
Comentário: Spike Lee (1957) é um cineasta, escritor, produtor, ator e professor norte-americano. Seu trabalho explora as relações raciais, o papel da mídia na vida contemporânea, o crime urbano, a pobreza e outras questões políticas. Vi dele a obra-prima “Faça a Coisa Certa” (1989), os ótimos “Malcolm X” (1992), "O Plano Perfeito" (2006) e "Infiltrado na Klan" (2018) e o bom “A Última Noite” (2002), dentre outros. Desta vez vou conferir “Luta de Classes” (2025).
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Spike Lee tem uma relação desafiadora com adaptações de clássicos orientais. Sua versão americana de ‘Oldboy’ (2013) não conseguiu capturar toda a intensidade do thriller sul-coreano de Park Chan-wook. Agora, em ‘Luta de Classes’, o diretor reimagina Akira Kurosawa e finalmente parece ter encontrado o equilíbrio: ele pega os materiais originais - o longa ‘Céu e Inferno’ (1963) e o romance ‘King’s Ransom’, de Ed McBain - e imprime sua própria visão urbana da história, criando um thriller de gênero que só poderia ter saído de sua mente.
A história acompanha David King (Denzel Washington), um magnata da música em Nova York, que enfrenta o dilema moral de pagar um resgate quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano. Lee transfere o núcleo do clássico japonês para as ruas da cidade de Nova York, transformando cada esquina, estação de metrô e bairro em parte da narrativa. A tensão não está apenas no resgate, mas também na desigualdade social e na hierarquia que permeia tanto a elite quanto as comunidades unidas que cercam King.
As relações de poder dentro dessas comunidades formam o coração pulsante do filme. Mesmo em ambientes marcados por laços de solidariedade e pertencimento, existem regras que definem quem decide e quem deve obedecer. Spike Lee explora com precisão como desigualdade social, hierarquia e expectativas culturais influenciam cada escolha e cada gesto dos personagens, mostrando que a união aparente não elimina a tensão entre interesses individuais e coletivos. Ao inserir essa análise em um thriller urbano, o diretor reafirma seu olhar atento sobre a vida negra na América, revelando que o poder é sempre relativo e que as estruturas sociais moldam, limitam e até mesmo protegem aqueles que nelas estão inseridos.
Denzel Washington conduz a narrativa com uma presença magnética e inabalável, tornando-se o eixo em torno do qual o filme gira. Diferente de Toshiro Mifune no original, cujo personagem era dilacerado por conflitos morais, seu David King age com convicção e firmeza, movido por fé e segurança em si mesmo, alheio às opiniões ou julgamentos alheios. A interpretação de Denzel combina autoridade natural, gestos intensos e uma energia que só ele poderia trazer, imprimindo ao personagem nuances de sua própria persona. Essa força não apenas sustenta a credibilidade do filme, mesmo em cenas mais exageradas ou cômicas, como também transforma King em um personagem memorável, capaz de equilibrar drama, tensão e carisma em cada cena.
Spike Lee se diverte imprimindo sua marca pessoal na narrativa, americanizando e colorindo o thriller com elementos da cultura de Nova York. O basquete aparece como referência constante - com provocações aos Celtics e menções ao time local -, enquanto a presença de Rosie Perez, sua parceira de ‘Faça a Coisa Certa’, e a eletrizante performance de Eddie Palmieri transformam uma cena de resgate em um verdadeiro espetáculo musical. Ao entrelaçar cidade, música e cultura pop, Lee dá à metrópole vida própria, tornando o filme não apenas tenso e envolvente, mas também vibrante, moderno e inconfundivelmente seu.
Tecnicamente, a trilha sonora sustenta o ritmo do filme, mesmo que em alguns momentos se sobreponha a diálogos importantes, reforçando a intensidade das cenas e a urgência das escolhas dos personagens. O clímax emocional chega com a canção final, ‘Highest 2 Lowest’, que dá nome ao filme no original e ressoa com os temas centrais de poder, ética e família, encerrando o filme com uma sensação de celebração e reflexão.
