31.3.15

"Ninfomaníaca - Volume 1" - Lars von Trier (Alemanha/Bélgica/Dinamarca/França/Reino Unido, 2013)

Sinopse: Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. Ela relata suas experiências ao longo de oito períodos da sua vida, marcados por diversos encontros e incidentes.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele as obras-primas "Melancolia" (2011) e "Dogville" (2003) e os ótimos "Manderlay" (2005) e "Anticristo" (2009). Desta vez vou conferir "Ninfomaníaca - Volume 1" (2013).
Marcelo Sobrinho do site Plano Crítico publicou: "A insistência de Lars von Trier em exagerar no marketing de seus filmes tem efeitos antagônicos sobre a sua recepção. 
Se, por um lado, o dinamarquês consegue chamar todos os holofotes para as suas obras, causando enorme expectativa por suas estreias, por outro, ele acaba deformando a imagem do que será o filme em si, atraindo olhares muito superficiais sobre o seu cinema. 
Foi notável o número de espectadores e até de críticos mundo afora que se decepcionaram com a suposta falta de ousadia de 'Ninfomaníaca: Volume 1'. Tudo porque o dinamarquês, desde a coletiva de imprensa do Festival de Cannes de 2011 (ano em que 'Melancolia' estava em competição), anunciou que Charlotte Gainsbourg seria a protagonista de seu próximo filme e, dessa vez, se trataria de um pornô. 
Não faltaram elementos para todo tipo de conjectura banal sobre o novo longa-metragem. Muitos esperavam mais cenas de sexo explícito e, possivelmente, que Lars von Trier fosse ainda além do que foi com as escatologias de 'Anticristo'. 
Mas o que impressiona no diretor escandinavo é que, mesmo à beira de estragar a experiência de 'Ninfomaníaca: Volume 1' (as 4 horas totais acabaram divididas em dois volumes), a qualidade do que ele leva à tela costuma reverter rapidamente a situação. Mas nunca para todos. 
Compreender Lars von Trier exige repertório que vai além de conhecimento de cinema. Ele consegue ser didático com suas referências e com suas convicções filosóficas, mas não prescinde de exibi-las com grande agilidade e em alta dosagem. Por isso é tão fácil sentir-se à deriva nesse processo e assim acabar lhe imputando adjetivações bobas, como de 'cineasta polêmico' ou que 'deseja chocar' (tendo ele mesmo grande parcela de culpa nisso, é inegável)".
O que eu achei: Trata-se de uma obra provocadora que reafirma o interesse do cineasta em explorar os limites entre corpo, desejo e culpa. A narrativa acompanha Joe (Charlotte Gainsbourg), que, após ser encontrada ferida em um beco, passa a relatar sua vida sexual a Seligman (Stellan Skarsgård). O filme estrutura-se como uma série de capítulos, cada um explorando episódios marcantes de sua trajetória. Mais do que uma sucessão de cenas explícitas, o longa se constrói como um ensaio sobre compulsão, identidade e julgamento moral. Lars von Trier articula o relato de Joe com digressões intelectuais feitas por Seligman - que relaciona suas histórias a referências literárias, musicais e matemáticas - criando um contraste curioso entre o impulso visceral e a tentativa racional de compreendê-lo. Visualmente, o filme alterna momentos de crueza com uma encenação calculada, revelando um controle rigoroso do diretor sobre o material. Há um humor irônico que atravessa a narrativa e impede que ela se torne unilateral, ao mesmo tempo em que a repetição de situações reforça a natureza compulsiva da protagonista. Charlotte Gainsbourg sustenta o filme com uma atuação intensa, equilibrando vulnerabilidade e distanciamento, enquanto o elenco que interpreta Joe em fases anteriores contribui para dar continuidade ao retrato fragmentado da personagem. O resultado é um filme excelente, que, embora desafiador, vai além da provocação superficial. "Ninfomaníaca - Volume 1" (2013) funciona como um estudo complexo sobre desejo e autoimagem, confirmando a capacidade de von Trier de transformar temas incômodos em cinema instigante e formalmente inventivo. Que venha agora o Volume 2!