Sinopse: O jovem Alejandro (Jeremías Herskovits) vive com seus pais judaico-ucranianos Jaime (Brontis Jodorowsky) e Sara (Pamela Flores) na cidade de Tocopilla, no Chile. Jaime é um comunista que trabalhou para Stalin e cria seu filho de modo severo. Ele pretende assassinar o então presidente de extrema direita Carlos Ibáñez del Campo (Bastian Bodenhofer). Para aproximar-se do presidente, Jaime consegue o emprego de cuidador do seu amado cavalo, Bucephalus.
Comentário: Alejandro Jodorowsky (1929) é um cineasta, ator, poeta, escritor (filmes e histórias em quadrinhos) e psicólogo ("psicomago" como se autodenomina) chileno-francês. "A Dança da Realidade" (2013) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se de um filme de caráter autobiográfico que recria a infância do próprio diretor na cidade de Tocopilla, no Chile, durante as décadas de 1920 e 1930. A narrativa mistura acontecimentos históricos, lembranças pessoais e elementos simbólicos, refletindo a forma como a memória transforma a realidade em algo próximo do mito e da fábula.
O filme acompanha o jovem Alejandro em meio a um ambiente familiar marcado por fortes contrastes. Seu pai é um militante político severo e autoritário, enquanto a mãe se expressa quase sempre por meio de canções, dando ao cotidiano um tom teatral e onírico. A relação entre pai e filho, atravessada por rigidez, expectativas e conflitos, é um dos eixos centrais da história.
Paralelamente, o filme retrata a vida social e política da cidade, incluindo a exploração de trabalhadores, a repressão estatal e as desigualdades que atingem a população local. Esses eventos são apresentados de forma estilizada, combinando crítica social com imagens alegóricas e situações fantásticas, características recorrentes no cinema de Jodorowsky.
A narrativa não segue uma estrutura realista convencional, alternando episódios íntimos com sequências simbólicas que representam medos, desejos e processos de amadurecimento do protagonista. O próprio Jodorowsky aparece em cena como uma espécie de guia espiritual, observando e interagindo com sua versão infantil, reforçando o caráter reflexivo e metaficcional do filme.
“A Dança da Realidade” é o primeiro capítulo de uma série autobiográfica do diretor, seguida por “Poesia sem Fim” (2016), e propõe uma reconstrução poética da infância como caminho para compreender a formação artística, política e emocional de seu autor.
O que disse a crítica: Segundo Luiz Santiago do Plano Crítico "não é um filme fácil, para todos os públicos e para todos os gostos, 'A Dança da Realidade' tem o benefício da linearidade bem utilizada, mesclada aos símbolos, aos 'exageros de memória', à poesia visual do diretor, fazendo toda a diferença para o público, que não precisa criar uma linha - qualquer que seja - para melhor abstrair os significados do filme. E eu nem levanto isto para dizer que narrativas mais livres, como (...) 'A Montanha Sagrada' ou mesmo a obra-prima do diretor, 'El Topo' (1970) são 'deficientes' por conta de sua soltura. A questão é que dado um espaço, um tempo e um tema central, independente do que estiver no meio, a plateia conseguirá ao menos se apegar a algo, dando maior suporte para uma leitura, que é basicamente o que fazemos na maioria dos filme de diretores que mesclam estilos, mundos e experiências, como David Lynch, Greenaway e o próprio Jodorowsky".
Comentário: Alejandro Jodorowsky (1929) é um cineasta, ator, poeta, escritor (filmes e histórias em quadrinhos) e psicólogo ("psicomago" como se autodenomina) chileno-francês. "A Dança da Realidade" (2013) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se de um filme de caráter autobiográfico que recria a infância do próprio diretor na cidade de Tocopilla, no Chile, durante as décadas de 1920 e 1930. A narrativa mistura acontecimentos históricos, lembranças pessoais e elementos simbólicos, refletindo a forma como a memória transforma a realidade em algo próximo do mito e da fábula.
O filme acompanha o jovem Alejandro em meio a um ambiente familiar marcado por fortes contrastes. Seu pai é um militante político severo e autoritário, enquanto a mãe se expressa quase sempre por meio de canções, dando ao cotidiano um tom teatral e onírico. A relação entre pai e filho, atravessada por rigidez, expectativas e conflitos, é um dos eixos centrais da história.
