
Comentário: Todd Field é um diretor, roteirista e ator de cinema e televisão americano. Como diretor, sua filmografia consiste em três filmes: “Entre Quatro Paredes” (2001), “Pecados Íntimos” (2006) e este, mais recente, “Tár” (2022). “Tár”, que foi indicado em seis categorias do Oscar, conta a história fictícia da renomada regente e compositora do mundo internacional da música clássica chamada Lydia Tár, interpretada magistralmente por Cate Blanchett. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, não foi inspirado em história real. Basicamente o que o filme faz, é mostrar como ela se tornou a primeira maestrina de uma grande orquestra alemã e, posteriormente, sua derrocada, tendo como pano de fundo a cultura do cancelamento por conta de um histórico de comportamentos controladores, abusivos e narcisistas que a tornam alvo em um caso de suicídio de outra artista.
O que disse a crítica: A crítica especializada foi unanime em aclamar o resultado. Aline Pereira do site Adoro Cinema disse: “Ao longo dos últimos anos, a onda de denúncias e exposição de predadores na indústria artística inspiraram uma longa lista de produções que revelam as raízes profundas da violência - sexual, psicológica, física - escondida sob a fachada glamorosa da arte. Ainda que um possível esgotamento do ‘gênero’ seja questionável (não pela relevância, mas pelas abordagens), 'Tár' se distancia ao encontrar uma protagonista que nos mantém inquietos e incomodados o tempo todo”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema elogiou o fato da personagem Lydia “não caber sem nuances nas caixinhas de vilã e mocinha, transitando entre as duas como provê a natureza misteriosa e obscura de sua humanidade. E essa ambivalência, ou bem melhor dizendo, a impossibilidade de resumir tudo em dualidades, é lindamente construída pela mise-en-scène de Todd Field, sobretudo, haja vista a excepcional utilização dos ambientes e de outras molduras para conter impulsos devastadores numa atmosfera enganosa de sobriedade”.
Lucas Oliveira do site Cinematório idem. Ele escreveu: “’Tár’ consegue ser mais do que um estudo de personagem, um fascinante tratado sobre seres humanos e o poder. Ancorado em uma interpretação irretocável e uma entrega absoluta de Cate Blanchett, a obra é daquelas que sempre aprecio bastante por me deixar em permanente suspense acerca do que irá acontecer em seguida. E, principalmente, por me fazer ficar vários dias pensando e me questionando sobre os sentidos do que vi”.
O que eu achei: De fato, não haveria melhor escolha para interpretar Lydia Tár. Cate Blanchett aprendeu a falar alemão, aprendeu a reger uma orquestra e a tocar piano para o papel e, sem ela, o filme talvez não se sustentasse. Ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza e concorreu também ao Oscar, perdendo para Michelle Yeoh, de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. O enredo fala da dificuldade da mulher em ocupar um cargo que sempre foi de homens, ao mesmo tempo ele levanta questões ligadas aos próprios autores clássicos em suas épocas, suas virtudes e pecados, sua genialidade e sua humanidade. Frente a isso, não espere um filme fácil. As inúmeras qualidades do roteiro que acompanha essa personagem cheia de matizes, com seu caráter frio, distante e ambíguo, impregna toda a obra tornando-a uma espécie de quebra-cabeça que vai exigir de você um esforço para tentar encaixar as peças desordenadas. É um filme denso e exigente, vulgar e refinado ao mesmo tempo, a projeção termina e ele fica ali, dias e dias tentando ser montado dentro de seu cérebro. Por isso veja quando você estiver disposto a nadar em águas profundas.