Sinopse: Julho de 2012, em uma pequena cidade no norte de Mali, controlada por extremistas religiosos, uma família tem sua rotina alterada quando um pescador mata uma de suas vacas. Ao tirar satisfação sobre o ocorrido, Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) acaba matando o tal pescador. A situação o coloca no alvo da facção religiosa local, já que cometera um crime imperdoável.
Comentário: Abderrahmane Sissako (1961) é um cineasta, escritor e produtor mauritano, um país soberano situado no noroeste da África. "Timbuktu" (2014) é o primeiro filme que vejo dele.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema nos diz "A intolerância religiosa chega com truculência a uma pequena vila do Mali. Mulheres são obrigadas a usar véus e luvas, enquanto futebol, música e cigarro ficam proibidos. Regras dos fundamentalistas islâmicos que pretensamente falam em nome de Alá. Nada está acima dos desígnios do Todo Poderoso, e os jihadistas acreditam realmente falar e agir por Ele. Em 'Timbuktu', parte-se dessa imposição violenta de crença. Muitos idiomas por lá circulam, os nativos, como o tuaregue e o bambara, e os estrangeiros, sobretudo o onipresente inglês e o colonizador francês. Contudo, a incompreensão linguística é o menor dos problemas, ainda que, neste caso, evidencie um território de tradição esfacelada por anos de intervenção.
Não há, no sentido clássico, um protagonista em 'Timbuktu', embora muitas coisas se passem em torno de Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) e de sua família, com a qual mora no deserto, ainda sob o jugo das leis da cidade. Eles resistem, ao contrário dos vizinhos que fugiram em busca de lugares menos hostis para morar. Mesmo vivendo até certo ponto alheios ao que acontece na região central, não por falta de informação, mas por opção, eles sofrem com o novo regime após o patriarca cobrar, também na base da agressão, o pescador que matou uma de suas vacas. A barbárie do duelo, do choque seguido de morte, é registrada com uma beleza não alienada, justamente porque ela amplifica a dor dos acontecimentos.
Nesse cenário desolado, as mulheres padecem mais, seja pelas restrições de vestimenta ou por não terem voz nas tomadas de decisão. Por isso, natural que partam justamente dali as mais significativas resistências, como na cena em que uma delas, enquanto açoitada, canta para afrontar a violência com seu dom considerado sujo. Mas a insatisfação é generalizada, haja vista outra passagem cinematograficamente forte, em que garotos encenam uma partida de futebol sem bola, pois o esporte também é vetado. O cineasta (...) Abderrahmane Sissako, do excelente 'Bamako' (2006), faz um cinema poroso, no qual as ideias preenchem lacunas com vagar e precisão. Não há imposição, mas tampouco tentativa de esconder-se atrás do falso véu da imparcialidade".
O que disse a crítica 1: Segundo Lucas Salgado, do site Adoro Cinema, "2015 começou de uma forma que ninguém esperava, ou gostaria. Com o atentado terrorista na França, que resultou na morte de inúmeros jornalistas e cartunistas da Charlie Hebdo, o mundo mais uma vez se viu obrigado a confrontar as mazelas da intolerância e do extremismo religioso. Não fosse o bastante, o caso resultou em inúmeras outras situações de violência em todo mundo. Ao mesmo tempo, o grupo jihadista Estado Islâmico só ganha força e não demonstra qualquer pudor ao divulgar amplamente suas execuções pela internet. É neste contexto que 'Timbuktu' chega aos cinemas brasileiros. Por essas e outras, trata-se de um filme importantíssimo".
Comentário: Abderrahmane Sissako (1961) é um cineasta, escritor e produtor mauritano, um país soberano situado no noroeste da África. "Timbuktu" (2014) é o primeiro filme que vejo dele.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema nos diz "A intolerância religiosa chega com truculência a uma pequena vila do Mali. Mulheres são obrigadas a usar véus e luvas, enquanto futebol, música e cigarro ficam proibidos. Regras dos fundamentalistas islâmicos que pretensamente falam em nome de Alá. Nada está acima dos desígnios do Todo Poderoso, e os jihadistas acreditam realmente falar e agir por Ele. Em 'Timbuktu', parte-se dessa imposição violenta de crença. Muitos idiomas por lá circulam, os nativos, como o tuaregue e o bambara, e os estrangeiros, sobretudo o onipresente inglês e o colonizador francês. Contudo, a incompreensão linguística é o menor dos problemas, ainda que, neste caso, evidencie um território de tradição esfacelada por anos de intervenção.
