Sinopse: Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) são casados e encenam a montagem da peça teatral "A Morte de um Caixeiro Viajante", de Arthur Miller. Um dia, eles são surpreendidos com o alerta para que eles e todos os moradores do prédio em que vivem deixem o local imediatamente pois, devido a uma obra próxima, todo o prédio corre o risco de desabamento. Diante deste problema, Emad e Rana passam a morar, provisoriamente, em um apartamento emprestado. É lá que Rana é surpreendida com a entrada de um estranho no banheiro.
Comentário: Asghar Farhadi é um cineasta iraniano. Assisti dele o ótimo "A Separação" (2011). Desta vez vou conferir "O Apartamento" (2016).
Segundo Rodrigo Fonseca, "Encarado hoje como o mais pop dos cineastas do Irã, pelo fenômeno mundial de 'A Separação' (ao faturar US$ 19 milhões nas bilheterias internacionais), Farhadi faz de Emad uma metáfora viva para as contradições de seu país. No enredo, ele começa como um educador progressista que, pouco a pouco, vai afundando em tabus e em preconceitos. Em meio aos ensaios de 'A Morte de um Caixeiro Viajante', sua mulher é agredida por um homem que invade a casa para onde o casal acabou de se mudar. O local era a casa de uma garota de programa e o agressor era um cliente desta. Para defender sua honra, Emad investiga o caso, sedento de revanche, dando margem para que Farhadi estabeleça uma relação entre cinema, teatro, machismo e convicções culturais".
Em entrevista ao site Omelete em Cannes, Fahardi declarou: “Pouco se sabe, no Ocidente, da transformação urbana pela qual o Irã vem passando nos últimos anos, expressa por uma nova ordenação arquitetônica de alguns bairros centrais. Tem muita obra acontecendo, num esforço de renovação. Mas isso, que é tido como um sinal de progresso, traz, a reboque, um certo sucateamento do passado, uma certa descartabilidade de espaços... e de valores. Fiz este filme para mostrar que, embora alguns prédios sejam tombados e outros sejam reerguidos, as tradições mais ancestrais ficam intactas, mesmo aquelas que nos cerceiam, ou que levam à intolerância”.
O filme saiu de Cannes com os prêmios de Melhor Roteiro e Ator, dado a Shahad Hosseini e levou o Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro.
O filme saiu de Cannes com os prêmios de Melhor Roteiro e Ator, dado a Shahad Hosseini e levou o Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro.
O que eu achei: Em "O Apartamento" (2016), Asghar Farhadi reafirma sua maestria em explorar a moralidade cotidiana e os dilemas éticos que surgem de situações aparentemente banais. A partir de um incidente traumático vivido por uma mulher, o filme desenvolve um drama que, aos poucos, se transforma em uma reflexão poderosa sobre vingança, vergonha e perdão. Farhadi constrói a narrativa com uma precisão cirúrgica: o suspense moral é tecido com o mesmo cuidado de um thriller, mas sem jamais perder o olhar humano que caracteriza sua obra. O roteiro, premiado em Cannes, se equilibra entre o íntimo e o social, expondo como as convenções culturais e o orgulho masculino moldam as ações dos personagens. O casal protagonista, interpretado com grande sensibilidade por Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti, carrega o peso do trauma e das aparências em um espaço cada vez mais sufocante, tanto física quanto emocionalmente. O apartamento, inicialmente um lar provisório, torna-se o centro de tensão e metáfora de uma vida em ruínas. Farhadi filma os rostos e os silêncios com enorme sutileza, fazendo do cotidiano um campo de batalha moral onde não há culpados absolutos. Com "O Apartamento", Farhadi reafirma seu domínio sobre o drama ético e psicológico, transformando um conflito doméstico em espelho das contradições humanas universais. É um filme que prende pela narrativa envolvente, um retrato profundo de como a busca por justiça pode se confundir com o desejo de retaliação. Eu, que já estou virando fã de carteirinha do diretor, gostei muito do resultado. Vale ver.
