6.7.26

“Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” - Abbas Kiarostami (Irã, 1987)

Sinopse:
Ahmad (Babek Ahmed Poor), um garoto de 8 anos de idade, pegou por engano o caderno de Mohammad (Ahmed Ahmed Poor), seu amigo de escola. Após seu amigo ter sido ameaçado de ser expulso se não levasse o dever de casa, Ahmad precisa devolver a ele o seu caderno, mesmo que tenha que desobedecer a mãe (Iran Outari) e procurá-lo no vilarejo distante onde Mohammad mora.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. Assisti dele os ótimos “Close-up” (1990), "Através das Oliveiras" (1994), “Gosto de Cereja” (1997) e "24 Frames" (2017), os bons "Dez" (2002) e "Cópia Fiel" (2010) e o curioso "Um Alguém Apaixonado" (2012). Desta vez vou conferir “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987).
Ruy Gardnier do site Contracampo escreveu resumidamente que o filme provoca um sentimento de anacronismo, já que outras obras do cinema iraniano exibidas no Brasil dialogam com ele, incluindo trabalhos posteriores do próprio diretor e referências em filmes de outros cineastas. Ele acredita que a ideia de uma temática repetitiva, apontada por alguns críticos, se deve mais ao modelo de produção do cinema iraniano - especialmente ao papel do Kanun, que é o Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes, o maior patrocinador de cinema no Irã - do que à data da obra. Segundo ele há muita desinformação e equívocos por parte da crítica ao tratar do cinema do Irã.
O filme é uma grande obra em que todos os elementos apresentados em cena ganham importância e acabam sendo utilizados de forma significativa, como ocorre nos melhores trabalhos de Hitchcock e Chaplin. Objetos e situações aparentemente simples - como um caderno ou uma dor nas costas - assumem funções futuras imprevisíveis dentro da narrativa. Ele considera que, à primeira vista, o filme poderia parecer apenas um exemplo de domínio técnico voltado a um cinema mais acessível, semelhante a outras produções iranianas. No entanto, ele argumenta que o diretor já demonstrava pleno controle ao evitar amarrar a narrativa de maneira convencional, acreditando que, como em outras obras-primas de Kiarostami, o objetivo inicial do personagem não é alcançado, mas que, nesse percurso o filme alcança algo muito mais profundo e significativo.
Gardnier salienta que como é comum nos filmes de Kiarostami, a narrativa é desencadeada por um elemento de duplicidade: o caderno de Ahmad é idêntico ao de Mohammad, o que leva o protagonista a pegar ambos por engano. Ele explica que o professor já havia advertido Mohammad de que seria expulso caso esquecesse novamente o caderno, o que motiva Ahmad a tentar devolvê-lo. Com isso, mesmo sabendo pouco sobre o amigo, Ahmad decide atravessar uma parte distante da cidade para encontrá-lo, o que torna a busca difícil. No entanto, ao longo do filme, fica claro que o mais importante não é encontrar o amigo, mas sim o percurso em si e os passos necessários ao longo do caminho, independentemente do desfecho.
Ao final do filme, poucas questões se resolvem de maneira clara, caracterizando a obra como um conto de fadas às avessas. Ahmad percorre um caminho simbólico, como ir à “floresta”, mas não consegue encontrar o destino esperado, pontuando que a figura do guia, embora sábia, não é capaz de levá-lo ao objetivo desejado. O aprendizado central do filme então ocorre fora das instâncias tradicionais de educação e da autoridade. Figuras como o professor, a mãe e o avô acabam oferecendo ensinamentos desconectados das necessidades reais do menino, funcionando mais como agentes de deseducação. Isso transforma o filme numa crítica ao sistema social e educacional estabelecido, sugerindo que os verdadeiros processos de aprendizagem acontecem de forma transversal, nas relações entre iguais ou na experiência individual, apontando para uma espécie de anarquismo educacional ou, ao menos, para uma descrença nos modelos tradicionais de ensino reproduzidos pela sociedade.
Ao final, ele acrescenta que a obra de Kiarostami possui uma poesia seca e que, embora o texto privilegie as escolhas narrativas, isso não significa que o filme seja pobre formalmente - ao contrário, toda a sua força poética está em jogo. Ele destaca o despojamento narrativo como um dos elementos centrais do estilo do diretor; observa que a música, diferente do uso comum no cinema contemporâneo, aparece de forma discreta, servindo basicamente para acompanhar a movimentação de Ahmad em sua busca; e aponta que a fotografia e os enquadramentos seguem uma lógica de simplicidade, evitando qualquer virtuosismo técnico ostensivo, ainda que essa simplicidade exija grande elaboração.
