13.7.23

“Roda do Destino” - Ryusuke Hamaguchi (Japão, 2021)

Sinopse:
 
Três mulheres lidam com os problemas dos relacionamentos modernos em diferentes situações. No primeiro episódio, uma produtora de moda (Kotone Furukawa) e uma modelo (Hyunri) dividem um táxi e, na conversa, a modelo percebe que o homem (Ayumu Nakajima) por quem a amiga está se apaixonando é o ex-namorado que ela largou. No segundo, um estudante universitário (Shouma Kai) humilhado por um professor (Kiyohiko Shibukawa) arma uma cilada para ele usando sua colega e amante (Katsuki Mori), mas a artimanha se metamorfoseia em uma interação reveladora. No terceiro conto, duas amigas de colégio (Fusako Urabe e Aoba Kawai) se reencontram depois de vinte anos até perceberem que elas não são as pessoas que pensam ter encontrado.
Comentário: Ryusuke Hamaguchi é um diretor de cinema japonês de quem já assisti o excelente “Drive My Car” (2021) que merecidamente abocanhou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Desta vez ele vai nos apresentar três histórias sobre o acaso e seu poder de transformação: "Magia (Ou Algo Parecido)”, "Porta Escancarada" e "Mais uma Vez". No primeiro episódio, uma produtora de moda e uma modelo dividem um táxi e, na conversa, a modelo percebe que o homem por quem a amiga está se apaixonando é o ex-namorado que ela largou. No segundo enredo, um estudante universitário humilhado por um professor arma uma cilada para ele usando sua colega e amante, mas a artimanha se metamorfoseia em uma interação reveladora. No terceiro conto, duas amigas de colégio se reencontram depois de vinte anos até perceberem que elas não são as pessoas que pensam ter encontrado. Numa entrevista concedida para o site Papo de Cinema, o diretor conta que “no Japão, curtas-metragens são difíceis de lançar e exibir comercialmente. Por isso, como não conseguiria mostrar estes curtas separadamente, decidi juntá-los para chegar à duração de um longa-metragem”. Sobre a temática das histórias ele diz: “Em geral, posso dizer que este é um filme sobre pessoas que não sabem o que querem. Elas estão perdidas no mundo, e por acaso, encontram outras pessoas que mudam o rumo de suas vidas. Qualquer ser humano possui emoções reprimidas, que não consegue expressar. Sem desejos reprimidos, não existiriam tantas ficções no mundo. Pensando por este aspecto, o filme é universal”. O título, na tradução direta do japonês, seria algo como “Acaso e Imaginação”.
O que disse a crítica: A crítica foi massivamente elogiosa. Ciro Araujo do site Vertentes do Cinema gostou muito do filme. Escreveu: “Associa-se todas essas características de ‘Roda do Destino’ e encontramos talvez uma narrativa austera, parecida com as produções do finado Eric Rohmer, cineasta francês. Uma existência ambígua e moral, que ecoam na cabeça de e para cada personagem escrito. Assim, há o nervosismo entre um ex-amor e uma amiga, o vício em sexo e medo de como é observada tomando conta e, por fim, a liberação de emoções antes reprimidas através de uma mera confusão. E ainda assim, a trindade de historietas se completam, em uma avalanche sensorial muito palpável e tranquila”.
Gabriel Zupiroli do site Plano Crítico achou excelente. Disse: “’Roda do Destino’ comporta três narrativas que procuram, de forma observadora, capturar certa humanidade em seus personagens através de um próprio conhecimento inesperado deles por si mesmos. Assim, é pelo acaso e pela surpresa que as condições para tanto são impostas. É também pela câmera extremamente inteligente de seu diretor que tudo isso é esculpido. E, é claro, por meio da amarra sólida entre seus filmes já muito tenazes que o conjunto adquire uma unidade orgânica, dialogável. À exceção de breves momentos em que o filme parece fugir de seu rigor, especialmente no primeiro segmento, trata-se de uma obra muito precisa e até mesmo leve, no sentido de que tem consciência de sua própria forma de encenar. Um filme espetacularmente delicado, agridoce e irônico”.
O que eu achei? Eu confesso que curtas-metragens não são muito minha praia, fico sempre com a impressão de que não dá tempo de desenvolver empatia pelos personagens nem aprofundar demais os temas. Como tanto “Drive My Car” (que tem a duração de 3hs) quanto este “Roda do Destino” (três filmes em 2hs) são de 2021, a impressão que me dá é que o diretor tinha esses filmes engavetados, não tinha o que fazer com eles e resolveu juntá-los num único produto, transformando-os num longa. Como ele mesmo confessa ao site Papo de Cinema, juntou por conta da falta de aceitação de curtas no Japão. Então dizer que esses três filmes são sobre “pessoas que não sabem o que querem” me parece uma grande artimanha para justificar essa união, algo muito feito em outras esferas como exposições de arte, por exemplo, que precisam de uma justificativa para o fato do curador reunir certos trabalhos numa mostra. Sobre os curtas em si, eles não são ruins, as histórias até que são bem interessantes “apesar de curtas”. Gostei especialmente do terceiro episódio chamado “Mais uma Vez”. O segundo tem uma curiosidade: se você assistir sem as falas vai ver basicamente pessoas comportadas conversando; se colocar o som vira uma história erótico-pornográfica. Hamaguchi, que já goza de prestígio, saiu do Festival de Berlim com o Urso de Prata por esse filme, o que não é pouco. Então, se gostar de curtas, diria que vale ver. Não tem a profundidade de “Drive My Car”, mas tem lá seu interesse.