12.3.23

“Marte Um” - Gabriel Martins (Brasil, 2022)

Sinopse:
A família Martins vive tranquilamente nas margens de uma grande cidade brasileira após a decepcionante posse de um presidente de extrema-direita. Sendo uma família negra de classe média baixa, eles sentem a tensão de sua nova realidade. Tércia (Rejane Faria), a mãe, reinterpreta seu mundo depois que um encontro inesperado a deixa em dúvida se ela é amaldiçoada. Seu marido, Wellington (Carlos Francisco), coloca todas as suas esperanças na carreira do filho Deivinho (Cícero Lucas), que por pressão e querendo agradar o pai, segue as ambições dele, apesar de secretamente aspirar estudar astrofísica e colonizar Marte. Enquanto isso, a filha mais velha, Eunice (Camilla Damião), se apaixona por uma jovem de espírito livre e questiona se é hora de sair de casa.
Comentário: Após estrear no Festival Sundance de Cinema, o primeiro filme de Gabriel Martins foi exibido em diversos festivais internacionais e venceu quatro prêmios no Festival de Cinema de Gramado, incluindo o Prêmio Especial do Júri. Em seguida o filme foi indicado pela Academia Brasileira de Cinema como o representante brasileiro para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional, porém não foi selecionado. Quando comecei a ver o filme fiquei pensando em como boa parte da população brasileira acha os filmes nacionais desinteressantes. Acho que o fato deles terem uma luz que a gente já conhece, uma natureza e uma arquitetura familiares, tipos físicos que vemos todos os dias e a língua que usamos diariamente, o resultado é sempre uma narrativa sem as novidades daquilo que nos é estrangeiro. De posse dessa consciência fiz o exercício de assistir “Marte Um” como se eu não fosse daqui, me perguntando: como seria a recepção pelos estrangeiros se ele tivesse sido indicado ao Oscar. A história gira em torno de um menino pobre de periferia (Cícero Lucas) cujo sonho é integrar o projeto “Humans to Mars”, divulgado pela NASA em 2017, cujo objetivo era o de colonizar Marte até 2030, recrutando pessoas para uma ida sem volta. Enquanto seu pai sonha que ele se transforme num jogador de futebol profissional, o que ele quer é ser astrofísico. Tudo isso ambientado num Brasil pós-eleições de 2018, quando a extrema direita assumiu o poder com um plano de governo que desrespeita as minorias, faz pouco caso das dores alheiras e pouco se importa com o coletivo. O filme é bem agradável de se ver. Os atores são ótimos e a cena final é de arrancar lágrimas dos olhos. Porém há um ou outro problema de ritmo que faz o filme demorar um pouco mais do que deveria para engrenar. Outra questão a ser revista é a captura ou equalização do áudio, um problema comum nos filmes brasileiros que vem de longa data, talvez originado pela falta de investimento do país em cinema. 
O que disse a crítica: A crítica especializada foi bastante elogiosa. Eduardo Pereira do site Omelete disse: “’Marte Um’ consegue construir símbolos elaborados e complexos de prisões emocionais e econômicas que se tornam ainda mais evidentes graças à escalação de um elenco predominantemente preto não só como protagonista, mas também em papéis de apoio. Isso permite ao filme não só confrontar a histórica ausência de representatividade negra nos grandes filmes nacionais, como também abordar direta, mas sutilmente o racismo estrutural que assola tão intimamente a identidade do Brasil”. 
Roberto Honorato do site Plano Crítico escreveu: há um “excelente trabalho com as personagens carismáticas, bons diálogos e a direção segura de Gabriel Martins. (...) A atuação poderosa de Rejane Faria [a mãe], traz uma complexidade maior para um drama que seria um desastre nas mãos de uma atriz menos competente”. 
Robledo Milani do site Papo de Cinema disse que “afetividade e empatia” são as “palavras que tão bem definem ‘Marte Um’. Essa capacidade que o ser humano possui, mas com tanta dificuldade exerce, de se colocar no lugar do outro e se permitir sentir as dores e as alegrias que lhes são externas, mas passíveis de identificação. Ir a Marte pode soar tão absurdo quanto se formar na faculdade, se tornar famoso nas redes sociais, comemorar seu aniversário, confiar num colega de trabalho, deitar no colo da namorada em público, fazer cinema”. 
O que eu achei: Ganharia o Oscar? Apesar do filme ser bem bacana, creio que não, já que os indicados ao prêmio dificilmente abocanhariam uma estatueta enfrentando problemas técnicos. Vale ver? Sim, “Marte Um” é um dos grandes filmes brasileiros de 2022. Tanto a produtora mineira Filmes de Plástico como o diretor Gabriel Martins - que logo na estreia nos entrega uma obra desse nível - merecem atenção.