14.7.23

“The Velvet Underground” - Todd Haynes (EUA, 2021)

Sinopse:
 
O documentário retrata a história da banda The Velvet Underground que surgiu em 1964 na cidade de Nova York. Enquanto vários segmentos convergiam para a criação do rock and roll moderno, o grupo seguiu um estilo experimental e inovador pouco comercializado na época.
Comentário: Assisti até o momento quatro filmes do Todd Haynes: os excelentes “Carol” (2015) e “Não Estou Lá” (2007) e os bons “Sem Fôlego” (2077) e “O Preço da Verdade” (2019). O documentário “The Velvet Underground” é minha quinta experiência. Para quem não sabe, The Velvet Underground era uma banda de rock americana formada em Nova York em 1964 composta originalmente pelo cantor e guitarrista Lou Reed, o multi-instrumentista John Cale, o guitarrista Sterling Morrison e o baterista Angus MacLise (que mais tarde seria substituído pela jovem Maureen Moe Tucker). A cereja do bolo é que, em 1966, o artista pop Andy Warhol tornou-se o empresário da banda, época em que o grupo funcionava como uma house band no coletivo de arte de Warhol conhecido como "The Factory". O site Wikipédia nos conta que “sua integração do rock e da vanguarda alcançou pouco sucesso comercial durante a existência do grupo, mas agora são reconhecidos como uma das bandas mais influentes do rock underground, experimental e música alternativa. O assunto provocativo do grupo, os experimentos musicais e as atitudes muitas vezes niilistas também se mostraram influentes no desenvolvimento do punk rock e da música new wave”. Zeca Camargo escreveu na Folha de São Paulo que o filme “mostra a ebulição criativa da Nova York transgressiva dos anos 1960, que moldou a formação da banda de vanguarda The Velvet Underground. (...) Abençoado por Andy Warhol no auge da sua trajetória artística, o universo de sons criado por John Cale, Lou Reed, Sterling Morrison e Maureen (Moe) Tucker era tão fora da curva que não teve inicialmente sucesso comercial algum. Foi a história que consagrou a banda, sobretudo o álbum (...) "The Velvet Underground and Nico" (1967). E foi a persistência de Reed que fez de seu talento bruto uma referência para virtualmente todas as gerações de músicos posteriores”. O Velvet durou pouco. Foram apenas dois discos - de cinco no total - antes de Lou Reed e John Cale colidirem com suas personalidades.
O que disse a crítica: Camargo gostou. Escreveu: “É um processo orgânico e natural. Para que qualquer caldo cultural aconteça, é necessário que um grupo de pessoas talentosas e transgressoras se esbarre e comece a esboçar um movimento. Da Semana de 22, em São Paulo, à Nova York transgressiva dos anos 1970 - que colocou Patti Smith e Robert Mapplethorpe juntos -, da nouvelle vague à bossa nova, esses cenários artisticamente explosivos são ao mesmo tempo imprevisíveis e infalíveis. Podemos lamentar, hoje, a falta de conjunções assim, justamente quando o mundo e as artes mais precisam de novas ideias. Mas, se não podemos prever epifanias futuras, o documentário de Haynes nos lembra que é preciso celebrar as do passado”.
João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou como ótimo. Disse: “O contraponto dessa epifania, autor da maioria das músicas, igualmente brilhante, é Lou Reed, sempre de jaqueta de couro – ele podia usar a jaqueta como uma arma, disse a viúva Laurie Anderson, ou simplesmente tirá-la. Suas letras não julgaram os drogados, sadomasoquistas ou garotos de rua: como um semideus forjado no Olimpo artificial de Andy Warhol, ele estava tentando entrar em suas cabeças, captando o páthos e evitando o moralismo. Pura poesia. A estreita relação de trabalho entre Reed e Warhol durou apenas 18 meses, suficientes para fazer com que fossem vistos pelos conservadores de plantão como agentes da depravação e decadência da vida americana – drogas, homossexualidade e comportamentos desviantes de todos os tipos. ‘The Velvet Underground’ é o registro dessa jornada épica”.
O que eu achei: Todd Haynes é um diretor que flerta com a música faz tempo. É dele o filme "Superstar: The Karen Carpenter Story" (1987), uma produção independente que conta a saga da cantora dos Carpenters enfrentando sua anorexia. "Velvet Goldmine" (1998) com o cenário da música pós anos 1960, contando uma história ambientada no glam rock, com notas de David Bowie e Iggy Pop, também é dele. “Não Estou Lá” (2007) que é uma cinebiografia ficcional do astro da música Bob Dylan, também. Então tratar da temática da música em seus trabalhos não é novidade. Eu gostei demais do resultado. Conhecia muito superficialmente a trajetória da banda e o documentário foi bem elucidativo. Gostei especialmente de ver imagens de arquivo, filmes caseiros e filmes de 16 mm capturados pelo próprio Andy Warhol. São duas horas de êxtase visual e auditivo. Ao final do documentário é mostrado o destino de cada um: Andy Warhol morreu  em 1987 aos 58 anos de complicações pós-cirurgia; Nico lançou 6 discos em carreira solo e morreu em 1988 aos 49 anos de hemorragia cerebral; Sterling Morrison fez doutorado, virou professor de estudos medievais da Universidade do Texas e morreu em 1995 aos 53 anos de linfoma não hodgkin; Lou Reed lançou 22 discos de estúdio e 9 ao vivo e morreu em 2013 aos 71 anos de uma doença hepática; John Cale lançou 16 álbuns de estúdio e 6 ao vivo, está com 81 anos, ainda faz turnês e mora em Los Angeles e Maureen Tucker é mãe, lançou 4 discos como artista solo, está com 78 anos e mora na Geórgia. É documentário pra ver e rever.