
Comentário: O jornal O Globo publicou: “Apesar do que seu título sugere, ‘A Vizinha Perfeita’ não é uma história exatamente sobre uma boa convivência em uma rua ou bairro. O documentário da Netflix (...) conta a história de uma mãe de quatro filhos que foi assassinada por uma idosa que morava bem próximo de sua casa, na Flórida, nos Estados Unidos.
As imagens do documentário são de gravações de câmeras corporais da polícia, dando destaque às conversas entre os agentes e moradores durante a investigação. A produção cria um debate sobre as leis de ‘legítima defesa ampliada’, conhecidas como ‘stand your ground’, que vigoram em várias regiões dos EUA.
Essa legislação permite que uma pessoa use força letal ao acreditar que sua vida corre risco, mesmo que haja a possibilidade de se abrigar em segurança ou que o confronto ocorra fora de sua própria propriedade.
Pois bem, a idosa Susan Lorincz, costumava chamar a polícia em diversas ocasiões para tratar das crianças que brincavam em um campo ao lado de sua casa. Certo dia, a mulher briga com um dos filhos de Ajike ‘AJ’ Owens. Ao saber do ocorrido, a mãe resolver conversar com a vizinha, mas ao bater à porta dela, é atingida por um tiro disparado de dentro da residência. A porta estava fechada.
‘Esse crime chocante deixou minha família e eu mergulhados em dor e confusão’, disse a diretora Geeta Gandbhir, segundo comunicado do Tudum, site publicado pela Netflix. ‘A comunidade de Ajike era muito próxima, baseada em apoio mútuo e confiança. Foi devastador ver como um ambiente tão unido pôde se desintegrar de forma tão catastrófica’.”
O filme concorreu ao Oscar de Melhor Documentário.
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’A Vizinha Perfeita’ estrutura bem parte de seu discurso social por meio das imagens cedidas pelos registros da body cam, inclusive no interrogatório, apresentando o racismo dessa sujeita, a vida de parte das pessoas que sofriam com suas ameaças constantes e conseguindo introduzir o público nesse universo particular que a montagem articula. Mas tem alguma dificuldade de contextualizar a região, os históricos, a motivação pela permanência, questões que estão fora do escopo da representação da obra e que um documentário tradicional (talvez!) pudesse trazer à luz”.
O que disse a crítica 2: Eder Pessoa do site Cinema e Séries avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Depois dos pouco mais de 90 minutos, não temos respostas fáceis – Lorincz pegou 25 anos de prisão. ‘A Vizinha Perfeita’ sugere este debate real e racional, pois a família de Owens não a terá de volta, não poderá abraçá-la, não poderá ter o carinho e o amor dela no dia a dia. E não me entenda mal, não falo de pena de morte, porque isso não funciona, mas, num mundo ideal, não seria possível normalizar este racismo institucional tão abertamente propagado, pois isso só faz com que a sociedade permaneça doente e inconsequente”.
O que eu achei: Trata-se de um documentário difícil de assistir. Por um lado, por conta do tema, pois ele retrata a história real do assassinato de uma dona de casa negra chamada Ajike Owens, uma mulher batalhadora que trabalhava como gerente numa unidade do McDonald’s, enquanto cuidava de seus quatro filhos. Ela foi morta por uma vizinha: uma senhora de 58 anos, branca, que mantinha duas armas em casa e estava cansada de ouvir o barulho das crianças brincando no terreno gramado próximo à sua residência. A dificuldade de ver está no nível de insanidade da intolerância racial. Ele mostra como a hostilidade crônica e a obsessão de uma mulher se transformaram em uma tragédia letal quando o diálogo foi completamente substituído pelo ódio e pelo preconceito. Ele também não é fácil de assistir por conta da estética. Ele é todo contado através das imagens capturadas pelas câmeras corporais da polícia (bodycams), vídeos de celular e de circuitos de segurança e pelas gravações das chamadas de emergência e áudios das salas de interrogatório. Então não espere nenhum visual 4k, mas sim uma estética instável e limitada, que causa uma sensação real de desconforto, vertigem e impotência ao presenciar o conflito se desenrolar. O resultado é perturbador. A diretora Geeta Gandbhir declarou que as imagens chegaram até ela por ser amiga da família de Owens. Os advogados da família Owens haviam solicitado o material à polícia e a família queria saber se havia algo que pudesse manter o caso em evidência na mídia. Foi aí que Gandbhir teve a ideia do documentário. Havia cerca de trinta horas de vídeos sobre o caso. A equipe de produção teve que analisar tudo e organizar transformando o material em filme. O julgamento de Lorincz – que acabou pegando 25 anos de prisão - ganhou manchetes internacionais, especialmente por conta da chamada lei "Stand Your Ground" da Flórida. Essa lei permite o uso de força letal em legítima defesa para que o cidadão possa 'manter sua posição ou manter-se firme', defendendo seu ponto de vista ou território, o que tem um impacto desproporcionalmente negativo sobre afro-americanos, já que ela abre espaço para vieses raciais na interpretação do que constitui uma ‘ameaça iminente’ pois pessoas negras tendem a ser rotuladas de forma desproporcional como ‘suspeitas’ ou ‘perigosas’, aumentando a probabilidade de serem alvo de violência sob o pretexto de defesa pessoal. Como disse o crítico de cinema Justin Chang da revista The New Yorker, o documentário usa as imagens “não para reconstruir um crime, mas sim para trazer à luz o drama oculto de uma vizinhança. O simples espetáculo de crianças brincando, ao que parece, é tudo o que basta para transformar um pedaço da periferia americana em uma ferida aberta e microscópica de racismo, paranoia, agressão, doenças mentais e violência armada”. Veja preparado.
