18.10.16

"Crise" - Ingmar Bergman (Suécia, 1946)

Sinopse: Nelly (Inga Landgré), uma jovem de 18 anos, vive com a mãe adotiva (Dagny Lind) numa cidade do interior da Suécia. Tudo muda quando sua verdadeira mãe (Marianne Löfgren), proprietária de um salão de beleza em Estocolmo, aparece decidida a levá-la para a cidade grande. Encantada com as posses da mãe, Nelly decide acompanhá-la a Estocolmo, onde conhecerá o lado sombrio da natureza humana.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966) e "O Ovo da Serpente" (1977). Desta vez vou conferir "Crise" (1946).
"Crise" (1946) marca a estreia de Ingmar Bergman na direção de longas-metragens e já antecipa algumas das preocupações temáticas e formais que se tornariam centrais em sua obra. 
O filme é baseado na peça teatral dinamarquesa chamada "Coração de Mãe" (Modershjärtat), de Leck Fischer, e foi produzido em um momento em que o cinema europeu buscava novos caminhos após a Segunda Guerra Mundial.
Embora ainda fortemente vinculado a modelos narrativos tradicionais, o longa revela um jovem diretor interessado em conflitos psicológicos, dilemas morais e tensões existenciais.
A trama acompanha Nelly, uma jovem criada no interior da Suécia que descobre que sua mãe biológica, Ingeborg, vive na cidade e deseja se reaproximar. Esse reencontro desencadeia uma crise emocional que envolve questões de identidade, pertencimento, liberdade e moralidade. A narrativa se estrutura em torno do choque entre dois mundos - o provinciano e o urbano - e do impacto que essa mudança provoca na protagonista, especialmente diante de escolhas afetivas e existenciais que desafiam as convenções sociais da época.
Do ponto de vista estético, "Crise" revela influências claras do realismo poético francês, especialmente de cineastas como Marcel Carné, perceptíveis na atmosfera melancólica, nos contrastes de luz e sombra e na ênfase em personagens marcados por destino e desencanto.
Ao mesmo tempo, o filme dialoga com o existencialismo em ascensão no pós-guerra, ao tratar da angústia, da liberdade e da responsabilidade individual. 
Embora ainda não apresente a maturidade formal de obras posteriores, "Crise" já aponta o caminho que Bergman seguiria: um cinema atento às dores interiores, aos conflitos morais e à complexidade da experiência humana.
O que eu achei: Por ser o primeiro longa-metragem dirigido por Ingmar Bergman, é um filme que desperta mais interesse histórico do que propriamente deslumbramento artístico. Visto hoje, ele funciona menos como uma obra plenamente realizada e mais como um ponto de partida: um esboço das inquietações que o cineasta desenvolveria com muito mais força e maturidade nos anos seguintes. Ainda assim, há valor em acompanhá-lo, sobretudo para quem se interessa pela formação de um dos grandes autores do cinema do século XX. Baseado na peça "Coração de Mãe", o filme aposta em um melodrama de tons existenciais, tratando de conflitos familiares, escolhas morais e crises de identidade. Há os dilemas internos dos personagens e um clima de desencanto atravessando a história. No entanto, o tratamento é por vezes excessivamente teatral, com diálogos explicativos e situações que soam mais esquemáticas do que orgânicas, algo compreensível para um diretor ainda em início de carreira. Apesar de suas limitações, "Crise" é interessante justamente por permitir observar Bergman 'em formação'. Já estão ali, ainda que de forma irregular, temas que mais tarde se tornariam centrais em sua obra: o conflito entre dever e desejo, a culpa, a solidão e a busca por sentido. Não é um grande filme, mas é uma peça curiosa e reveladora dentro de sua filmografia, valiosa menos pelo impacto artístico imediato e mais pelo que anuncia sobre o cineasta que ele viria se tornar.