3.4.19

"Solaris" - Andrei Tarkovski (URSS, 1972)

Sinopse: O famoso psiquiatra Kris Kelvin (Donatas Banionis) vai à estação espacial Solaris com uma importante missão científica: decidir se o trabalho realizado de investigação sobre um misterioso planeta deve continuar. Ao chegar à estação Kelvin já é surpreendido pelo suicídio de um dos integrantes da tripulação, sendo que outros dois, Snaut (Jüri Järvet) e Sartorius (Anatoli Solonitsyn), estão à beira da loucura. Com o tempo, o próprio Kelvin passa a se sentir estranho, tendo transes oníricos onde vê sua ex-esposa Hari (Natalya Bondarchuk), falecida há anos.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. Assisti dele as obras-primas "A Infância de Ivan" (1962) e "Stalker" (1979). Desta vez vou conferir "Solaris" (1972), uma adaptação do livro homônimo de Stanisław Lem.
O que eu achei: O filme é tão bom e fez tanto sucesso que muita gente acha que o filme veio antes do livro. Curioso saber que por conta dessa adaptação o escritor se desentendeu com Tarkovski. Segundo li em matéria escrita por Olga Kempinska na Revista Cult, que Lem teria ficado decepcionado com as escassas visualizações do planeta, e também aborrecido por Tarkovski ter se concentrado demais no tema da culpa, fazendo não 'Solaris', mas sim 'Crime e Castigo', conforme se lê em uma entrevista concedida pelo romancista na época. Polêmicas a parte o filme é incrível. “Solaris” (1972) é uma obra-prima que revela todo o alcance filosófico e estético de Andrei Tarkovski. Muito além de um filme de ficção científica, ele se torna uma profunda meditação sobre memória, amor, perda e o mistério da consciência humana. Ao adaptar o romance Tarkovski não se interessa por espetáculos tecnológicos, mas pelo interior dos personagens, transformando o espaço sideral em espelho da alma. Cada cena é carregada de densidade emocional e de uma espiritualidade rara, capaz de envolver o espectador de forma íntima e perturbadora. A beleza plástica do filme é extraordinária: os longos planos, o contraste entre a Terra e a estação Solaris, a forma quase orgânica como o oceano alienígena é retratado. Tudo contribui para uma experiência audiovisual que não se limita a contar uma história, mas a conduzir quem assiste a um estado de contemplação. A fusão entre o rigor técnico e a poesia visual torna “Solaris” uma experiência que transcende o gênero e coloca o cinema em diálogo direto com a filosofia e a arte. O resultado é um filme inesgotável, que se renova a cada revisão e abre múltiplas leituras sobre o que significa ser humano. “Solaris” não é apenas um marco da filmografia de Tarkovski, mas também um dos grandes monumentos da história do cinema, capaz de comover, inquietar e elevar o espectador a um patamar raro de reflexão.