
Comentário: “Joyland” é um longa-metragem paquistanês falado nas línguas urdu e punjabi, escrito e dirigido por Saim Sadiq em sua estreia na direção. O filme gira em torno da família Rana onde os irmãos, suas esposas e filhas, vivem juntos na casa de seu pai já viúvo. Neste microcosmo patriarcal eles aguardam a chegada de um neto do sexo masculino para dar continuidade ao nome da família. O filho mais novo está em busca de emprego e o que ele encontra é uma vaga para dançar num teatro. Lá ele acaba se apaixonando por uma estrela transexual. O título do filme “Joyland” é o nome do parque de diversões da cidade. Por conta da temática LGBT o governo do Paquistão proibiu a exibição do filme. Conta-se que um partido de direita chamado Jamaat-e-Islami acusou o filme de ser "contra os valores paquistaneses". Eles acham que glamourizar os transgêneros no Paquistão, bem como seus casos amorosos, é um ataque direto às suas crenças, o que rendeu comentários indignados e debochados nas redes sociais, incluindo alguns que acusam a parte de se pronunciar sem assistir o filme. Em nota, o diretor, Saim Sadiq, afirmou estar "enojado" com a decisão, acrescentando que toda a equipe de filmagem pretende "fazer com que suas vozes sejam totalmente ouvidas contra esta grave injustiça”.
O que disse a crítica: Bruno Carmelo do site Meio Amargo achou o filme bom. Ele disse: “O drama possui bom ritmo, articulando sem tempos mortos as cenas de humor e leveza com outras mais graves. Adere, portanto, ao estilo agridoce dos feel good movies voltados à dor de terceiros - para o bem e para o mal. Sadiq embala sua fábula em cores agradáveis, enquadramentos e luzes aprazíveis, trilha sonora para acompanhar sentimentos. Nem a montagem, nem os enquadramentos buscam qualquer forma de fricção, provocação ou perturbação dos sentidos. A obra busca constituir uma experiência popular e terna, apesar da violência dos temas abordados. Questione-se ou não o valor desta abordagem, ela se mostra bem-sucedida em suas ambições cinematográficas”.
Tiago Cinéfilo do site A Odisseia também gostou. Escreveu: “O cinema paquistanês bebe muito da fonte do cinema indiano, afinal, os países se tornaram dois na pós-independência da coroa britânica ainda no século passado. Sendo assim, a pulsação e a vibração conhecida do cinema indiano com Bollywood e suas danças, reverbera nos filmes paquistaneses. ‘Joyland’ é um desses retratos, e consegue com louvor misturar temas sérios a assuntos totalmente despretensiosos e alheios, principalmente para nós que somos do ocidente”.
O que eu achei: Apaixonada que sou por fotografia, não pude deixar de notar a beleza dos enquadramentos com seus personagens bem iluminados e posicionados de maneira impressionante em becos, portas e outros espaços dentro de espaços. Não há um único quadro em que a câmera esteja no lugar errado. É um filme sincero, delicado, revelador e pertinente. Não há absolutamente nenhuma cena que justifique a censura sofrida no Paquistão, censura essa que só revela os muitos tabus de uma sociedade parada no tempo. O filme ganhou a Palma Queer do Festival de Cannes de 2022.