
Comentário: Trata-se de um filme do sueco Ruben Östlund de quem já assisti aos ótimos “Força Maior” (2014) e “The Square – A Arte da Discórdia” (2017). “Triângulo da Tristeza” concorreu à três Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. O título refere-se a um termo usado por cirurgiões plásticos para a ruga de preocupação que se forma entre as sobrancelhas, que pode ser corrigida com botox em 15 minutos. A história começa acompanhando os jovens modelos Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean), que estão navegando pelo mundo fashionista enquanto tentam se tornar influencers. Eles ganham passagens para viajar num cruzeiro de luxo, únicos passageiros classe média num grupo de milionários, liderado por um comandante alcóolatra e comunista (Woody Harrelson). Porém, uma noite de tormenta e ataques de piratas fazem o navio naufragar, deixando os sobreviventes presos numa ilha deserta. A hierarquia do grupo muda completamente quando dentre esse bando de ricaços, a única pessoa que sabe como sobreviver nesse local inóspito é a faxineira filipina, capaz de pescar e fazer uma fogueira. Logo, essa sarcástica comédia dirigida e escrita por Ruben Östlund passa a discutir a nova dinâmica que inverte os poderes entre os sobreviventes e os papéis de gênero.
O que disse a crítica: A crítica especializada ficou dividida. Roberto Sadovski do Splash UOL disse: “’Triângulo da Tristeza’ é uma sátira social fascinante... até deixar de ser”. Segundo ele, “nada mais triste do que ver uma boa ideia sendo espremida até perder seu significado”. O filme “parte de uma premissa bacana - observar o choque social quando a cultura das subcelebridades entra na mistura”. Mas no decorrer sofre uma queda quando “deixa as ideias de lado e descamba em um didatismo canhestro e desinteressante”.
Julia Sabbaga do site Omelete também achou mediano. Ela diz: “Ruben Östlund faz sua crítica social moderna sem muita originalidade e com escatologia de sobra”. E conclui: “É inegável que ‘Triângulo da Tristeza’ provoca emoções, mas talvez pela sua dificuldade de despertar desconforto através da paródia, repetitiva e familiar demais, ele recorre ao abusivo. Sem uma trama ou desfecho para chamar de seu, o filme de Östlund se sustenta em cenas pontuais e atuações, deixando sua ideia geral mais no campo da pretensão do que da realização”.
Aline Pereira do site Adoro Cinema gostou. Escreveu: “’Triângulo da Tristeza’ surpreendeu em várias frentes: dos recursos visuais escatológicos que fariam inveja às cenas perturbadoras de ‘Crimes do Futuro’ (...), à empolgação que gerou nas salas de cinema. Com uma crítica direta ao ponto e cheia de ironias à alta sociedade, o longa do cineasta sueco Ruben Östlund (...) aponta o óbvio, mas faz isso com tanto carisma que causa impacto e se divide com precisão entre entretenimento e repulsa”.
O que eu achei: Eu pessoalmente achei o filme menos interessante e mais superficial do que “Força Maior” e “The Square”. Há uma sequência interminável de escatologia que beira o insuportável. Dividido em três partes, quando o filme finalmente chega no terceiro capítulo, sua ideia central já meio que evaporou, seguindo num didatismo que custa a terminar. Não que o filme seja ruim, mas poderia ser melhor se a duração (147 minutos) fosse mais enxuta. De qualquer forma achei o final bem interessante. O filme não abocanhou nenhum Oscar, mas venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. A notícia mais triste, no entanto, fica por conta da atriz principal Charlbi Dean que interpretou a jovem influencer Yaya. A sul-africana faleceu aos 32 anos, meses depois do lançamento do filme. O site UOL nos conta que “em uma entrevista dada à época, o irmão da atriz disse que Charlbi comentou sobre fortes dores de cabeça. Em seguida, a modelo pediu ao namorado que fosse levada ao hospital - sua morte foi anunciada menos de 24 horas depois”. No site Catraca Livre a informação é que: “ela foi vítima de uma septicemia bacteriana. Trata-se de uma resposta agressiva do organismo a uma infecção, o que causa uma espécie de inflamação generalizada e pode resultar em falência múltipla dos órgãos. Um fator que complicou seu quadro foi a não-existência do baço em seu corpo. O órgão, um dos responsáveis pela filtragem do sangue no organismo, foi retirado depois de um grave acidente de carro que ela sofreu em 2009. Uma cicatriz de grandes proporções em sua barriga aparece em algumas cenas do filme”.