
Comentário: Trata-se do filme número 54 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "Um filme póstumo que carrega consigo o sentimento de morte, anunciado em cada um de seus fotogramas. Assim se pode definir 'Querelle', dirigido pelo alemão Rainer Werner Fassbinder, que morreu aos 37 anos, dias após a conclusão das filmagens. O longa é um trabalho marcado pela pulsão de morte, que se opõe à de vida, assim como o impulso de destruição se opõe ao de preservação. Uma música cantada em cena pela personagem de Jeanne Moreau ainda insiste na questão: 'Todo homem mata as coisas que ama', ela diz, cantarolando palavras de Oscar Wilde. A trajetória do marinheiro que dá nome ao título do filme é feita de uma combinação de amor e morte. Ele mata um companheiro da marinha, seu suposto amante, e no rastro do desejo que sua passagem provoca, todo um jogo de espelhos, de reflexos e de repetições conduz a violências e assassinatos. 'O Amor é Mais Frio Que a Morte', título do primeiro longa-metragem de Fassbinder, feito em 1969, já anunciava sua visão de mundo amarga e desiludida. Em vez de decretar a morte do amor, Fassbinder usou o sentimento para fazer ver que nas relações humanas predomina um exercício de dominadores e dominados, em que amar é menos importante, no fim das contas, que destruir. Durante os curtos 13 anos em que filmou, o realizador alemão assinou 43 títulos, todos indicadores, de forma direta ou indireta, de sua visão niilista da natureza humana. Nascido durante os últimos bombardeios que deram fim ao regime de Hitler, Fassbinder levou para o cinema também uma leitura extremamente pessoal e cínica das transformações da sociedade alemã do pós-guerra em filmes como os da trilogia sobre a Alemanha Ocidental feita a partir de retratos de mulheres (composta por 'O Casamento de Maria Braun', de 1979, 'Lola', de 1981, e 'O Desespero de Veronika Voss', de 1981). Oriundo do teatro, seus filmes guardam a influência das ideias de Bertolt Brecht, que propunha um distanciamento do espectador em relação ao encenado a fim de que o indivíduo pudesse exercer consciência crítica a partir do drama. Por sua atenção ao universo feminino e por sua utilização do gênero melodrama, Fassbinder é considerado uma forte referência para o trabalho do espanhol Pedro Almodóvar". Creio que nesse texto da Bravo! faltou dizer algo importante sobre o filme: ele é uma adaptação de um livro do escritor Jean Genet (1910-1986), resgatado da marginalidade por Jean-Paul Sartre.
O que disse a crítica: Paulo Camargo do site A Escotilha escreveu: "Em Genet e sua obra, o existencialista viu uma força de resistência a tudo que fosse conformista, conservador e hipócrita. Esses traços fazem dele um autor que merece ser lido em tempos conservadores e reacionários como os que estamos vivendo hoje. Genet e Fassbinder tinham muito em comum. O cineasta bávaro era homossexual, depressivo e morreu em 1982, vítima de uma overdose suicida".
O que eu achei: Trata-se de um filme importante na cinematografia do diretor, mas não é o melhor filme dele. Apesar de toda a beleza plástica com cenários e luzes artificiais que lembram um teatro filmado, o filme resulta excessivamente eclético e ambíguo. Há uma falta de sentimento nas relações entre os personagens - a meu ver intencional - mas que impede uma conexão real com eles. É um filme ousado - do tipo ‘tirem as crianças da sala’ - que vale ser visto mais por curiosidade como fã do que pela qualidade final do trabalho.