19.10.20

"Rosas Venenosas" - Ahmed Fawzi Saleh (Egito, 2018)

Sinopse:
 
Aos 28 anos de idade, a jovem Tahya (Marihan Magdy) vive em um pequeno bairro no Cairo, com seus costumes religiosos e conservadores. Seu irmão caçula (Ibrahim El-Nagari) possui planos de fugir para a Itália de barco e ela se vê com a responsabilidade de fazer com que ele fique.
Comentário: Ahmed Fawzi Saleh (1981) é um cineasta egípcio. "Rosas Venenosas" (2018) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se do primeiro longa-metragem de ficção do diretor. O filme surgiu como uma forma de levar ao cinema a realidade social invisibilizada do Cairo contemporâneo, especialmente a dos trabalhadores informais que atuam nos curtumes do bairro de Ezbet el-Nakhl, uma área marcada por precariedade, poluição e abandono do poder público. Saleh já havia trabalhado em documentários e aqui mantém um olhar atento ao cotidiano, aos gestos e ao ambiente como forma de comentário silencioso sobre classe, gênero e sobrevivência.
O roteiro é uma adaptação do romance “Crocs”, do escritor Ahmed Zaghloul El-Sheikh. A obra literária foi transformada em uma narrativa mais concentrada no ponto de vista feminino: Tahya, uma jovem que trabalha em sua casa como guardiã do irmão mais novo, Saqr. Ele sonha em fugir do Egito em busca de uma vida melhor na Itália, mesmo que isso signifique enfrentar uma travessia perigosa de barco pelo Mediterrâneo, um reflexo direto da crise migratória real que afeta milhares de jovens do Norte da África.
Enquanto o irmão planeja sua partida, Tahya se agarra desesperadamente à impossibilidade de perdê-lo. Sua vida é definida pelo cuidado, pelo medo e por um sentimento de abandono iminente. O filme acompanha a rotina repetitiva, sufocante e dura nesse bairro de curtumes, onde o ambiente tóxico, a lama e o cheiro forte dos produtos químicos tornam-se parte do cenário físico e simbólico, como se o espaço engolisse seus moradores lentamente.
A escolha de locações reais e de muitos atores não-profissionais aproxima o filme de uma linguagem quase documental. Isso reforça a intenção de Ahmed Fawzi Saleh de mostrar, sem romantização, um recorte social específico do Egito: uma juventude sem perspectivas que vê na migração ilegal uma das únicas saídas possíveis, e mulheres presas em papéis silenciosos de espera, cuidado e resistência.
"Rosas Venenosas" foi exibido em importantes festivais internacionais, incluindo o Festival de Roterdã, levando para o mundo uma perspectiva egípcia rara no circuito comercial: íntima, crua e centrada em personagens que normalmente permanecem à margem das telas.
O que eu achei: Trata-se de mais um filme da Mostra Cine África que o SESC vem exibindo ao longo do semestre. Este, do Egito, é do diretor Ahmed Fawzi Saleh. O ritmo desse filme é lento e acontece muito pouca coisa no decorrer dos seus curtos 70 minutos de duração. Com isso o interesse pelo que virá vai se esvaindo ao longo da história. A câmera basicamente acompanha a jovem Tahya que anda de um local para o outro. O que tem de interessante na película é o fato dela mostrar os bastidores do Cairo com tanta desigualdade social. Talvez ele te faça entender porquê muita gente se aventura por sair em botes pelo mar em busca de uma vida melhor.