17.10.17

“Mãe Só Há Uma” - Anna Muylaert (Brasil, 2016)

Sinopse: Pierre (Naomi Nero) descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe (Dani Nefussi). Confuso, ele vai atrás de seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, e a nova realidade faz com que o rapaz encontre finalmente sua real identidade.
Comentário: Anna Muylaert (1964) é uma é uma diretora, produtora e roteirista de cinema e televisão brasileira. Ela estudou cinema na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e começou a trabalhar como cineasta na década de 1980, quando realizou alguns curtas-metragens e publicou críticas de cinema em revistas e jornais. Assisti dela o ótimo "Que Horas Ela Volta?" (2015). Desta vez vou conferir “Mãe Só Há Uma” (2016).
Trata-se de um drama de roteiro original, livremente inspirado em um caso real bastante conhecido no país: o sequestro de um bebê em uma maternidade de Brasília, na década de 1980, um episódio que ficou popularmente associado ao “caso Pedrinho”. A diretora, no entanto, opta por não fazer uma reconstituição fiel dos fatos, usando essa premissa apenas como ponto de partida para uma história própria.
O filme acompanha Pierre, interpretado por Naomi Nero, um adolescente que descobre ter sido criado por uma mulher que não é sua mãe biológica. A partir daí, ele passa a conviver com sua família de origem, enfrentando um processo de deslocamento afetivo e social. Paralelamente, o personagem vive um momento de experimentação em relação à própria identidade, explorando questões ligadas à sexualidade e ao gênero.
O elenco combina atores profissionais e nomes menos conhecidos, o que contribui para um tom naturalista. Além de Naomi Nero, destacam-se Daniel Botelho e Marcela Fetter, compondo o núcleo familiar biológico, enquanto Dani Nefussi interpreta a mãe que o criou.
As filmagens ocorreram principalmente na cidade de São Paulo, utilizando locações reais que reforçam o caráter íntimo da narrativa. 
O filme teve boa circulação em festivais internacionais, sendo exibido no Festival de Berlim, onde integrou a mostra Panorama, voltada a produções contemporâneas de destaque.
“Mãe Só Há Uma” se diferencia de outras obras inspiradas em casos reais por não se concentrar no crime em si, mas nas consequências emocionais e identitárias dessa ruptura. O título dialoga diretamente com essa ambiguidade, colocando em questão o próprio conceito de maternidade a partir das experiências do protagonista.
O que eu achei: O longa parte de um caso real conhecido - o sequestro de um bebê em uma maternidade - para construir um drama íntimo sobre identidade, pertencimento e afeto. Em vez de focar no crime, o filme se interessa pelas consequências emocionais dessa ruptura, acompanhando Pierre, um adolescente que descobre ter sido criado por uma mulher que não é sua mãe biológica. Interpretado por Naomi Nero, Pierre é o centro de uma narrativa que evita caminhos fáceis. Sua entrada em uma nova família, de classe social diferente, evidencia um deslocamento que vai além do espaço físico: trata-se de uma ruptura de referências afetivas e culturais. Ao mesmo tempo, o personagem vive um momento de experimentação de sua identidade de gênero e sexualidade, o que adiciona mais camadas ao seu processo de transformação. Muylaert conduz o filme com um olhar delicado, apostando em silêncios e gestos contidos para expressar conflitos complexos. Há um cuidado em não julgar os personagens, especialmente a mãe que o criou, vivida por Dani Nefussi, cuja presença carrega ambiguidade e afeto. Ainda assim, essa abordagem mais sutil pode fazer com que o filme pareça um pouco distante em certos momentos, dificultando uma conexão emocional mais imediata. Como resultado, “Mãe Só Há Uma” (2016) se revela um bom filme: sensível, bem-intencionado e com questões relevantes. Uma obra que provoca reflexão ao tratar identidade e laços familiares de forma honesta e sem simplificações.