Segundo o autor, o realismo de Kiarostami não é fácil, pois se constrói tanto pelo que é mostrado quanto pelo que é ocultado. O diretor tem um domínio excepcional do fora de campo, sendo um dos grandes cineastas nessa arte de sugerir mais do que exibir. Essa economia expressiva - próxima da ideia de enxugar a poesia - faz com que cada elemento em cena ganhe significado, levando o espectador a perceber o mundo com renovada atenção, considerando que Kiarostami alcança um estatuto semelhante ao de grandes cineastas como Kenji Mizoguchi, sendo capaz de criar uma sensação de realidade quase documental, mesmo através de elaborados artifícios cinematográficos.
O que disse a crítica 1: João Garção Borges da Magazine HD avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “’Onde Fica a Casa Do Meu Amigo?’ apresenta-se como um clássico indiscutível da filmografia de Abbas Kiarostami, rodado numa região que sofreu há uns anos (mais precisamente em 21 de Junho de 1990) um terremoto devastador em que morreram milhares de pessoas. (...) A obra possui mais do que suficientes razões para justificar uma descoberta. Em primeiro lugar, o muito jovem ator protagonista, Babek Ahmadpour, e a sua imperial capacidade de nos fazer sentir as mais profundas emoções. Depois, a direção de fotografia de Farhad Saba, cuja paleta de cores sobressai no restauro digital como se os fotogramas fossem pintados a pastel, cores de uma natureza que se perfila igualmente como personagem. E, sem sombra de dúvida, a realização e o argumento de um nome maior da história do cinema”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Para realizadores talentosos, não existem premissas simples: nas mãos de outra pessoa, um filme inteiro sobre um garotinho que tenta encontrar a casa do amigo para devolver o caderno que este esqueceu (o que despertará a ira do professor) poderia soar vazio; nas de Abbas Kiarostami, contudo, é uma jornada que beira o épico. Primeiro longa da trilogia Koker (vilarejo iraniano que hospeda a narrativa), ‘Onde Fica a Casa do Meu Amigo?’ compreende que, para um menino de 8 anos, a dimensão de uma missão corriqueira é similar à de, digamos, Ethan Hunt tentando encontrar uma bomba atômica. Protagonizado pelo carismático e expressivo garotinho Babek Ahmed Poor, o filme explora a geografia do vilarejo e o cotidiano de seus habitantes para formar um retrato humanista daquela comunidade humilde, de seu modo de vida e suas dificuldades. Sem jamais perder o fio principal. Em essência, porém, o longa deposita sua alma na persistência e na generosidade de seu pequeno protagonista, que através de gestos mínimos (diminuir o ritmo dos passos para acompanhar um velhinho; lavar a perna machucada de um amigo) se torna uma figura irresistível”.
O que eu achei: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) é uma pequena pérola do cinema iraniano. Sua principal qualidade reside na capacidade de transformar uma premissa simples - a jornada de um menino de oito anos que precisa devolver um caderno - em um épico moral sobre amizade, empatia e ética. O filme contrasta a pureza e a responsabilidade da criança com a rigidez e a incompreensão do mundo adulto. O protagonista Ahmed embarca em uma verdadeira odisseia movido pelo senso de solidariedade, recusando-se a aceitar que o amigo seja punido pelo fato do caderno do colega ter ficado, por engano, com ele. Gravado na região rural de Koker, no interior do Irã, o filme utiliza atores não profissionais. Isso confere ao longa um tom documental, capturando a realidade local sem artificialidades, com um olhar poético e sensível. Kiarostami, que também é poeta, utiliza uma linguagem visual minimalista. Planos estáticos, caminhadas repetitivas pelas colinas e cores contrastantes elevam objetos cotidianos a símbolos de grande peso emocional. O protagonista enfrenta a indiferença de vizinhos e adultos, mas encontra nos mais velhos fragmentos de sabedoria. É uma ode à importância da atenção ao outro nesse mundo apressado em que vivemos, um conto humanista e encantador que encontra a imensidão da alma humana nos menores gestos cotidianos. Super recomendo.