Não há, no sentido clássico, um protagonista em 'Timbuktu', embora muitas coisas se passem em torno de Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) e de sua família, com a qual mora no deserto, ainda sob o jugo das leis da cidade. Eles resistem, ao contrário dos vizinhos que fugiram em busca de lugares menos hostis para morar. Mesmo vivendo até certo ponto alheios ao que acontece na região central, não por falta de informação, mas por opção, eles sofrem com o novo regime após o patriarca cobrar, também na base da agressão, o pescador que matou uma de suas vacas. A barbárie do duelo, do choque seguido de morte, é registrada com uma beleza não alienada, justamente porque ela amplifica a dor dos acontecimentos.
Nesse cenário desolado, as mulheres padecem mais, seja pelas restrições de vestimenta ou por não terem voz nas tomadas de decisão. Por isso, natural que partam justamente dali as mais significativas resistências, como na cena em que uma delas, enquanto açoitada, canta para afrontar a violência com seu dom considerado sujo. Mas a insatisfação é generalizada, haja vista outra passagem cinematograficamente forte, em que garotos encenam uma partida de futebol sem bola, pois o esporte também é vetado. O cineasta (...) Abderrahmane Sissako, do excelente 'Bamako' (2006), faz um cinema poroso, no qual as ideias preenchem lacunas com vagar e precisão. Não há imposição, mas tampouco tentativa de esconder-se atrás do falso véu da imparcialidade".
O que disse a crítica 1: Segundo Lucas Salgado, do site Adoro Cinema, "2015 começou de uma forma que ninguém esperava, ou gostaria. Com o atentado terrorista na França, que resultou na morte de inúmeros jornalistas e cartunistas da Charlie Hebdo, o mundo mais uma vez se viu obrigado a confrontar as mazelas da intolerância e do extremismo religioso. Não fosse o bastante, o caso resultou em inúmeras outras situações de violência em todo mundo. Ao mesmo tempo, o grupo jihadista Estado Islâmico só ganha força e não demonstra qualquer pudor ao divulgar amplamente suas execuções pela internet. É neste contexto que 'Timbuktu' chega aos cinemas brasileiros. Por essas e outras, trata-se de um filme importantíssimo".
O que eu achei: “Timbuktu” (2014) é um filme de beleza rara e força política impressionante. Ambientado em uma pequena cidade do Mali sob domínio jihadista, o longa retrata com delicadeza o impacto da intolerância religiosa sobre o cotidiano das pessoas. Em vez de recorrer a cenas explícitas de violência, Sissako opta por uma mise-en-scène poética, que alterna momentos de grande serenidade com outros de profunda tensão. O resultado é um cinema de resistência que emociona pela humanidade de seus personagens e pela sutileza com que aborda o absurdo do fanatismo. O diretor transforma o deserto em um personagem vivo, vasto e silencioso, que contrasta com as regras arbitrárias impostas pelos extremistas. As cenas cotidianas - um jogo de futebol sem bola, um casal proibido de cantar, uma mãe que desafia os opressores - revelam um olhar profundamente humanista, que se recusa a reduzir seus personagens à condição de vítimas. Sissako filma com compaixão e com um senso estético apurado, fazendo de cada enquadramento uma pintura luminosa, mesmo em meio à tragédia. "Timbuktu” é um filme necessário, que convida à reflexão sobre a violência em nome da fé, mas também sobre a dignidade e a resistência silenciosa diante da opressão. Sissako constrói uma narrativa que transcende fronteiras culturais e fala de maneira universal sobre o que significa ser humano em tempos de barbárie. Um cinema político e poético em igual medida. Excelente.