
Comentário: Primeira vez que assisto um filme do Cristi Puiu. Uma breve pesquisa mostra que ele nasceu em Bucareste, na Romênia, em 1967. Estudou pintura e cinema em Genebra, na Suíça e dirigiu diversos longas-metragens como “Stuff and Dough” (2001), “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005), vencedor da seção Um Certo Olhar no Festival de Cannes, “Aurora” (2010), “Três Exercícios de Interpretação” (2013) e “Sieranevada” (2016). Ele também dirigiu um segmento do longa colaborativo “As Pontes de Sarajevo” (2014). “Malmkrog” (2020) é o sexto longa todo dele. O filme é uma adaptação do livro “War, Progress and the End of History: Three Conversations” (1915) - traduzido para o português como “Os Três Diálogos e o Relato do Anticristo” - do filósofo russo Vladimir Solovyov, fundador da filosofia moderna na Rússia. Vale saber que esse livro já havia sofrido uma adaptação feita pelo próprio Puiu em "Três Exercícios de Interpretação" (2013), produção que serviu de ensaio para este novo ‘Malmkrog’. Este drama de época desenrola-se em torno de um grupo loquaz da elite social composto por dois nobres e três senhoras da aristocracia. O grupo conversa sobre o Bem e o Mal, sobre Deus e a humanidade, sobre a ciência e a guerra, enchendo as salas suntuosas da mansão de reflexões detalhadas que criam uma mise-en-scène austera e eloquente. Dividido em seis capítulos, cinco deles são nomeados de acordo com cada personagem que participa dos diálogos, mais um capítulo que recebe o nome de István, chefe dos empregados. O título “Malmkrog” (Mălâncrav em romeno) refere-se ao nome do lugar onde se situa a mansão senhorial em que Puiu rodou o filme. É um lugar de origem alemã na região da Transilvânia.
O que disse a crítica: A crítica especializada, de uma forma geral, foi extremamente elogiosa com o resultado. Sérgio Alpendre da Folha SP escreveu: “o filme corria o risco de cair no chamado teatro filmado - quando a imagem pouco importa e o cinema fica em segundo plano. Felizmente, não é o que acontece. (...) A maneira como Puiu trata as conversas visualmente, ou seja, o posicionamento da câmera, as divisões das cenas, os tempos de corte e as escolhas entre o que mostrar e o que esconder, mais do que o ótimo texto, é que confere ao filme seu valor. (...) A câmera se move discretamente (...) com enquadramentos que parecem sonegar algumas reações e situações, nos deixando em temporário suspense. O efeito busca a interação do espectador, que deve completar as cenas com sua imaginação”. E finaliza dizendo: “Cristi Puiu atinge assim seu amadurecimento cinematográfico”.
Iann Jeliel do site Plano Crítico também gostou. Ele disse: “Se abraçar os mais de 200 minutos de conversas e prestar atenção em tudo o que é dito, não é preciso ter o conhecimento e o repertório de tudo que os cinco arquétipos colocam em debate para compreender que a ideia do cineasta Cristi Puiu é evidenciar o quanto as bases teológicas de filosofia e história são importantes para a compreensão do mundo social e a saúde dos debates ideológicos”.
José Vieira Mendes do site Magazine HD também achou o filme ótimo. O melhor, segundo ele, são “as notáveis interpretações dos atores que mais que diálogos prolongam-se em perfeitos monólogos”. A parte negativa fica para “alguns momentos do diálogo (ou monólogo) em que o personagem falando fica no plano fixo e que podem se tornar algo aborrecido para alguns espectadores menos habituados a uma espécie de teatro-filmado”.
O que eu achei: Apesar do texto interessante e do altíssimo nível intelectual que esse grupo de personagens traz, o filme carece de dinamismo e o falatório sem fim, boa parte composta por textos lidos ou recitados por eles, vão tornando a experiência cansativa demais. São longas conversas sobre a guerra, a ciência, a ética, a moral, o progressismo tolstoiano e sua ideia de cristianismo, falam da luta eterna entre o Bem e o Mal, da existência de Deus e do Diabo, do Anticristo, da morte, de conflitos entre Ocidente e Oriente da Europa, em considerações que foram publicadas há mais de 120 anos. Li uma resenha escrita por Vitor Evangelista do site Persona UNESP, que diz: “o diretor e roteirista Cristi Puiu traz (...) uma produção destinada às aulas de Cinema, mas que carrega seu valor de entretenimento. ‘Malmkrog’ é o tipo de filme que te faz pensar e teorizar muito mais sobre o que poderia ter sido, ao invés sobre o que inevitavelmente foi. O elefante na sala são as 3 horas e 20 minutos de duração, que já de cara afastam um público que não bate de frente com filmes que extrapolem seus cento e tantos minutos. E ‘Malmkrog’ não esconde sua forte pretensão de obra ‘importante e relevante’, cheio de pompa e ego inflado, o teatro filmado oscila entre o interessante e o tedioso, mas não por conta dos 200 minutos, e sim pela condução da narrativa principal, os estafantes debates”. É um filme que seria uma grande injustiça de minha parte classificá-lo como ruim ou como tempo perdido, mas absolutamente não é para todos, muito pelo contrário, é um filme para pouquíssimas pessoas já ele se resume basicamente a um debate, sem dramaticidade ou linearidade narrativa. Uma sugestão para acompanhar a produção sem se entediar tanto, seria aproveitar a divisão em 6 capítulos para ver como uma minissérie, ou seja, um capítulo por dia, de maneira que você possa digerir tudo o que foi dito, até porque não se trata de um texto raso mas de um texto filosófico profundo que eu confesso, preferiria ter lido do que ter assistido a todo esse falatório. Outra coisa estranha no filme é que todos os seus protagonistas são personagens russos, porém o filme é basicamente todo falado em francês. Aparentemente isso se deve ao fato de que francês era uma língua que toda a aristocracia era obrigada a falar à época. O filme foi vencedor do prêmio de Melhor Diretor da seção Encontros no Festival de Berlim. Como disse Francisco Ferreira no site Expresso 50: “’Malmkrog’ é um grande filme, não uma peça do Ikea”. Então veja, mas vá preparado.