Sinopse: Clara (Sonia Braga) tem 65 anos, é jornalista aposentada, viúva e mãe de três filhos já adultos. Ela mora em um apartamento localizado na Av. Boa Viagem, no Recife, onde viveu boa parte de sua vida. Uma construtora interessada em construir um novo prédio no espaço conseguiu adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. "Aquarius" (2016) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se de um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho. O roteiro é original, não sendo adaptado de livro ou outra obra prévia. O projeto foi concebido a partir do interesse do diretor em discutir transformações urbanas nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Recife, e os impactos dessas mudanças sobre moradores antigos de áreas valorizadas pelo mercado imobiliário.
Trata-se de um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho. O roteiro é original, não sendo adaptado de livro ou outra obra prévia. O projeto foi concebido a partir do interesse do diretor em discutir transformações urbanas nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Recife, e os impactos dessas mudanças sobre moradores antigos de áreas valorizadas pelo mercado imobiliário.
A história acompanha Clara, uma jornalista aposentada e viúva que vive sozinha em um edifício à beira-mar, sendo a última moradora que se recusa a vender seu apartamento para uma construtora interessada em demolir o prédio. O conflito com a empresa estrutura a narrativa, mas o filme também se dedica a retratar a vida cotidiana da personagem, suas relações familiares, memórias, hábitos culturais e vínculos com o bairro.
O filme foi rodado majoritariamente no Recife, cidade natal do diretor, e dá continuidade a temas já presentes em trabalhos anteriores de Kleber Mendonça Filho, como a relação entre espaço urbano, memória e poder econômico. A ambientação em um edifício específico - inspirado em construções reais da orla recifense - faz parte da proposta de ancorar a narrativa em um contexto social reconhecível, ligado à verticalização das cidades e à especulação imobiliária.
Sônia Braga foi escolhida para o papel principal desde as etapas iniciais do projeto, e sua participação também se relaciona com o interesse do diretor em dialogar com a história do cinema brasileiro e com figuras emblemáticas da cultura nacional. O elenco conta ainda com atores e atrizes recorrentes no cinema pernambucano, integrando profissionais locais e nomes de maior projeção nacional.
“Aquarius” teve estreia no Festival de Cannes em 2016, na competição oficial, e sua exibição ficou marcada por manifestações públicas da equipe sobre a situação política do Brasil naquele período, o que ampliou a visibilidade internacional do filme. Posteriormente, foi exibido em diversos festivais e lançado comercialmente no Brasil e no exterior.
Além da narrativa principal, o filme é estruturado em partes que correspondem a diferentes momentos da vida da protagonista, incorporando referências musicais, registros fotográficos e objetos pessoais como elementos narrativos. Esses recursos ajudam a contextualizar a trajetória de Clara e a situar o espectador em distintas camadas temporais, conectando experiências individuais a processos urbanos e históricos mais amplos.
Sônia Braga foi escolhida para o papel principal desde as etapas iniciais do projeto, e sua participação também se relaciona com o interesse do diretor em dialogar com a história do cinema brasileiro e com figuras emblemáticas da cultura nacional. O elenco conta ainda com atores e atrizes recorrentes no cinema pernambucano, integrando profissionais locais e nomes de maior projeção nacional.
“Aquarius” teve estreia no Festival de Cannes em 2016, na competição oficial, e sua exibição ficou marcada por manifestações públicas da equipe sobre a situação política do Brasil naquele período, o que ampliou a visibilidade internacional do filme. Posteriormente, foi exibido em diversos festivais e lançado comercialmente no Brasil e no exterior.
Além da narrativa principal, o filme é estruturado em partes que correspondem a diferentes momentos da vida da protagonista, incorporando referências musicais, registros fotográficos e objetos pessoais como elementos narrativos. Esses recursos ajudam a contextualizar a trajetória de Clara e a situar o espectador em distintas camadas temporais, conectando experiências individuais a processos urbanos e históricos mais amplos.
O que eu achei: “Aquarius” (2016) é um daqueles filmes cuja força não está apenas no conflito central, mas na maneira como ele é vivido, sentido e encarnado por sua protagonista. Clara, interpretada de forma extraordinária por Sônia Braga, não é só uma personagem em luta contra uma construtora: ela é a personificação de uma história, de um corpo e de uma cidade que se recusam a ser apagados em nome do progresso imobiliário. O filme parte de um embate aparentemente simples - a pressão para que Clara deixe seu apartamento no edifício Aquarius -, mas o transforma em algo muito mais amplo: uma reflexão sobre pertencimento, dignidade e resistência cotidiana. Kleber Mendonça constrói essa tensão sem pressa, valorizando os gestos, as rotinas, os silêncios e as pequenas fraturas que revelam o quanto aquela disputa é, no fundo, profundamente violenta, ainda que travestida de cordialidade e legalidade. Há também um trabalho notável de ambientação. O Recife filmado por Kleber não é mero pano de fundo, mas um organismo vivo, marcado por camadas de tempo, memórias afetivas e contrastes sociais. A trilha sonora, os objetos do apartamento, as conversas familiares e até os ruídos do entorno funcionam como extensões da subjetividade de Clara, reforçando a ideia de que o espaço é parte constitutiva de quem ela é. Sônia Braga entrega uma atuação de enorme densidade emocional, equilibrando força, vulnerabilidade, ironia e sensualidade, sem nunca transformar Clara em símbolo abstrato. Pelo contrário: é justamente sua humanidade concreta que torna a resistência tão poderosa e comovente. O filme evita heroísmos fáceis e aposta numa personagem que luta, hesita, se cansa, mas não abdica de si. “Aquarius” é, assim, um retrato íntimo que se desdobra em comentário social, um drama pessoal que revela estruturas maiores de exclusão e apagamento. Com delicadeza, precisão e coragem política, Kleber Mendonça Filho realiza um cinema profundamente sensível, que transforma um apartamento à beira-mar em território de memória, identidade e luta. É um filme que permanece, como a própria Clara, firme diante das tentativas de silenciamento. Atenção para a trilha sonora que contém Ave Sangria, Gilberto Gil, Mateus Alves, Maria Bethânia, Queen, Reginaldo Rossi, Roberto Carlos e Taiguara. Muito bom.