As imagens do documentário são de gravações de câmeras corporais da polícia, dando destaque às conversas entre os agentes e moradores durante a investigação. A produção cria um debate sobre as leis de ‘legítima defesa ampliada’, conhecidas como ‘stand your ground’, que vigoram em várias regiões dos EUA.
Essa legislação permite que uma pessoa use força letal ao acreditar que sua vida corre risco, mesmo que haja a possibilidade de se abrigar em segurança ou que o confronto ocorra fora de sua própria propriedade.
Pois bem, a idosa Susan Lorincz, costumava chamar a polícia em diversas ocasiões para tratar das crianças que brincavam em um campo ao lado de sua casa. Certo dia, a mulher briga com um dos filhos de Ajike ‘AJ’ Owens. Ao saber do ocorrido, a mãe resolver conversar com a vizinha, mas ao bater à porta dela, é atingida por um tiro disparado de dentro da residência. A porta estava fechada.
‘Esse crime chocante deixou minha família e eu mergulhados em dor e confusão’, disse a diretora Geeta Gandbhir, segundo comunicado do Tudum, site publicado pela Netflix. ‘A comunidade de Ajike era muito próxima, baseada em apoio mútuo e confiança. Foi devastador ver como um ambiente tão unido pôde se desintegrar de forma tão catastrófica’.”
O filme concorreu ao Oscar de Melhor Documentário.
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’A Vizinha Perfeita’ estrutura bem parte de seu discurso social por meio das imagens cedidas pelos registros da body cam, inclusive no interrogatório, apresentando o racismo dessa sujeita, a vida de parte das pessoas que sofriam com suas ameaças constantes e conseguindo introduzir o público nesse universo particular que a montagem articula. Mas tem alguma dificuldade de contextualizar a região, os históricos, a motivação pela permanência, questões que estão fora do escopo da representação da obra e que um documentário tradicional (talvez!) pudesse trazer à luz”.
O que disse a crítica 2: Eder Pessoa do site Cinema e Séries avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Depois dos pouco mais de 90 minutos, não temos respostas fáceis – Lorincz pegou 25 anos de prisão. ‘A Vizinha Perfeita’ sugere este debate real e racional, pois a família de Owens não a terá de volta, não poderá abraçá-la, não poderá ter o carinho e o amor dela no dia a dia. E não me entenda mal, não falo de pena de morte, porque isso não funciona, mas, num mundo ideal, não seria possível normalizar este racismo institucional tão abertamente propagado, pois isso só faz com que a sociedade permaneça doente e inconsequente”.
O que eu achei: Trata-se de um documentário difícil de assistir. Por um lado, por conta do tema, pois ele retrata a história real do assassinato de uma dona de casa negra chamada Ajike Owens, uma mulher batalhadora que trabalhava como gerente numa unidade do McDonald’s, enquanto cuidava de seus quatro filhos. Ela foi morta por uma vizinha: uma senhora de 58 anos, branca, que mantinha duas armas em casa e estava cansada de ouvir o barulho das crianças brincando no terreno gramado próximo à sua residência. A dificuldade de ver está no nível de insanidade da intolerância racial. Ele mostra como a hostilidade crônica e a obsessão de uma mulher se transformaram em uma tragédia letal quando o diálogo foi completamente substituído pelo ódio e pelo preconceito. Ele também não é fácil de assistir por conta da estética. Ele é todo contado através das imagens capturadas pelas câmeras corporais da polícia (bodycams), vídeos de celular e de circuitos de segurança e pelas gravações das chamadas de emergência e áudios das salas de interrogatório. Então não espere nenhum visual 4k, mas sim uma estética instável e limitada, que causa uma sensação real de desconforto, vertigem e impotência ao presenciar o conflito se desenrolar. O resultado é perturbador. A diretora Geeta Gandbhir declarou que as imagens chegaram até ela por ser amiga da família de Owens. Os advogados da família Owens haviam solicitado o material à polícia e a família queria saber se havia algo que pudesse manter o caso em evidência na mídia. Foi aí que Gandbhir teve a ideia do documentário. Havia cerca de trinta horas de vídeos sobre o caso. A equipe de produção teve que analisar tudo e organizar transformando o material em filme. O julgamento de Lorincz – que acabou pegando 25 anos de prisão - ganhou manchetes internacionais, especialmente por conta da chamada lei "Stand Your Ground" da Flórida. Essa lei permite o uso de força letal em legítima defesa para que o cidadão possa 'manter sua posição ou manter-se firme', defendendo seu ponto de vista ou território, o que tem um impacto desproporcionalmente negativo sobre afro-americanos, já que ela abre espaço para vieses raciais na interpretação do que constitui uma ‘ameaça iminente’ pois pessoas negras tendem a ser rotuladas de forma desproporcional como ‘suspeitas’ ou ‘perigosas’, aumentando a probabilidade de serem alvo de violência sob o pretexto de defesa pessoal. Como disse o crítico de cinema Justin Chang da revista The New Yorker, o documentário usa as imagens “não para reconstruir um crime, mas sim para trazer à luz o drama oculto de uma vizinhança. O simples espetáculo de crianças brincando, ao que parece, é tudo o que basta para transformar um pedaço da periferia americana em uma ferida aberta e microscópica de racismo, paranoia, agressão, doenças mentais e violência armada”. Veja preparado.