Em suma, ‘Luta de Classes’ não é apenas uma releitura de Kurosawa: é um thriller urbano completo, carregado de humor, crítica social e estilo autoral. Spike Lee mostra como é possível respeitar o material original e, ao mesmo tempo, transformá-lo, imprimindo sua visão de cidade e cultura nova-iorquina, criando uma obra contemporânea ao seu estilo”.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’Luta de Classes’ é um filme que diverte, que traz boas ideias visuais e que tem coragem de adaptar um clássico para outro contexto, mas que perde muito em consistência narrativa e em impacto dramático. A estrutura em blocos não se integra bem, a tensão se esvai e a performance central de Denzel, ao invés de elevar a obra, a torna mais ruidosa e menos crível. Ainda assim, há vigor em sua dimensão simbólica, há beleza em ver Spike Lee transformar a cidade em palco e há interesse em como o filme dialoga com questões de poder, dinheiro e pertencimento. O resultado é irregular, mas não desprovido de valor: uma obra que fascina no olhar, mas que deixa a desejar no coração”.
O que disse a crítica 2: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Se Spike foi criticado por essa visão crítica do rap, comprovou mais uma vez que sua linguagem continua cutucando valores consolidados do establishment cultural negro nos EUA. No ambiente carregado de tensões raciais em que navega, não é pouca coisa, é na verdade uma empreitada cheia de riscos. É nesse sentido que Spike Lee é um cineasta eminentemente político, imerso no mundo do entretenimento, mas sempre agudo nas suas proposições. (...) [Além disso há] Denzel Washington em uma atuação impagável, cheia de improvisações, de pequenos gestos e expressões”.
O que eu achei: Trata-se de uma nova versão cinematográfica para o romance americano "King's Ransom" (1959) de Ed McBain. O título do livro é uma expressão idiomática em inglês que significa ‘uma quantia exorbitante de dinheiro’ ou ‘uma fortuna’. Seria o equivalente a dizer em português que algo vai ‘custar os olhos da cara’. O cineasta Akira Kurosawa já havia adaptado esse livro no filme "Céu e Inferno" (1963), cujo título foi traduzido para o inglês como "High and Low" (Alto e Baixo). A adaptação do Kurosawa é mais fiel ao livro pois conta a história de um executivo (Toshiro Mifune), que é designer de sapatos, e hipoteca tudo o que tem na tentativa de assumir a Companhia Nacional de Sapatos onde ele trabalha, mantendo a empresa fora das mãos dos outros executivos gananciosos que não se incomodam em fazer sapatos de baixa qualidade para obter lucros financeiros. Contudo, o dinheiro que ele arrecada pode pagar o resgate do filho de seu motorista que foi sequestrado. O filme envereda, então, nesse dilema moral entre salvar o rapaz ou comprar as ações da empresa. Nesta versão feita por Spike Lee as coisas são um pouco diferentes. Sob o título “Highest 2 Lowest” - que significa "Do Mais Alto ao Mais Baixo" - a trama mostra David King (Denzel Washington), um executivo da indústria fonográfica que é um famoso descobridor de talentos. Ele precisa reunir uma volumosa quantia para voltar a ser o acionista majoritário do selo onde trabalha e assumir o controle das decisões, porém o filho de seu empregado de confiança é sequestrado e ele precisará decidir se compra as ações ou paga o sequestrador. A versão do Kurosawa é mais contida e tem aquele charme dos anos 60, mas a do Spike Lee acaba sendo também interessante pois ele insere na discussão a vida dos negros norte-americanos e o contexto artístico e cultural de Nova York, reforçando o abismo social e o fluxo de influência e poder entre os diferentes extratos da sociedade. Estamos no século XXI, portanto temas como fama instantânea, mercantilização da arte e a relação de desconfiança da polícia para com os negros menos favorecidos são questões pertinentes. Como declarou Spike Lee em entrevistas, não se trata de um remake, mas de uma reinterpretação, marcada pela assinatura visual e sonora característica do cineasta. O resultado não é uma obra-prima como “Faça a Coisa Certa” (1989), “Malcolm X” (1992) ou "Infiltrado na Klan" (2018), mas também não é pouco inspirado como seus longas "Ela Quer Tudo" (1986), "Milagre em Santa Anna" (2008) e "Oldboy - Dias de Vingança" (2013). Este é um bom thriller, quase um blockbuster, gostoso de ver, bom para distrair, mas sem aquele peso político, a centelha subversiva e o frescor inconfundível que transformam seus melhores projetos em marcos do cinema.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Spike Lee tem uma relação desafiadora com adaptações de clássicos orientais. Sua versão americana de ‘Oldboy’ (2013) não conseguiu capturar toda a intensidade do thriller sul-coreano de Park Chan-wook. Agora, em ‘Luta de Classes’, o diretor reimagina Akira Kurosawa e finalmente parece ter encontrado o equilíbrio: ele pega os materiais originais - o longa ‘Céu e Inferno’ (1963) e o romance ‘King’s Ransom’, de Ed McBain - e imprime sua própria visão urbana da história, criando um thriller de gênero que só poderia ter saído de sua mente.
