13.6.23

“Inferno Carnal” – José Mojica Marins (Brasil, 1977)

Sinopse:
 
Raquel (Luely Figueiró) e seu amante Oliver (Oswaldo de Souza) decidem assassinar o grande cientista Dr. George Medeiros (José Mojica Marins) - marido de Raquel - para ficar com sua fortuna. Mas mesmo desfigurado pelo ácido, Dr. George sobrevive, se recupera e vai atrás de sua terrível vingança.
Comentário: O filme é do diretor brasileiro José Mojica Marins, de quem já vi as obras-primas "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1967); os ótimos "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" (1968), "Ritual dos Sádicos / O Despertar da Besta" (1969), "Finis Hominis (O Fim do Homem)" (1971), "Delírios de Um Anormal" (1978) e "Encarnação do Demônio" (2007); o bom “A Estranha Hospedaria dos Prazeres” (1976) e o não tão bom "A Sina do Aventureiro" (1958). Falecido em 2020 aos 83 anos de idade, Mojica “exige ser revisto, retomado, reavaliado, reconfigurado sob outros olhares e perspectivas, algo que naturalmente vai acontecer (e já está acontecendo). Poucos realizadores, de fato, foram tão comentados, debatidos, estudados, descobertos e redescobertos ao longo do primeiro século de cinema brasileiro como José Mojica Marins. Sua morte cria um antes e um depois, e o impacto disso ainda está para ser escrito”. O filme é sobre um cientista brilhante, interpretado por Mojica, que quase não dá atenção para a esposa. Ela planeja matá-lo (com a ajuda do amante) e roubar sua fortuna.
O que disse a crítica: Marcelo Miranda do site Cinética escreveu: “Como é relativamente comum na filmografia do cineasta, trata-se de um conto moral em que ações de destruição perpetradas pelo protagonista são devidamente punidas no desfecho da história. Era a forma mais direta de Mojica tratar das culpas e ressentimentos que movem as classes abastadas e anestesiam o indivíduo em relação às consequências de seus atos. O caráter de crônica da crueldade se amplifica no retrato falsamente caricato dessas classes, tratadas pelo olhar do filme como um coletivo de tolos superficiais dispostos a qualquer sordidez. No que isso se diferia da classe média-alta brasileira da ditadura, com empresários financiadores do regime denunciados tempos depois por filmes ‘corretos’ como ‘Pra Frente Brasil’ (Roberto Farias, 1983)? Em Mojica, a grosseria da representação era a chave para se apreender a representação da grosseria. (...) Esses lumiares de representação vistos em ‘Inferno Carnal’ (...) aparecem em todo o cinema de Mojica, com mais ou menos intensidade, sempre na chave da brutalidade e do feio/grotesco, na consciência de um cinema subdesenvolvido produzido num país colonizado à base de muito sangue derramado. Sob esse aspecto, Mojica só via sentido em ser o mais honesto possível. Ou, como ele próprio diz, em depoimento registrado em ‘Audácia!’ (Carlos Reichenbach e Antonio Lima, 1970), o artista brasileiro, para ser autêntico, deve ‘afastar o manto nojento da demagogia’ e procurar ser o que realmente é no intuito de ‘dar mais expressão ao nosso eu’. José Mojica Marins não fazia cinema ‘bonito’. Fazia, isso sim, um dos cinemas mais brasileiros que se pode pensar”. 
O que eu achei: A meu ver, considerando que a produção do diretor tem sempre uma pegada de terror trash, não seria mesmo possível esperar por algo diferente. A história de Mojica sempre foi essa: fazer o máximo com o mínimo de recursos. E nessa produção não é diferente. Em comparação com os outros filmes que vi, este me pareceu um pouco mais convencional, uma espécie de conto de vingança que poderia ter saído diretamente do jornal “Notícias Populares”, aquele conhecido por suas manchetes violentas e sexuais. O que tem de diferente neste é a incorporação de alguns elementos surreais e sua aparição, em algumas cenas, como uma silhueta sombria que nos lembra “Nosferatu”, algo que não me recordo de ter visto anteriormente. Lembrei bastante também do filme “O Fantasma da Ópera” com o protagonista de rosto deformado usando uma máscara para não assustar ninguém. O final é ótimo e encerra o filme com uma macabra reviravolta.