Paralelamente, o filme retrata a vida social e política da cidade, incluindo a exploração de trabalhadores, a repressão estatal e as desigualdades que atingem a população local. Esses eventos são apresentados de forma estilizada, combinando crítica social com imagens alegóricas e situações fantásticas, características recorrentes no cinema de Jodorowsky.
A narrativa não segue uma estrutura realista convencional, alternando episódios íntimos com sequências simbólicas que representam medos, desejos e processos de amadurecimento do protagonista. O próprio Jodorowsky aparece em cena como uma espécie de guia espiritual, observando e interagindo com sua versão infantil, reforçando o caráter reflexivo e metaficcional do filme.
“A Dança da Realidade” é o primeiro capítulo de uma série autobiográfica do diretor, seguida por “Poesia sem Fim” (2016), e propõe uma reconstrução poética da infância como caminho para compreender a formação artística, política e emocional de seu autor.
O que disse a crítica: Segundo Luiz Santiago do Plano Crítico "não é um filme fácil, para todos os públicos e para todos os gostos, 'A Dança da Realidade' tem o benefício da linearidade bem utilizada, mesclada aos símbolos, aos 'exageros de memória', à poesia visual do diretor, fazendo toda a diferença para o público, que não precisa criar uma linha - qualquer que seja - para melhor abstrair os significados do filme. E eu nem levanto isto para dizer que narrativas mais livres, como (...) 'A Montanha Sagrada' ou mesmo a obra-prima do diretor, 'El Topo' (1970) são 'deficientes' por conta de sua soltura. A questão é que dado um espaço, um tempo e um tema central, independente do que estiver no meio, a plateia conseguirá ao menos se apegar a algo, dando maior suporte para uma leitura, que é basicamente o que fazemos na maioria dos filme de diretores que mesclam estilos, mundos e experiências, como David Lynch, Greenaway e o próprio Jodorowsky".
O que eu achei: Em “A Dança da Realidade” (2013), Alejandro Jodorowsky retorna ao cinema para revisitar a própria infância, transformando sua biografia em matéria-prima para um espetáculo de cores, símbolos e situações alegóricas. O filme se apresenta menos como um relato organizado de formação e mais como uma sucessão de quadros que oscilam entre o político, o familiar e o francamente onírico, em uma lógica que privilegia a experiência sensorial e a fabulação. Há, sem dúvida, algo de fascinante nessa proposta. A cidade de Tocopilla surge como um espaço teatralizado, povoado por personagens excêntricos, corpos deformados, cantos repentinos e gestos extremos. A mãe que se expressa cantando, o pai fanático e violento, e a presença do próprio Jodorowsky em cena, guiando sua versão infantil, compõem um universo que assume sem pudor sua artificialidade. Tudo parece construído para afirmar que estamos dentro de uma memória recriada, não de uma reconstituição fiel. Ao mesmo tempo, essa liberdade simbólica é também o que torna o filme irregular. A profusão de metáforas, rituais e imagens impactantes nem sempre se articula em uma progressão dramática clara, e muitas sequências soam mais como ilustrações de ideias do que como partes orgânicas de uma narrativa. O resultado é um filme que desperta curiosidade constante: nunca se sabe exatamente que tipo de cena virá a seguir, mas que também pode gerar certa distância emocional, pela dificuldade de se envolver de forma mais profunda com o percurso do protagonista. A dimensão política, ligada à repressão e às desigualdades sociais no Chile da época, aparece misturada ao drama familiar e à busca espiritual, mas raramente se desenvolve para além do plano simbólico. Tudo é filtrado pela estética jodorowskiana, em que a provocação visual muitas vezes se sobrepõe ao desenvolvimento dos conflitos, funcionando mais como um gesto artístico de autoanálise e celebração do imaginário do diretor do que como um filme narrativamente envolvente. É curioso, inventivo e repleto de imagens que chamam a atenção, mas também disperso e excessivo em sua própria mitologia. É ruim? Não. Mas é uma experiência singular, diferente de tudo que já vi.
