade,  como consequência de um suicídio. Ela sofria de depressão. Atenção aos incríveis figurinos criados por Gianni Versace para a repórter televisiva interpretada por Victoria Abril. Atenção também para a personagem Dña. Paquita interpretada por Francisca Caballero, mãe de Pedro Almodóvar.