2.4.19

"A Casa que Jack Construiu" - Lars von Trier (Dinamarca, 2018)

Sinopse: Um dia, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack (Matt Dillon) mata uma mulher. Este evento provoca um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar dezenas de pessoas ao longo de doze anos. Devido ao descaso das autoridades e à indiferença dos habitantes locais, o criminoso não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executá-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio (Bruno Ganz) numa jornada rumo ao inferno.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele as obras-primas "Melancolia" (2011) e "Dogville" (2003) e os ótimos "Manderlay" (2005), "Anticristo" (2009) e "Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2" (2013)Desta vez vou conferir "A Casa que Jack Construiu" (2018).
O filme dirigido por Lars von Trier e escrito pelo próprio cineasta, configura-se como um roteiro original.
A obra mistura elementos de drama psicológico e terror para acompanhar a trajetória de Jack, um assassino em série que narra, em retrospecto, alguns de seus crimes ao longo de vários anos, estruturados como “incidentes” que marcam sua evolução.
O protagonista é interpretado por Matt Dillon, enquanto Bruno Ganz vive Virgílio, interlocutor misterioso que dialoga com Jack ao longo do filme, conduzindo reflexões sobre arte, moralidade e violência. O elenco conta ainda com atrizes conhecidas como Uma Thurman e Riley Keough.
A narrativa se passa principalmente nos Estados Unidos, embora o filme seja uma produção europeia, e utiliza diferentes locações e cenários que recriam ambientes urbanos e rurais ao longo do tempo. 
Como em outros trabalhos de von Trier, há uma forte preocupação estética e conceitual, com o diretor incorporando referências artísticas e históricas ao longo da obra.
O longa foi exibido fora de competição no Festival de Cannes em 2018, marcando o retorno de von Trier ao evento após anos de afastamento. A sessão gerou grande repercussão, com relatos de espectadores que deixaram a sala durante a exibição devido ao teor explícito de algumas cenas.
Entre as curiosidades mais comentadas está o fato de o filme dialogar diretamente com a ideia do artista como criador, estabelecendo paralelos entre os crimes de Jack e processos artísticos, o que gerou debates sobre a intenção do diretor. 
A estrutura em capítulos e o uso de narração em off também são características marcantes, aproximando o filme de uma espécie de ensaio audiovisual sobre violência, estética e obsessão.
O que eu achei: Não é o melhor filme da carreira do diretor, mas é um bom filme. Traz muitas referências artísticas como imagens de catedrais, pinturas, livros... e é bastante autorreferente citando suas obras anteriores. Vale saber que o Virgílio, pra quem ele conta toda sua história, é o poeta autor da "Eneida", também citado na "Divina Comédia" de Dante. Polêmico, Bruno Carmelo do site Adoro Cinema, observa na seu texto crítico que "ele [o diretor] ousa repetir a 'piada' de que 'compreende Hitler', ao falar do papel deste como ícone histórico, como alguém hábil o suficiente para realizar tantas matanças impunemente. Depois de ser banido do festival de Cannes por este comentário, o diretor retorna a Cannes com um filme no qual reafirma a mesma ideia". Põe polêmica nisso! Trilha sonora de primeira.