17.6.23

“Saint Omer” - Alice Diop (França, 2022)

Sinopse:
Rama (Kayije Kagame) é uma romancista que assiste ao julgamento de Laurence Coly (Guslagie Malanda) no Tribunal Criminal de Saint-Omer, na Normandia. Laurence é acusada de matar a sua filha de 15 meses após abandoná-la numa praia no norte da França, em um momento de maré cheia. Rama tem por objetivo usar a história para escrever uma adaptação moderna do antigo mito de Medeia.
Comentário: Alice Diop (1979) é uma documentarista francesa. “Saint Omer” é seu primeiro longa narrativo e o primeiro filme que vejo dela.
O longa conta a história de Rama (Kagame), uma jovem romancista grávida que assiste ao julgamento de Laurence Coly (Malanda), uma mulher senegalesa acusada de assassinar sua filha de 15 meses, deixando-a em uma praia para ser arrastada pela maré. O interesse de Rama nessa história é seu desejo de transformar o trágico evento em uma releitura literária de Medeia, que ela pretende chamar de “O Julgamento de Medeia”. 
Medeia, para quem não sabe, é uma personagem da mitologia grega. Há várias estórias envolvendo seu nome. A versão mais conhecida é a escrita pelo poeta Eurípides. Na sua tragédia, apresentada pela primeira vez em 431 a.C., Medeia mata os filhos antes de fugir para Atenas, não num acesso de loucura, mas num ato de fria e premeditada vingança em relação ao marido infiel. Com isso fica fácil entender que é o infanticídio cometido pela própria mãe que liga as duas personagens. 
Entretanto, enquanto Medeia é uma personagem fictícia, Laurence é o retrato de uma pessoa real chamada Fabienne Kabou que, de fato, assassinou seu bebê em 2013 ao abandoná-lo em uma praia do norte da França. Esse julgamento que o filme mostra de fato ocorreu. Terminou com a justiça francesa condenando-a a 20 anos de prisão com um acompanhamento psicológico da acusada que aparentemente tinha problemas mentais. 
A diretora Alice Diop compareceu às sessões desse julgamento e, junto à escritora, roteirista e dramaturga francesa Marie Ndiaye e à montadora Amrita David (parceira em todos os seus documentários anteriores), iniciou o processo de pesquisa, apuração dos fatos e escrita do roteiro. 
Além do mito de Medeia, outra figura grega mitológica que o filme menciona é o da Quimera, uma criatura mística caracterizada pela aparência híbrida de dois ou mais animais. Esse mito compara mulheres à monstros humanos que carregam não só seus próprios DNAs, mas também o de suas mães e filhos. 
Sobre o título da obra - “Saint Omer” - a diretora explica que optou por manter o nome da cidade onde tudo ocorreu pela ressonância da palavra 'Sainte ô mère' (Santa ô mãe), que representa um lugar real e ao mesmo tempo cria um vínculo abstrato.
O filme foi pré-selecionado para representar a França na categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2023 e venceu o Leão de Ouro (Grande Prêmio do Júri) e o Leão do Futuro (Melhor Primeiro Filme) na última edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde estreou mundialmente.
O que disse a crítica 1: Neomisia Silvestre do site Teatrojornal escreveu: “Interessada pela abrangência do tema parental e não pela abordagem do infanticídio em si, Diop tece uma obra cinematográfica não distante de seu modo de fazer documental. Em simbiose e diálogo com o teatro e a pintura, ela conduz a seletividade de foco do espectador para propor direcionamentos e enquadramentos que muitas vezes exibem apenas quem ouve, ao invés de quem fala. Ou por meio de ângulos estáticos na cenografia monocromática de Anna Le Mouel, como se para invisibilizar a acusada, fazendo-a camuflar na madeira envernizada e nos figurinos terrosos, assinados por Annie Melza Tiburce”.
O que disse a crítica 2: Anastasia Lukovnikova do site Indie Lisboa escreveu: “‘Saint Omer’ é baseado em um tribunal verdadeiro, o qual a diretora presenciou, e coloca em julgamento tanto a protagonista quanto a experiência das migrantes africanas na França pós-colonial. Por trás de cada palavra e de cada olhar, entre as respirações e as lágrimas das mulheres, Alice Diop revela os monstros ocultos do passado. Indo além do mero drama de tribunal, o elétrico e épico filme questiona a tragédia da condição humana: podemos de fato separar o monstro do humano?” 
O que disse a crítica 3: Manoel Reis do site Fala Visual gostou muito. Ele disse: “Alice Diop vai fundo no que há de mais particular e dolorido em suas mulheres, e o faz sem precisar dizer muito, pois nos faz sentir parte do que elas sofrem internamente. Uma abordagem sensível, de admiráveis primor e elegância. ‘Saint Omer’ não é fácil, e nem deveria ser. É cansativo, e se estende em seus vazios e silêncios pois é isso que sua indigesta trama pede. Uma obra avassaladora que encanta enquanto fere. Um imperdível choque sensorial e primitivo”. 
O que eu achei: Apesar da louvável boa intenção da diretora em revelar questões de cultura e classe, racismo e misoginia, maternidade e filiação, em como as mulheres negras lutam para serem vistas em relacionamentos, famílias, países, tribunais, eu achei o resultado mediano. O filme possui um formato processual judicial simples e, muito lentamente, se transforma numa ruminação sobre esses temas. Há muitas palavras, claro, mas há altas doses de silêncios e olhares, que tornam o filme monótono e cansativo. A parte positiva está na trilha sonora. No decorrer há hipnotizantes músicas inteiramente compostas por vozes femininas primitivas e guturais e, ao final, há um maravilhoso cover de Nina Simone para “Little Girl Blue” de Janis Joplin. Ambas expressam uma tristeza avassaladora.