28.3.23

“A General” – Clyde Bruckman & Buster Keaton (EUA, 1926)

Sinopse:
 
Quando a Guerra Civil americana teve início, o maquinista Johnny Gray (Buster Keaton),  apaixonado pelo seu trem A General, não foi aceito para lutar porque seria mais útil como engenheiro da ferrovia. Assim, sua amada Annabelle (Marion Mack) começou a pensar nele como covarde. Até o dia em que ele vai provar que tem coragem e também loucura, ao perseguir sozinho um bando de espiões unionistas que roubaram o trem A General e dentro dele Annabelle Lee.
Comentário: Trata-se do filme número 51 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. O filme é mudo, tonalizado e vale cada minuto. A matéria diz: “Dos dois grandes ícones da comédia muda, Charles Chaplin foi o que atingiu maior popularidade com a figura de Carlitos. Entre os cinéfilos mais fanáticos, entretanto, seu ‘rival’ (eram amigos, na ver­dade) Buster Keaton é igualmente celebrado. Para alguns, inclusive, é superior a Chaplin. A verdade é que seus estilos são bem diferentes. Enquanto o ator/autor de 'Tempos Modernos' trabalha com o humor de maneira mais escrachada - carregada de mímicas e heróis que não se incomodam de rir de si mesmos -, sempre atrás da gargalhada, Kea­ton, formado na infância pelo trabalho no circo, raramente ri. Seus per­sonagens se mantêm impassíveis, imóveis, sempre levam seus fracas­sos a sério. E por isso são tão engraçados. ‘A General’, co-dirigido por Clyde Bruckman e considerado por Keaton seu melhor trabalho, é baseado em uma história verdadeira, ocorrida du­rante a Guerra Civil Americana: apaixonado com a mesma intensidade por sua locomotiva General (daí o título) e pela encantadora Annabelle Lee (Marion Mack), o maquinista Johnny Gray (Keaton) não é aceito no alista­mento dos Confederados para a batalha. Sua amada passa a considerá-lo um covarde. Ele tem a chance de provar sua valentia quando Annabelle e a General são sequestradas pelo exército da União. Johnny empreende uma perseguição de trem em busca de suas duas paixões. Esta foi uma produção caríssima para a época, com centenas de figurantes e dublês contratados. O caprichoso diretor sonhava em utilizar a verdadeira General nas filmagens. Não conseguiu: teve de se conformar com outra locomotiva, o que para os padrões da época já era excêntrico o suficiente. Para completar, o trem era completamente destruído na passagem em que uma ponte desaba - uma das cenas mais caras da era do cinema mudo. O longa não obteve repercussão, nem de público nem de crítica. No ano seguinte, o diretor assinou um contrato com a MGM e passou a fazer filmes falados, sem nunca atingir o mesmo padrão de qualidade de sua obra durante o cinema mudo. Caiu na obscuridade, de onde saiu na década de 1950, ao estrelar ao lado do velho companheiro Charles Chaplin o tocante ‘Luzes da Ribalta’ (1952)”. 
O que disse a crítica: Cesar Castanha do site Cine Players considera o filme uma obra-prima. Ele diz: "Não é surpreendente que possamos rir da Guerra, afinal, os filmes de Charles Chaplin já nos convidavam a rir da fome e de condições de extrema pobreza e precariedade - um riso que não zomba do personagem Carlitos, o ingênuo ‘vagabundo’, mas nos convida a um sentimento de solidariedade com ele e contra um sistema que o coloca naquelas condições. O que ‘A General’ nos propõe, muito mais do que isso, é um filme de Guerra sobre o fracasso, sobre as armas que falham e sobre heróis improváveis. Ideologicamente, o longa parece tomar uma posição de superação da Guerra e apagamento dos problemas políticos que levaram a ela ao convocar uma leitura mais cômica do evento. E é nesse ponto que, acredito, esconde-se a grande sacada da construção de cena de ‘A General’. O movimento da locomotiva revela, aqui, algo sobre a encenação do país pelo filme. O EUA, sobre os trilhos de Keaton, é um lugar que não conhece a fronteira entre um campo de Guerra e uma comunidade civil, ou o que separa a paisagem natural (...) do território (...). O melhor do cinema clássico, do cânone, não são aqueles que nos entregam algo que podemos já prontamente nomear de ‘obra-prima’ a partir de um roteiro pré-estabelecido para o que isso seria, e sim aqueles trabalhos que deixam vestígios para novos desenvolvimentos a cada revisão. E é neste ponto, no sentido pra mim mais interessante, que ‘A General’ se revela, dos clássicos, um dos maiores”.