1.11.15

"Mr. Turner" - Mike Leigh (Reino Unido, 2014)

Sinopse: J. M. W. Turner (Timothy Spall) é um pintor inglês fascinado pelas luzes e pelo efeito da iluminação no mar, nas cidades, nas construções e nas paisagens. Turner é o pai solteiro de duas filhas. Em um período triste de sua vida, ele conhece uma mulher incrível, por quem se apaixona.
Comentário: Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que "William Turner foi um pintor admirável. Prolífico, precoce e simplesmente apaixonado pela incidência da luz sobre a paisagem, protagonizou um importante momento da pintura britânica, sendo desde cedo reconhecido pelo seu trabalho e vivendo o bastante para acompanhar o 'envelhecimento' de sua arte com a chegada e popularização do daguerreotipo, além das mudanças históricas e culturais pelas quais a Europa passava em meados do século XIX, mostrando, aos poucos, o nascimento de um novo estilo, o Realismo. O 'velho Turner', mestre das cores, luzes e impressões esfumaçadas/difusas de paisagens litorâneas, já estava 'ultrapassado'. (...) Trata-se de uma obra de andamento lento (mas não arrastado), que traz o espectador para um crucial momento da pintura romântica, o momento de suas décadas finais em direção a um outro estágio. 'Mr. Turner' é um filme que destaca bem as mudanças do universo de um artista que via no movimento, misto de ebulição e equilíbrio, o núcleo da vida".
O que eu achei: Mike Leigh retorna, em "Mr. Turner", ao seu estilo cuidadoso de recriar personagens complexos em contextos históricos. Aqui, o foco recai sobre os últimos anos de vida do pintor britânico J.M.W. Turner, figura central do romantismo, conhecido tanto pela genialidade de suas obras quanto por sua personalidade excêntrica e, muitas vezes, ríspida. O filme impressiona pela forma como combina o retrato íntimo do homem com a atmosfera de sua arte. A fotografia de Dick Pope é um espetáculo à parte: cada plano parece uma tela pintada, remetendo às cores, luzes e atmosferas que marcaram a obra de Turner. Não é apenas uma cinebiografia, mas um exercício estético que traduz o olhar do pintor em linguagem cinematográfica. Timothy Spall entrega uma atuação notável. Seu Turner é, ao mesmo tempo, brusco, ranzinza, até desagradável em certas atitudes, mas também profundamente humano, vulnerável e sensível ao mundo natural. Essa ambiguidade dá vida ao personagem, mostrando como genialidade e imperfeição convivem de forma inseparável. A narrativa tem um ritmo deliberadamente lento, o que pode ser um desafio para alguns espectadores. Mas esse tempo estendido é justamente o que permite ao filme construir atmosferas, explorar silêncios e mergulhar na complexidade do protagonista. Leigh evita a tentação de transformar Turner em herói ou vilão: ele o apresenta como um homem cheio de contradições, cuja obra transcendeu seus limites pessoais. Achei o filme belíssimo e maduro, que une rigor estético, grande interpretação e profundidade psicológica. Talvez sua cadência mais contemplativa não agrade a todos, mas, para quem se deixa envolver, o resultado é uma experiência cinematográfica tão intensa quanto contemplar uma das pinturas de Turner diante de si.