A história acompanha David King (Denzel Washington), um magnata da música em Nova York, que enfrenta o dilema moral de pagar um resgate quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano. Lee transfere o núcleo do clássico japonês para as ruas da cidade de Nova York, transformando cada esquina, estação de metrô e bairro em parte da narrativa. A tensão não está apenas no resgate, mas também na desigualdade social e na hierarquia que permeia tanto a elite quanto as comunidades unidas que cercam King.
As relações de poder dentro dessas comunidades formam o coração pulsante do filme. Mesmo em ambientes marcados por laços de solidariedade e pertencimento, existem regras que definem quem decide e quem deve obedecer. Spike Lee explora com precisão como desigualdade social, hierarquia e expectativas culturais influenciam cada escolha e cada gesto dos personagens, mostrando que a união aparente não elimina a tensão entre interesses individuais e coletivos. Ao inserir essa análise em um thriller urbano, o diretor reafirma seu olhar atento sobre a vida negra na América, revelando que o poder é sempre relativo e que as estruturas sociais moldam, limitam e até mesmo protegem aqueles que nelas estão inseridos.
Denzel Washington conduz a narrativa com uma presença magnética e inabalável, tornando-se o eixo em torno do qual o filme gira. Diferente de Toshiro Mifune no original, cujo personagem era dilacerado por conflitos morais, seu David King age com convicção e firmeza, movido por fé e segurança em si mesmo, alheio às opiniões ou julgamentos alheios. A interpretação de Denzel combina autoridade natural, gestos intensos e uma energia que só ele poderia trazer, imprimindo ao personagem nuances de sua própria persona. Essa força não apenas sustenta a credibilidade do filme, mesmo em cenas mais exageradas ou cômicas, como também transforma King em um personagem memorável, capaz de equilibrar drama, tensão e carisma em cada cena.
Spike Lee se diverte imprimindo sua marca pessoal na narrativa, americanizando e colorindo o thriller com elementos da cultura de Nova York. O basquete aparece como referência constante - com provocações aos Celtics e menções ao time local -, enquanto a presença de Rosie Perez, sua parceira de ‘Faça a Coisa Certa’, e a eletrizante performance de Eddie Palmieri transformam uma cena de resgate em um verdadeiro espetáculo musical. Ao entrelaçar cidade, música e cultura pop, Lee dá à metrópole vida própria, tornando o filme não apenas tenso e envolvente, mas também vibrante, moderno e inconfundivelmente seu.
Tecnicamente, a trilha sonora sustenta o ritmo do filme, mesmo que em alguns momentos se sobreponha a diálogos importantes, reforçando a intensidade das cenas e a urgência das escolhas dos personagens. O clímax emocional chega com a canção final, ‘Highest 2 Lowest’, que dá nome ao filme no original e ressoa com os temas centrais de poder, ética e família, encerrando o filme com uma sensação de celebração e reflexão.
