
Comentário: Trata-se de uma adaptação da peça do dramaturgo Samuel D. Hunter sobre um homem em rota de autodestruição após a morte de seu grande amor. Tais Zago do site Café História nos conta que o autor “escreveu ‘A Baleia’ tendo sua própria vida e trajetória como inspiração. Nascido em Moscow, Idaho, ele foi compelido a se assumir gay já na adolescência, sofreu com a homofobia provinciana e suas mazelas emocionais refletiram em um ganho rápido de peso durante os anos de universidade. No filme, Samuel cria um “e se…” caso ele tivesse continuado o caminho que estava posto diante de si. Darren Aronofsky assistiu à peça em uma de suas muitas apresentações e rapidamente vislumbrou no roteiro material rico para um longa-metragem”. A história gira em torno de um professor de ensaios literários – que está pesando mais de 270 quilos - chamado Charlie (Brendan Fraser levou o Oscar de Melhor Ator por esse papel) que ministra aulas online não permitindo que seus alunos o vejam. Ele não sai de casa há tempos. Uma de suas grandes dores foi o seu afastamento compulsório da filha, na época com 8 anos, por ele assumir uma relação homoafetiva com um de seus estudantes. Tudo em Charlie é machucado, e apesar do foco em sua aparência como alegoria para sua ruína, a parte mais evidente da tremenda dor que carrega é revelada pelos seus olhos e pela sua voz. Ao seu lado ele tem a fiel amiga Liz (Hong Chau), uma enfermeira que o acompanha e tenta trazer conforto aos seus dias. Liz o conhece bem, mesmo que no fundo, ela não queira aceitar o caminho escolhido por ele.
O que disse a crítica: A crítica ficou altamente dividida com o resultado. Pablo Villaça do site Cinema em Cena, achou o filme sofrível. Ele disse: “em pouco menos de duas horas, ‘A Baleia’ tenta incluir em sua narrativa discussões complexas sobre fanatismo religioso, homofobia, ideação suicida, compulsão alimentar/alcoolismo e o sistema de saúde desumano dos Estados Unidos - falhando em trazer qualquer contribuição relevante aos temas, mas conseguindo soar gordofóbico e misógino no processo, o que é uma proeza considerável”.
Caio Coletti do site Omelete também não gostou. Escreveu: “Fraser é excelente, mas não onipotente, e no fim das contas sua bela performance não consegue esconder a feiura de ‘A Baleia’ como peça dramática e elaboração cinematográfica”.
Por outro lado, Tom Leão do Jornal do Brasil gostou muito. Ele disse: “Esteja avisado de que, ao entrar na sala para assistir ‘A Baleia’, você não sairá da mesma forma. O tour de force de Fraser, bem como tudo o que cerca a produção, é de dilacerar o coração. Não será nenhuma surpresa se o ator, conhecido por trabalhos mais amenos, como a aventura ‘A Múmia’ e a comédia ‘George das Selvas’ (onde exibia uma forma física espetacular), ganhar a estatueta dourada”.
Renato Caliman gostou ainda mais. Ele falou: “Para quem pensa que a fat suit [trajes de gordura] é o grande chamariz, está enganado. O ator conquista o espectador com uma interpretação pautada pelo olhar, ora doce, ora carregado de tristeza. Incapaz de se movimentar com fluidez, Fraser torna a fala calma e o olhar melancólico armas preciosas na humanização de Charlie, despertando um misto de sentimentos que poderiam facilmente ser resumidos em piedade se não fosse por sua composição minimalista e também bastante otimista”. E finaliza dizendo: “Performances de ouro e uma condução sóbria fazem de ‘A Baleia’ um filme que vai além das aparências. Pega pelo coração”.
O que eu achei: Eu que sou fã do diretor e acompanho seus trabalhos fiquei menos impactada por este. Não achei uma obra-prima mas também não achei sofrível. Fraser se mostrou um baita ator, ele está perfeito na caracterização e na interpretação. Foi uma alegria vê-lo receber o Oscar após um período grande de ostracismo. Já a narrativa do filme, que oscila entre expor as consequências clínicas da obesidade e retratar o psicológico do protagonista, tem sua espinha dorsal presa a uma rotina básica de conversas triviais e falta de substância. A fotografia escura e o enquadramento são opressivos, reforçando o conceito do que está sendo visto. Mas, apesar de ser um filme incômodo, como de fato se esperava que fosse, achei que faltou profundidade na exploração dos temas. É um bom produto, mas não alcança o resultado de outras obras do diretor como “O Lutador” (2008), “Cisne Negro” (2010) e “Mãe!” (2017).