
Comentário: Segundo Gregorio Belinchón do jornal El País, depois de ter lançado diversos curtas, “havia chegado a hora de Charles Chaplin, aos 30 anos, dirigir seu primeiro longa-metragem. E o londrino não hesitou: o roteiro seria inspirado na sua infância, em seus dias no bairro de Kennington, na sua fuga da polícia, quando sua mãe foi internada em um manicômio e os guardas ameaçavam levá-lo para um orfanato (seu pai, alcoólatra, o havia rejeitado). (...) Carlitos já estava situado no imaginário coletivo quando Chaplin encarou ‘O Garoto’. (...) A rodagem durou quase seis meses, um tempo exagerado para a era do cinema mudo”. Ao final ele tinha acumulado 150.000 metros de negativo. Como o filme era maior do que os anteriores que ele já havia rodado, ele resolveu pedir um cachê maior à sua produtora, a First National Pictures. “A produtora recusou, e seu irmão, Sydney, levou o filme para fora do Estado da Califórnia, até que a First National Pictures deu o braço a torcer. Não só isso, como também, por contrato, os direitos sobre o filme retornaram a Chaplin cinco anos mais tarde. Desde sua estreia, em 6 de fevereiro de 1921 nos Estados Unidos, ‘O Garoto’ foi um sucesso descomunal. O comediante acompanhou o filme em seu lançamento europeu, em meados do mesmo ano, e em cada país milhares de pessoas o recebiam em estações ferroviárias e portos". O filme, que completou 100 anos em 2021, recebe, até hoje, os maiores elogios.
O que disse a crítica: Yves São Paulo no site Rede Brasil Atual escreveu: “Como artista da pantomima, Chaplin domina o palco, alcança a perfeição do ritmo dos momentos e deslocamento ao longo do cenário - lembremos da icônica sequência da corrida pelos telhados, homenageada por Manoel de Oliveira em ‘Aniki Bobó’. Como diretor de cinema, Chaplin demonstra o domínio do corte, da sequência de planos em situações simultâneas em locais distintos, e da composição de quadro, reconhecendo a importância de portas e janelas como forma de reenquadrar certos personagens”.
Ivanildo Pereira no Cineset acha o filme ótimo. Ele disse: “É graças à sinceridade de Coogan [ator que interpreta o menino], e de Chaplin (...) que ‘O Garoto’ ainda hoje é especial. O filme faz rir (...) e emociona do mesmo jeito, com honestidade. Ele capta, nos seus melhores momentos, uma pureza emocional que não se pode fingir ou fabricar. Ela vem honestamente, do coração, e fotografar o que se passa no coração é um milagre, algo que muitos filmes almejam, mas nem todos conseguem”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema deu nota máxima. Escreveu: “’O Garoto’ é emblemático na carreira de Chaplin, dos seus títulos mais celebrados, justamente por conjugar risos e lágrimas, comédia física e melodrama, apelando ao interior dos espectadores como só as grandes obras conseguem, sem maquinações ou truques baratos, e sim com a sinceridade das que guardam todos os corações do mundo em sua aparente inocência”.
O que eu achei: Atenção para o ator que interpreta o protagonista. O site Memórias Cinematográficas nos conta que o menino Jackie Coogan, estreou nos palcos ainda bebê, atuando em espetáculos de seus pais. Para encontrá-lo Chaplin foi ao teatro espiar as companhias de vaudeville, quando o viu. Como o menino já havia feito um papel no cinema, Chaplin quis fazer um teste encenando com ele o curta “A Day's Pleasure” (1919). O resultado foi ótimo, então Chaplin produziu “O Garoto” colocando-o como protagonista. O filme fez um enorme sucesso e a emocionante atuação do menino fez dele um astro da noite para o dia. Coogan começou a trabalhar exaustivamente, protagonizando diversos filmes e fazendo turnês nacionais nos palcos, ao lado de seu pai. O menino ganhou muito dinheiro. Entretanto, quando ele completou 20 anos, seu pai acabou falecendo num acidente de carro e sua mãe resolveu se casar novamente, desta vez com o empresário de Coogan. Aquilo que era até então um conto de fadas se transformou subitamente num enorme pesadelo pois o casal sumiu com o patrimônio do jovem que já somava, na época, cerca de 4 milhões de dólares. Foi uma longa batalha judicial entre ele e a mãe cujo resultado foi a recuperação de apenas 126 mil dólares. Coogan tornou-se alcoólatra, casou e se separou. Conta-se que Chaplin o amparou financeiramente inúmeras vezes. Entretanto, com o passar dos anos, Coogan foi voltando à cena, oras interpretando papéis menores, oras fazendo figuração, até que em 1964 ele foi escalado para trabalhar na série “A Família Addams” (1964-1966). Era ele que interpretava o hilário personagem Fester Addams, mais conhecido no Brasil como Tio Funéreo (na primeira dublagem da série) e Tio Chico (na segunda). Esse trabalho não só foi sua salvação financeira, como reabriu as portas para diversos outros papéis ao longo da vida. Ele faleceu em 1984, aos 69 anos de idade, após sofrer uma parada cardíaca. Chaplin gostava tanto do filme que em 1971 ele remontou a película incluindo uma nova trilha sonora. Trata-se de um programa daqueles para reunir a família e se preparar para grandes emoções e muitas risadas. Obrigatório e imperdível.