31.7.23

“Alpes” - Yorgos Lanthimos (Grécia/França/EUA/Canadá, 2011)

Sinopse:
Um grupo de pessoas denominado Alpes inicia um negócio em que eles se encontram regularmente em um ginásio esportivo para representar uma pessoa recentemente falecida a fim de ajudar os seus clientes através do processo de luto.
Comentário: Yorgos Lanthimos é um cineasta grego que admiro bastante. São dele as obras-primas “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017); além dos excelentes “Dente Canino” (2009) e “A Favorita” (2018). Eu sou fã de carteirinha, mas já aviso que seu cinema é estranho, por vezes agressivo, mas sempre extremamente pessoal. Como diz a matéria do site European Film Challenge: “Através da sua filmografia, Lanthimos consegue contar-nos quem é como autor e o que pretende representar no seu cinema. (...) As suas personagens, às vezes tão robóticas que parecem perder a pouca humanidade que lhes resta, tornam-se quase selvagens. Convertem-se em seres mais instintivos que racionais e essa é a chave da obra do cineasta grego. Lanthimos deslumbra o espectador através da frieza das suas personagens e da radicalidade dos seus atos - e os seus primeiros três filmes são o exemplo perfeito disso”. Então não é um estilo que agrada a todos. Desta vez vou conferir um filme de 2011 chamado “Alpes”. Como sempre, a premissa é pouco convencional. Conta a história de um grupo de pessoas denominado Alpes cujos integrantes usam nomes de montanhas enquanto oferecem seus serviços para famílias que tiveram perdas recentes, assumindo por um tempo os papéis dos entes queridos falecidos.
O que disse a crítica: Marcelo Leme do site Cine Players, achou o resultado mediano. Escreveu: “Lanthimos é de fato um diretor que se apega ao bizarro enquanto tece críticas a humanidade de seus personagens, sempre afetados, vítimas de condições morais. Algumas resoluções (...) se intrincam na sexualidade e no sexo, com fetiches e predisposições ao desejo reprimido”.
O site Palavras de Cinema disse: “Filme insuportável, em momentos, sobre a penetração do absurdo e, a certo ponto, sua naturalidade. É a forma de se viver em uma sociedade de silêncios e gestos brutos: assimilar outra vida, deglutir pessoas e suas famílias, até mesmo apelar ao ridículo”.
O que eu achei: Não se trata de um filme fácil. Além da estranheza do roteiro já esperada em tudo o que Lanthimos faz, “Alpes” exige uma boa colaboração do espectador, que vai precisar aceitar a situação insólita que está colocada e ter uma disposição para acompanhar uma história com pouca dinâmica. Apesar da trama parecer inverossímil, me lembrei imediatamente de uma notícia contando que, no Japão, há uma empresa chamada Family Romance que aluga substitutos para pai, mãe, filho, namorado, amigo e o que mais o cliente precisar. Muita gente aluga pessoas com o intuito de substituir eventualmente entes queridos que já se foram. Me lembrei também de uma outra notícia sobre uma aldeia, também no Japão, chamada Nagoro, que substitui cada pessoa que morre por um boneco em tamanho natural. Conta-se que atualmente a aldeia tem mais bonecos do que seres vivos. Então, apesar de estranha, essa ideia explorada pelo filme não é tão impossível de ocorrer. O filme reflete sobre o luto, colocando seu foco especialmente em uma integrante do grupo Alpes, que de tanto ser contratada para fingir ser outra pessoa, perdeu sua identidade e não sabe mais quem ela é. O filme termina e fica a pergunta: é possível preencher o vazio ou amenizar a dor deixada pela perda de alguém que se ama com um simples substituto? É um filme curioso, perturbador, mas que peca pela falta de dinamismo. Não é um filme ruim, mas em comparação com os outros que vi dele, achei este menos interessante.