10.2.16

"O Menino e o Mundo" - Alê Abreu (Brasil, 2013)

Sinopse: Cuca é um menino que vive em um mundo distante, numa pequena aldeia no interior de seu mítico país. Certo dia, ele vê seu pai partir em busca de trabalho, embarcando em um trem rumo à desconhecida capital. As semanas que se seguem são de angústia e lembranças confusas. Até que, numa determinada noite, uma lufada de vento arromba a janela do quarto e carrega o menino para um lugar distante e mágico.
Comentário: Robledo Milani do site Papo de Cinema publicou: "É de deixar qualquer um de queixo caído quando, já na metade do desenrolar da trama, percebemos que nem uma única palavra foi dita até aquele momento. E assim continuará até o fim. Quer dizer, mais ou menos. Até existe um ou outro diálogo, porém num dialeto muito especial e aparentemente sem significado – na verdade, trata-se no nosso velho e conhecido português, porém dito de trás para frente.
Não que o nosso Menino carregue o mundo dentro da cabeça e embaixo de uma panela – como 'O Menino Maluquinho' – ou que se preocupe apenas com as brincadeiras infantis – como a 'Turma da Mônica'.
Ele apenas está crescendo, e neste processo irá se deparar com uma realidade que, muitas vezes, parece mais estar de cabeça para baixo. Ou literalmente ao contrário. (...)
Premiado nos festivais de Ottawa, Havana, São Paulo e Rio de Janeiro, 'O Menino e o Mundo' é também a comprovação do amadurecimento do gênero no Brasil. Trata-se de uma obra completamente independente e, acima de tudo, universal".
O que eu achei: Em "O Menino e o Mundo" (2013), o brasileiro Alê Abreu constrói uma experiência sensorial que aposta menos na narrativa tradicional e mais na força das imagens e dos sons. A jornada do menino em busca do pai é simples o ponto de partida, mas se desdobra em um mosaico visual que traduz, com criatividade rara, as contradições do mundo contemporâneo. O traço aparentemente infantil com cores vibrantes, colagens e formas quase ingênuas, revela, aos poucos, uma sofisticação impressionante. Há uma intencionalidade clara em cada escolha estética: o que começa como um universo lúdico vai sendo invadido por engrenagens, máquinas e padrões repetitivos que simbolizam a industrialização e a alienação. Sem recorrer a diálogos convencionais, o filme cria uma linguagem própria, quase musical, que exige do espectador atenção e entrega. Essa opção estética, embora admirável, pode afastar parte do público menos disposto a embarcar em uma narrativa mais abstrata. Ainda assim, é justamente nesse risco que reside a força da obra. Ao evitar explicações fáceis, Abreu convida o espectador a sentir antes de compreender e, nesse processo, o impacto emocional se torna maior. A trilha sonora, marcada por ritmos brasileiros e experimentações vocais, funciona como fio condutor da história, ampliando a dimensão poética do filme. Há momentos de beleza genuína, mas também de desconforto, especialmente quando o olhar infantil se depara com as desigualdades e durezas do mundo adulto. No fim, “O Menino e o Mundo” é uma animação que revela camadas mais profundas conforme é digerida. Não é um filme de respostas, mas de sensações.