Sinopse: A vida de Andrei Rublev (Anatoly Solonitsyn), o grande pintor de ícones da Rússia do século XV, um período de intensa turbulência e também de diversas dificuldades pelas quais passava o povo russo. Na época o país sofria com a pobreza, a rigidez da igreja ortodoxa e também as invasões tártaras. Nesse cenário caótico, estão inseridos os diversos episódios da vida de Andrei, que mais tarde abandonaria seu trabalho como pintor, para se dedicar a Deus.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. Assisti dele as obras-primas "A Infância de Ivan" (1962), "Stalker" (1979) e "Solaris" (1972). Desta vez vou conferir "Andrei Rublev" (1966).
O filme é vagamente inspirado na vida do pintor Andrei Rublev - não espere uma cinebiografia - mas retrata de modo fiel a Rússia Medieval. Segundo o site Wikipédia, "os temas do filme incluem liberdade artística, religião, ambiguidade política, autodidatismo e fabricação de arte sob um regime repressivo. Devido a isso, não foi lançado internamente na União Soviética oficial ateísta e autoritária (...), com exceção de uma única seleção de 1966 em Moscou. Uma versão do filme foi exibida no Festival de Cinema de Cannes de 1969, onde ganhou o prêmio FIPRESCI. Em 1971, uma versão censurada do filme foi lançada na União Soviética. O filme foi ainda cortado por razões comerciais após o lançamento nos Estados Unidos através da Columbia Pictures em 1973. Como resultado, existem várias versões do filme".
O que eu achei: “Andrei Rublev” (1966) é um dos pontos mais altos do cinema mundial e talvez a obra que melhor expressa a visão poética de Tarkovski. Ao retratar a vida do monge e pintor de ícones no turbulento século XV russo, o diretor cria muito mais do que uma biografia: constrói uma meditação grandiosa sobre arte, fé e a condição humana diante da violência e da incerteza histórica. Cada episódio funciona como um fragmento de um poema épico, onde o silêncio, a contemplação e a dor se entrelaçam para revelar a força espiritual do artista que encontra beleza mesmo em meio ao caos. Visualmente, o filme é arrebatador. A fotografia em preto e branco, de uma plasticidade impressionante, confere aos cenários um aspecto de gravura medieval, enquanto a cena final em cores, com os ícones de Rublev, surge como revelação sublime - quase uma epifania cinematográfica. Tarkovski domina o tempo e o espaço de maneira magistral, utilizando longos planos e composições de rara intensidade para criar imagens que se gravam na sensibilidade como verdadeiros versos visuais. “Andrei Rublev” é pura poesia porque transcende a narrativa linear e se afirma como experiência espiritual e estética. É um filme que interroga o sentido da arte, o papel do criador e a relação entre sofrimento humano e transcendência, sem jamais perder a dimensão profundamente humana de seus personagens. Uma obra monumental, que confirma Tarkovski como um dos maiores poetas que o cinema já conheceu.
