17.7.23

“Sarabanda” - Ingmar Bergman (Suécia, 2004)

Sinopse:
Trinta anos após o divórcio, Marianne (Liv Ullmann) decide visitar Johan (Erland Josephson) no seu isolado retiro no interior e testemunha o relacionamento atormentado entre seu amargo ex-marido, seu filho, Henrik (Börje Ahlstedt) e uma neta de 19 anos (Julia Dufvenius). Ignorando os protestos de Henrik, Johan oferece mandar a garota para um prestigiado conservatório de música, forçando-a a escolher entre um futuro promissor como violoncelista ou ficar com seu atormentado pai.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 14 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977) e "Sonata de Outono" (1978). Desta vez vou conferir “Sarabanda" (2004).
Trata-se do 15° filme que assisto dirigido pelo sueco Ingmar Bergman, falecido em 2007. É o último de sua extensa carreira. Segundo nos conta o site da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “’Sarabanda’ é uma espécie de capítulo conclusivo de uma autobiografia cinemática. O filme retoma o clássico ‘Cenas de um Casamento’, de 1974, numa sequência atemporal e com os protagonistas 30 anos mais velhos. Marianne e Johan, separados no filme anterior, voltam aos velhos temas bergmanianos: as tensões nos relacionamentos e a rotina destrutiva, cuja inspiração remonta às brigas e discussões dos pais do diretor e que se repetiram em sua complicada vida sentimental, com cinco casamentos e, pelo menos, oito filhos”. 
Leonardo Mecchi do site Cinética nos explica que “não por acaso, o filme inicia-se com Marianne diante de uma mesa repleta de fotos - numa tentativa (também do diretor?) de ordenar e reavaliar memórias do passado, buscando nos caminhos já trilhados uma indicação do que, nesse momento de crepúsculo, ainda está por vir. Esse prólogo (assim como o epílogo), com Marianne dirigindo-se diretamente para a câmera, desvela a estrutura quase teatral do filme, e os dez capítulos numerados e com títulos introdutórios nos lembram que estamos diante de uma narrativa autoconsciente e com certo grau de reflexividade. (...) Embora haja um pequeno acerto de contas entre os dois personagens de ‘Cenas de um Casamento’, a maior parte da trama se desenvolve de fato na relação de Johan com seu filho Henrik, e deste com sua filha Karin”. 
O título do filme - “Sarabanda” - é o nome de um dos ritmos das suítes barrocas. O filme segue a estrutura da dança do século XVII: seus quatro personagens revezam-se em cena, sempre aos pares, em encontros distintos ao longo de seus dez capítulos. 
O que disse a crítica 1: Mecchi gostou do resultado. Escreveu: “Temos apenas quatro atores, alguns poucos cenários, uma fotografia discreta e uma câmera de poucos movimentos, mas nas mãos austeras de Bergman isso resulta em uma obra dilacerante que, ao expor seus personagens ao patético da condição humana diante da grandeza e complexidade da vida (e da proximidade da morte), faz o mesmo com o espectador, sem com isso cair num niilismo autocomplacente”.
O que disse a crítica 2: João Bénard da Costa da Foco Revista de Cinema também foi elogioso. Escreveu: “a câmera pode o que o nosso olhar não pode. E a câmera de Bergman pode mais que qualquer outra câmera, mesmo a de Griffith. Neste filme, vai ainda mais longe. Ao acercar-se mais e mais dos quatro rostos e das quatro vozes, para além dos corpos, dá-nos a ver almas. Impossível? Não para esse gênio de todos os possíveis, chamado Ingmar Bergman”.
O que disse a crítica 3: Natasha Moura do site Cineset achou o filme uma obra-prima. Disse: “Inspirado por Bach e seguindo a estrutura da dança sarabanda, sempre dançada em casal, a narrativa composta por dez cenas faz em cada uma delas o encontro entre apenas dois personagens. A cadência conscientemente seguida por Bergman é mais uma prova da influência da musicalidade nas suas obras, a harmonia ditando o enredo dos seus trabalhos. Henrik e Karin são dois violoncelistas apaixonados pelo instrumento, aquele projeta na filha a realização das suas aspirações, enquanto ela se frustra com a impossibilidade da própria vontade”.
O que eu achei: Só o fato de ser feito pelo Bergman, já se torna quase certo de que o resultado será interessante. Tratar das misérias humanas e da psicologia dos personagens é a praia dele desde sempre e este último filme de sua carreira, segue a mesma linha, aqui com o acúmulo da experiência como teatrólogo e cineasta e a maturidade. A dupla de atores protagonistas - Ullmann e Josephson - também têm a experiência acumulada. Fizeram vários papéis em inúmeras películas do diretor e evidentemente também aprenderam, ao longo das décadas, a desempenhar suas funções de forma natural e impecável. Mas não são só eles que se saem bem. Por isso, muita atenção à jovem Julia Dufvenius. Ela foi descoberta em 1997, quando estrelou como uma mulher forte e independente numa minissérie de TV. Após sua formatura, ela apareceu em um pequeno papel numa produção teatral do próprio Bergman e acabou escalada para este.