14.12.16

"Sorrisos de Uma Noite de Amor" - Ingmar Bergman (Suécia, 1955)

Sinopse: No final do século XIX, uma atriz (Eva Dahlbeck) é a anfitriã na casa de campo de sua mãe (Naima Wifstrand) quando um grupo de pessoas a visita. Entre eles está um advogado (Gunnar Björnstrand) que já foi seu amante e que ela pensa em reconquistar, mas ele está acompanhado de sua mulher (Ulla Jacobsson). Seu atual amante (Jarl Kulle) também está com sua mulher (Ingrid Thulin), mas todos acabam envolvidos em situações amorosas, inclusive a empregada (Harriet Andersson).
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 5 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966) e "O Ovo da Serpente" (1977). Desta vez vou conferir "Sorrisos de Uma Noite de Amor" (1955).
Segundo Tiago Mata Machado para a Folha de São Paulo, "Bergman só se metia a fazer comédia quando precisava inapelavelmente de dinheiro. Era o que dizia em suas memórias, em que chegava a comparar suas comédias aos filmes publicitários que fez. 
Esse estratagema nunca deu tão certo quanto em 'Sorrisos': sucesso internacional, o filme rendeu tanto dinheiro à produtora Svensk Filmindustri que nunca ninguém voltou a interferir no trabalho do diretor. Um sucesso que consolidou a sua carreira, como ele mesmo lembra nos extras do DVD, extraídos do documentário meio proustiano realizado pela jornalista sueca Marie Nyreröd". 
Segundo ele em 'Sorrisos" "não há o amor, só as relações de força e submissão do erotismo, o cinismo e o desespero libertinos em versão cômica. Ou melhor: o amor, como concluem os personagens de 'Sorrisos', é a bênção (e o castigo) de alguns poucos e jovens eleitos".
O que eu achei: O longa ocupa um lugar especial na filmografia de Ingmar Bergman por representar um raro momento de leveza e sofisticação dentro de uma obra frequentemente associada a conflitos existenciais mais sombrios. Ambientado no fim do século XIX, o filme assume a forma de uma comédia de costumes elegante, em que desejos cruzados, ciúmes e mal-entendidos se entrelaçam ao longo de uma noite que promete redefinir relações e sentimentos. É um Bergman mais irônico, espirituoso e deliberadamente teatral. A trama se organiza como um delicado jogo de afetos, em que casais e amantes se cruzam em um ambiente quase operístico. Os diálogos são afiados, a encenação é precisa e o tom flerta com a farsa sem nunca perder a sofisticação. Bergman demonstra um controle absoluto de ritmo e composição, além de uma rara leveza emocional que o diferencia dentro de sua filmografia. O humor surge menos da gag e mais da observação irônica das fragilidades humanas. Não é um filme que busca grandes abismos existenciais. "Sorrisos de uma Noite de Amor" é daqueles títulos que não pretendem revolucionar, mas encantam pelo equilíbrio e pela inteligência de sua construção. Vale ser visto como um exemplo refinado do talento do diretor para observar as relações humanas com ironia, sensibilidade e um toque de melancolia discreta.