
Comentário: Apichatpong Weerasethakul é um diretor tailandês que faz filmes pouco convencionais. Já vi dele os ótimos "Síndromes e Um Século" (2006) e "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" (2010); os bons “Mal dos Trópicos” (2004), "Hotel Mekong" (2012) e "Cemitério do Esplendor" (2015) e o curta “Blue” (2018). Desta vez vou conferir "Memória" (2021).
“Memória” conta a história de Jessica (Tilda Swinton), uma estrangeira que está na Colômbia, aparentemente tocando um negócio de venda de flores, enquanto sua irmã Karen (Agnes Brekke) se recupera de uma doença em um hospital. Ela começa a ouvir pancadas secas e estridentes que ninguém mais percebe e parte em uma investigação pessoal para entender o que está acontecendo consigo. Eventualmente, um jovem técnico de som, começa a lhe dar pistas. Trata-se do primeiro filme de Weerasethakul fora da Tailândia.
O que disse a crítica 1: Sérgio Alpendre da Folha SP gostou. Ele disse “'Memória' nos ensina a ouvir e a lembrar que cinema não é TikTok”. Para ele, “existem filmes, notadamente alguns de Alfred Hitchcock, Michelangelo Antonioni, Dario Argento e quase todos os de Brian De Palma, que podem nos ensinar a ver. São ensaios visuais que nos mostram que há sempre algo por trás da imagem, porque ela esconde outras imagens. ‘Memória’ (...) é dos filmes que nos ensinam a ouvir”.
O que disse a crítica 2: Luiz Zanin Oricchio do site Entretelas classificou como ótimo. Escreveu: o filme é “Um primor de simplicidade em sua mise-en-scène. Mas sempre nos interroga, e justamente com a pergunta que devemos evitar a todo custo durante o percurso: o que tudo isso está querendo dizer? O convite ao espectador é deixar-se levar. Como dizia Lacan, há um tempo para ver e um tempo para compreender - que não necessariamente são simultâneos. À maneira oriental, Apichatpong sugere um passo atrás, um compasso de espera em relação a seus filmes, que nos acompanham durante muito tempo, justamente porque vão se destilando aos poucos em nosso espírito”.
O que disse a crítica 3: Lucas Pistilli do Cineset não achou tão bom. Ele escreveu: “O cineasta pinta a Colômbia em tons cinzas e penumbrais, constantemente sob chuva forte. Mesmo quando a busca da personagem de Swinton a tira dos centros urbanos de Bogotá e Medellín e a remete ao coração do país, o clima nebuloso permanece como um lembrete de que há algo se desenhando por trás da aventura da protagonista. Esse pano de fundo, combinado com a natureza investigativa de Jessica, tornam o longa uma espécie ultralenta de filme noir - porém, isso não casa com o estilo do diretor, que favorece ambiência à narrativa. O cinema de Weerasethakul é, sobretudo, um cinema de sugestão e possibilidades - o que não é algo ruim - mas há tantas pontas soltas na costura de ‘Memória’ que ele acaba, como sua personagem principal, perdido em si mesmo”.
O que eu achei: Eu concordo com Pistilli: o filme deixa muito a desejar. Tilda Swinton - que manda muito bem como protagonista, incluindo ter que falar espanhol eventualmente - entrega aqui uma atuação controlada e fria, como manda a personagem, mas através da qual nada é informado de maneira clara. Sei que o cinema de Weerasethakul é um cinema autoral que exige uma entrega, um deixar-se levar por parte do espectador. Todos os filmes dele são assim: obras abertas de ritmo lento, desta vez até um pouco mais lento do que nos longas anteriores. O problema é que neste ele anda em círculos com o enredo e basicamente não chega em lugar algum. Trata de memória? Sim, trata. Mas o excesso de pontas soltas desanima.