
Comentário: Trata-se da cinebiografia da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954). O filme - que teve seu roteiro baseado no livro biográfico escrito por Hayden Herrera - começa com Frida ainda na faculdade, mostrando o acidente de ônibus que ela sofreu aos 18 anos, que, por pouco, não a matou: ela teve vários cortes no corpo, quebrou a bacia, a coluna e teve um dos pés esmagados, além de um corte profundo causado por uma barra de ferro que atravessou seu corpo e saiu pela vagina. Mostra também seu casamento com o artista muralista Diego Rivera, seu relacionamento familiar, seus trajes pouco convencionais, o aborto, a deslealdade do marido e seu rápido relacionamento amoroso com Tróstski. Salma Hayek, de origem mexicana, é quem encarna a personagem, além de ser produtora do longa. Conta-se que ela teve dificuldades financeiras e de filmagem, mas ao final viu seu projeto acontecer. Por questões comerciais, o filme não foi feito em espanhol, porque acharam que "não venderia", então o longa acabou filmado em inglês, um detalhe que tira um pouco o brilho da produção.
O que disse a crítica: A crítica especializada ficou dividida. Maria Silvia Camargo do site Críticos achou o filme limpinho demais. Escreveu: “o corpo nu que aparece nas telas quando a personagem Frida está mostrando uma de suas cicatrizes, é o maravilhoso corpo de Salma Hayek. Nada a ver com o corpo de quem havia passado por mais de 15 cirurgias, algumas experimentais, tinha a coluna estilhaçada, um pedaço da pélvis enxertado na coluna e um pé torto. A irmã de Frida, Cristina, foi personificada pela deslumbrante Mia Maestro. A primeira mulher de Diego por Valeria Golino. E a anfitriã dos artistas mexicanos de então, Ashely Judd. Onde estão as mulheres dos anos 30, redondinhas e cheias de pelos debaixo do braço?”
Camie Guimarães do site Omelete foi mais elogiosa. Disse: “A importância de Frida em relação ao marido (vivido por Alfred Molina, em excelente atuação) é fonte de controvérsias. Alguns críticos de arte acusam o filme de distorcer a realidade, projetando a artista muito acima de Rivera. Se existe de fato alguma distorção, é relativa, já que ele não é o foco do filme. O que importa mesmo é que a evolução da obra da pintora é registrada com precisão, sempre integrada ao desenvolvimento da história. Sem didatismos e com uma montagem deliciosamente inovadora, Julie Taymor ressalta o caráter autobiográfico, quase ególatra dos retratos surrealistas de Frida”.
O que eu achei: Achei muito interessante conhecer a história de vida de Frida, em especial saber do relacionamento entre ela e Trótski. Vale lembrar que, “ao lado de Lênin, Trótski foi uma das figuras centrais na revolução de outubro. Mas, ao se opor às ideias de Stálin (...) acabou se tornando um perseguido político. Frida, que ingressou aos 21 anos no Partido Comunista Mexicano, era comunista declarada, e mostrou isso em muitos de seus quadros”. O livro “Frida e Trótski” escrito pelo tradutor literário, ensaísta e poeta francês Gerárd de Cortanze nos conta que “em 1937, o político soviético Leon Trótski e sua companheira, Natalia Sedova, fugiam tanto da perseguição stalinista quanto da fascista. Asilados no México, onde o então presidente Lázaro Cárdenas abrira as portas para refugiados políticos, os dois encontraram abrigo (...) numa residência célebre: a Casa Azul, lar de Frida Kahlo e Diego Rivera. Entre reuniões de intelectuais mexicanos, refeições típicas e obras de arte surrealistas, floresceu uma relação improvável: um caso amoroso entre a jovem Frida, então com menos de 30 anos, e Trótski, que já beirava os 60”. Apesar de arrebatador, o caso durou apenas seis meses. O soviético acabou assassinado na Cidade do México, morto a golpes de picareta por um homem pago por Stálin. Kahlo foi brevemente presa como suspeita, sendo inocentada e liberta depois de dois dias. Achei também lindas as inserções feitas em computação gráfica das telas de Frida como, por exemplo, quando a artista se vê atendida no hospital por várias caveiras. Feitos pelos métodos de animação, pintura ou colagem, estas narrativas visuais são um ponto alto do filme. Outra coisa bem bacana é a maravilhosa trilha sonora escolhida por Elliot Goldenthal, especialmente a música "Burn It Blue" interpretada por Caetano Veloso e Lila Downs, que acompanha os créditos finais. "Frida" concorreu a seis Oscars, ganhou Melhor Maquiagem e Melhor Trilha Sonora. É daqueles filmes gostosos de ver, se jogue.