23.5.23

“Laerte-se” – Lygia Barbosa da Silva & Eliane Brum (Brasil, 2017)

Sinopse:
A cartunista Laerte nos convida a conhecer seu mundo. Tendo vivido parte de sua vida como homem, ela assumiu sua transexualidade aos 57 e, de lá pra cá, experimenta uma jornada única e pessoal sobre o que é ser uma mulher.
Comentário: Finalmente consegui me organizar para assistir o documentário “Laerte-se” (2017) dirigido por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum. Laerte Coutinho, um renomado desenhista brasileiro, é uma figura icônica e pioneira no universo dos quadrinhos. Nascido em São Paulo, em 1951, Laerte se destacou ao longo dos anos por sua criatividade, senso de humor afiado e sua capacidade de abordar questões sociais e políticas por meio de suas ilustrações. Desde muito jovem, Laerte mostrou um talento inato para o desenho. Seu estilo único e sua capacidade de expressar ideias complexas através de traços simples e caricaturas cativaram o público. Ele criou personagens marcantes, como o "Piratas do Tietê", que se tornou uma das séries de quadrinhos mais populares do Brasil. Além de seu trabalho no campo dos quadrinhos, Laerte também é conhecido por sua atuação como chargista e cartunista político. Suas charges e ilustrações foram publicadas em importantes veículos de imprensa, onde ele abordou com sagacidade e crítica os acontecimentos e os personagens da cena política brasileira. A trajetória de Laerte não se limita apenas ao mundo dos desenhos. Ele também é conhecido por sua coragem e disposição em quebrar paradigmas e desafiar normas sociais. Laerte teve três filhos - perdeu um deles num acidente de carro -, passou por três casamentos, iniciando, nos anos 2000, uma jornada de autodescoberta e transformação de gênero, tornando-se uma figura importante no ativismo pelos direitos transgêneros no Brasil. Através de suas ilustrações e de sua própria vivência, Laerte tem explorado questões de identidade de gênero, sexualidade e expressão pessoal. Ele usa seu trabalho como uma forma de criar diálogos e estimular reflexões sobre temas muitas vezes negligenciados ou estigmatizados pela sociedade. Laerte recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos ao longo de sua carreira, incluindo o Troféu HQ Mix e o Prêmio Angelo Agostini. Seu impacto na cultura brasileira é inegável, influenciando várias gerações de artistas e tornando-se uma referência para aqueles que desejam utilizar a arte como meio de expressão e transformação social. O legado de Laerte como desenhista e ativista transcende o campo dos quadrinhos. Sua ousadia, criatividade e engajamento social o tornaram uma figura admirada e respeitada no Brasil e além. Seu trabalho continua a inspirar e desafiar as convenções, mostrando que a arte pode ser uma poderosa ferramenta para promover mudanças e questionar as normas estabelecidas. 
O que disse a crítica: Márcia Tiburi que, assim como eu, é fã de Laerte, gostou muito do documentário. Escreveu: “O documentário é lindo e me deu um orgulho da Lygia, que eu nem conheço pessoalmente, e da Eliane, que eu adoro muito. No Brasil, e fora dele, tudo é sempre tão difícil para os brasileiros que já podemos comemorar o sucesso que há de vir. Mas podemos, sobretudo, agradecer por essa realização das diretoras (e de todo mundo que trabalhou em ‘Laerte-se’), pois elas foram poeticamente fundo em um documentário que, além de esteticamente valioso – até por sair do âmbito da estética conservadora dos falsos cenários arrumadinhos e dos corpos ideologizados pelo esteticamente correto -, é ética e politicamente essencial para nosso Brasil atual, e também para o mundo. Em tempos de tanta humilhação, de tanta cafonice e maldade, senti um orgulho poético incomum por essa realização brasileira”. 
Marcello Müller do site Papo de Cinema também gostou. Disse: “A dramatização da factual relutância da cartunista e chargista Laerte Coutinho em começar a documentar a própria vida não é um dado gratuito em ‘Laerte-se’. Ela dá conta de um traço característico e insuspeito da personalidade dessa artista consagrada que assumiu a transexualidade aos 57 anos (...). A despeito da coragem de expor-se, de posar nua, de surgir como uma voz forte contra a opressora classificação de gênero apenas de acordo com a biologia, ela demonstra regularmente uma insegurança determinante que, muitas vezes, a emudece ou até mesmo a faz colocar em xeque seu incensado trabalho, tido como um dos mais importantes do país. Inegavelmente, Laerte já era conhecida antes de ressurgir mulher, mas a mudança deu-lhe outra proporção social, dimensão que o filme aborda de maneira muito orgânica enquanto se detém mais na instância privada dessa alguém que se redescobre”. 
O que eu achei: Eu também gostei demais. Me senti ali, íntima de Laerte, como se ela fosse minha melhor amiga. Se já era fã, agora é que sou fã ainda mais.