14.10.17

“Kubo e as Cordas Mágicas” - Travis Knight (EUA, 2016)

Sinopse: Kubo vive uma normal e tranquila vida em uma pequena vila no Japão com sua mãe. Até que um espírito vingativo do passado muda completamente sua vida, ao fazer com que todos os tipos de deuses e monstros o persigam. Agora, para sobreviver, Kubo terá de encontrar uma armadura mágica que foi usada pelo seu falecido pai, um lendário guerreiro samurai.
Comentário: Trata-se de uma animação produzida pelo estúdio Laika, conhecido por seu trabalho em stop-motion. Diferentemente de muitas animações contemporâneas feitas em computação gráfica, o filme utiliza bonecos físicos e cenários reais, animados quadro a quadro, com complementos digitais, uma técnica trabalhosa que resulta em um visual bastante rico e artesanal.
A história é original, inspirada livremente em elementos da cultura e do folclore japonês. A trama acompanha Kubo, um garoto que vive em uma vila e sobrevive contando histórias por meio de um instrumento musical mágico, o shamisen. Quando forças do passado ressurgem, ele embarca em uma jornada para descobrir a verdade sobre sua família e enfrentar entidades sobrenaturais, ao lado de aliados inusitados.
O filme se destaca pelo cuidado visual e pela inventividade das sequências, especialmente nas cenas em que origamis ganham vida e ajudam a contar a narrativa. Uma curiosidade bastante comentada é que a produção utilizou alguns dos maiores bonecos já feitos em stop-motion, incluindo uma criatura gigante com mais de cinco metros de altura, algo incomum para esse tipo de técnica.
“Kubo e as Cordas Mágicas” foi amplamente reconhecido e recebeu diversas indicações importantes, incluindo duas no Oscar: Melhor Animação e Melhores Efeitos Visuais, sendo um caso raro de animação indicada também na categoria técnica voltada a filmes live-action.
Embora tenha um protagonista infantil e elementos típicos de aventura, não é uma animação restrita a crianças pequenas. O tom mais melancólico, a complexidade emocional da história e a sofisticação estética fazem com que o filme dialogue muito bem com o público adulto, ao mesmo tempo em que permanece acessível para jovens espectadores.
O que disse a crítica: Marcelo Forlani do site Omelete gostou. Disse: "Que os temas orientais rendem ótimos filmes, Hollywood já sabe desde antes de adaptar 'Os Sete Samurais' para o faroeste 'Sete Homens e um Destino' pela primeira vez, em 1960. Suas metáforas, seus temas, seus cenários já haviam trazido recentemente a ótima série animada 'Kung Fu Panda', que une ação, comédia e um visual incrível. 'Kubo e as Cordas Mágicas' é uma versão meio hipster da mesma fórmula, que troca a animação em computação gráfica pelo stop-motion, a China pelo Japão e os lutadores antropomórficos pela magia. (...) Os japoneses mais puristas podem vir a reclamar que há uma ocidentalização muito grande na trama - o que é verdade -, mas é inegável o respeito do diretor Travis Knight pelo tema. Os cenários, os figurinos e a trilha sonora homenageiam o tempo todo a cultura nipônica, tornando 'Kubo' uma bela mistura entre o que há de melhor na animação hoje em dia. Para ficar perfeito, só faltou colocar uma protagonista feminina, como já faz o mestre Hayao Miyazaki há muito tempo".
O que eu achei: "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016) combina técnica e emoção de forma bastante equilibrada, resultando em uma animação que vai além do deslumbramento visual. Produzido pela Laika, o filme já chama atenção pelo uso refinado do stop-motion, com cenários e personagens que carregam uma textura palpável, quase tátil, difícil de encontrar nas animações digitais mais comuns. A história, centrada na jornada de Kubo para compreender seu passado e enfrentar forças sobrenaturais, segue uma estrutura relativamente clássica de aventura. Ainda assim, o filme se diferencia pelo tom mais melancólico e pela forma como aborda temas como memória, perda e identidade. Não há pressa em transformar tudo em espetáculo: há espaço para silêncio, contemplação e desenvolvimento emocional, o que fortalece o envolvimento com o protagonista. Visualmente, é um filme de invenções constantes. As sequências com origamis ganhando vida são particularmente marcantes, funcionando não apenas como recurso estético, mas como extensão da própria narrativa. Em alguns momentos, porém, a grandiosidade visual parece competir com a história, criando trechos em que o impacto estético se sobressai mais do que o desenvolvimento dramático. Outro ponto interessante é o equilíbrio entre acessibilidade e densidade temática. Embora funcione como uma aventura para públicos mais jovens, “Kubo” não simplifica suas questões centrais, o que amplia seu alcance e o torna interessante também para adultos. Ainda assim, certas resoluções podem parecer rápidas demais diante da complexidade que o próprio filme sugere. No fim, é uma animação que se sustenta principalmente pela combinação de técnica impecável e sensibilidade narrativa.