Sinopse: Em um país não nomeado, a suposta queda de um meteorito criou uma área com propriedades estranhas, onde as leis da física e da geografia não se aplicam, chamada de Zona. Dentro da Zona, segundo reza uma lenda, existe uma sala onde todos os desejos são realizados. Com medo de uma invasão da população em busca da tal sala, autoridades vigiam o local e proíbem a entrada de pessoas. Apenas alguns têm a habilidade de entrar e conseguir sobreviver lá dentro, são os "stalkers". Um escritor (Anatoli Alexejewitsch Solonizyn) e um cientista (Nikolay Grinko) querem entrar e contratam um stalker (Alexander Kaidanovsky) para guiá-los lá dentro. No caminho até a tal sala, vão passar por rotas misteriosas e muitas vezes, mutáveis.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. Assisti dele a obra-prima "A Infância de Ivan" (1962). Desta vez vou conferir "Stalker" (1979).
Segundo Ekaterina Vólkova Américo e Edelcio Américo da Revista Cult, "assistir às cenas 'imóveis', típicas de Tarkovski, é um verdadeiro desafio hoje, quando a cultura de massas criou uma nova percepção da realidade, marcada pela alternância frenética das informações. Sendo assim, por que assistir Tarkovski hoje? Como toda obra genial, 'Stalker' ultrapassa os limites de sua época e de seu país, permanecendo sempre atual, sempre aberta a novas leituras. Hoje, é difícil imaginar como foi possível o surgimento de um fenômeno como Tarkovski em um ambiente de tamanha censura como a União Soviética. Há, no mínimo, duas explicações para isso: a primeira, o abrandamento do regime pós-Stalin, e a segunda, é claro, o sucesso de sua estreia como diretor na obra 'A infância de Ivan' (1962), que seguia a orientação do partido de abordar um lado menos oficial e mais humano da Guerra. (...) Ao contrário da maioria dos filmes de Tarkovski, 'Stalker' foi exibido em todo o território da União Soviética, praticamente sem cortes da censura. Ao mesmo tempo, foi o último filme produzido pelo diretor em solo soviético. Antes do início das filmagens, Tarkovski vivia sérios problemas financeiros e sua salvação seria esse novo projeto. Porém, rotulado pelas autoridades soviéticas como um diretor de mensagens pouco claras, ele tinha imensa dificuldade em conseguir recursos para financiar seus projetos. A solução foi se unir aos irmãos Arkadi e Borís Strugátski e trabalhar com textos de cunho fantástico. Após inúmeras propostas, o livro 'Piquenique na Beira da Estrada' foi aprovado como roteiro para o novo filme. O texto original foi radicalmente alterado, os autores, que então viraram roteiristas, tiveram que reescrevê-lo inúmeras vezes até conseguirem agradar o diretor. Foi especialmente difícil chegar a um acordo quanto ao personagem principal, Stalker. A própria palavra é um neologismo criado pelos irmãos Strugátski, que hoje faz parte da língua, e define guias que levam excursões às construções abandonadas, como à cidade de Pripiat, próxima ao local da catástrofe nuclear de Tchernóbyl. Se, no romance original, Stalker conduzia expedições à 'Zona' para ganhar dinheiro, no filme ele adquiriu traços de um louco, um mendigo vidente, personagem muito querido na cultura russa, e único a ter permissão de falar verdades desagradáveis mesmo diante do tsar, mesmo se este fosse Ivan, o Terrível. Assim, o próprio Tarkovski (assim como Pasternak, Brodsky e tantos outros) torna-se uma espécie de Stalker que, em sua obra, se opõe ao regime".
O que eu achei: “Stalker” (1979) é um mergulho hipnótico na essência do cinema como arte filosófica e espiritual. Andrei Tarkovski constrói um universo em que o espaço físico - a Zona - é tão importante quanto o interior dos personagens, funcionando como metáfora poderosa para a busca humana por sentido, fé e transcendência. A narrativa se desenrola em ritmo contemplativo, mas cada silêncio, cada pausa, carrega uma densidade que provoca reflexão profunda. É um filme que não oferece respostas fáceis, mas abre caminhos infinitos de interpretação. Visualmente, “Stalker” é deslumbrante. O contraste entre o mundo árido de fora e a riqueza visual da Zona revela o domínio absoluto de Tarkovski sobre a linguagem cinematográfica. A forma como ele utiliza a cor, a textura das paisagens e o movimento da câmera transforma o espaço em entidade viva, quase mística. O som, ora discreto, ora perturbador, completa essa atmosfera única, criando uma experiência sensorial que prende o espectador em um estado de contemplação. Mais do que uma história de ficção científica, “Stalker” é um poema visual sobre a condição humana, sobre os limites do desejo e a necessidade de acreditar em algo maior. É uma obra que transcende fronteiras culturais e temporais, reafirmando Tarkovski como um dos maiores cineastas da história. Sem dúvida, uma experiência cinematográfica grandiosa, capaz de renovar a forma como se enxerga o cinema e a própria vida. Imperdível. Outra obra-prima do diretor.