Em suma, ‘Luta de Classes’ não é apenas uma releitura de Kurosawa: é um thriller urbano completo, carregado de humor, crítica social e estilo autoral. Spike Lee mostra como é possível respeitar o material original e, ao mesmo tempo, transformá-lo, imprimindo sua visão de cidade e cultura nova-iorquina, criando uma obra contemporânea ao seu estilo”.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’Luta de Classes’ é um filme que diverte, que traz boas ideias visuais e que tem coragem de adaptar um clássico para outro contexto, mas que perde muito em consistência narrativa e em impacto dramático. A estrutura em blocos não se integra bem, a tensão se esvai e a performance central de Denzel, ao invés de elevar a obra, a torna mais ruidosa e menos crível. Ainda assim, há vigor em sua dimensão simbólica, há beleza em ver Spike Lee transformar a cidade em palco e há interesse em como o filme dialoga com questões de poder, dinheiro e pertencimento. O resultado é irregular, mas não desprovido de valor: uma obra que fascina no olhar, mas que deixa a desejar no coração”.
O que disse a crítica 2: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Se Spike foi criticado por essa visão crítica do rap, comprovou mais uma vez que sua linguagem continua cutucando valores consolidados do establishment cultural negro nos EUA. No ambiente carregado de tensões raciais em que navega, não é pouca coisa, é na verdade uma empreitada cheia de riscos. É nesse sentido que Spike Lee é um cineasta eminentemente político, imerso no mundo do entretenimento, mas sempre agudo nas suas proposições. (...) [Além disso há] Denzel Washington em uma atuação impagável, cheia de improvisações, de pequenos gestos e expressões”.
O que eu achei: Trata-se de uma nova versão cinematográfica para o romance americano "King's Ransom" (1959) de Ed McBain. O título do livro é uma expressão idiomática em inglês que significa ‘uma quantia exorbitante de dinheiro’ ou ‘uma fortuna’. Seria o equivalente a dizer em português que algo vai ‘custar os olhos da cara’. O cineasta Akira Kurosawa já havia adaptado esse livro no filme "Céu e Inferno" (1963), cujo título foi traduzido para o inglês como "High and Low" (Alto e Baixo). A adaptação do Kurosawa é mais fiel ao livro pois conta a história de um executivo (Toshiro Mifune), que é designer de sapatos, e hipoteca tudo o que tem na tentativa de assumir a Companhia Nacional de Sapatos onde ele trabalha, mantendo a empresa fora das mãos dos outros executivos gananciosos que não se incomodam em fazer sapatos de baixa qualidade para obter lucros financeiros. Contudo, o dinheiro que ele arrecada pode pagar o resgate do filho de seu motorista que foi sequestrado. O filme envereda, então, nesse dilema moral entre salvar o rapaz ou comprar as ações da empresa. Nesta versão feita por Spike Lee as coisas são um pouco diferentes. Sob o título “Highest 2 Lowest” - que significa "Do Mais Alto ao Mais Baixo" - a trama mostra David King (Denzel Washington), um executivo da indústria fonográfica que é um famoso descobridor de talentos. Ele precisa reunir uma volumosa quantia para voltar a ser o acionista majoritário do selo onde trabalha e assumir o controle das decisões, porém o filho de seu empregado de confiança é sequestrado e ele precisará decidir se compra as ações ou paga o sequestrador. A versão do Kurosawa é mais contida e tem aquele charme dos anos 60, mas a do Spike Lee acaba sendo também interessante pois ele insere na discussão a vida dos negros norte-americanos e o contexto artístico e cultural de Nova York, reforçando o abismo social e o fluxo de influência e poder entre os diferentes extratos da sociedade. Estamos no século XXI, portanto temas como fama instantânea, mercantilização da arte e a relação de desconfiança da polícia para com os negros menos favorecidos são questões pertinentes. Como declarou Spike Lee em entrevistas, não se trata de um remake, mas de uma reinterpretação, marcada pela assinatura visual e sonora característica do cineasta. O resultado não é uma obra-prima como “Faça a Coisa Certa” (1989), “Malcolm X” (1992) ou "Infiltrado na Klan" (2018), mas também não é pouco inspirado como seus longas "Ela Quer Tudo" (1986), "Milagre em Santa Anna" (2008) e "Oldboy - Dias de Vingança" (2013). Este é um bom thriller, quase um blockbuster, gostoso de ver, bom para distrair, mas sem aquele peso político, a centelha subversiva e o frescor inconfundível que transformam seus melhores projetos em marcos do cinema.