
Comentário: “Brasil 70: A Saga do Tri” é uma minissérie com 5 episódios que mostra os bastidores da campanha da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, no México, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial.
A produção é brasileira, realizada pela Netflix em parceria com a O2 Filmes, e chega com a proposta de recriar a caminhada da Seleção Brasileira até o título mundial de 1970. Para quem gosta de futebol, estamos falando do time de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson, Carlos Alberto Torres e Félix, comandado por Zagallo na fase final da campanha, em uma Copa que entrou para a história. A criação é de Naná Xavier e do Rafael Dornellas e a direção geral dos episódios de Paulo Morelli e Pedro Morelli.
João Belarmindo do site Observatório de Cinema nos conta o que é real e o que é ficção na série. Veja o que ele diz: “A série é bonita, emocionante e tecnicamente impressionante. Mas, desde o primeiro episódio, ela deixa claro que não é um documentário. É ficção baseada em fatos, e a linha entre esses dois territórios é mais tênue do que parece.
Um dos pilares da minissérie é mostrar um Pelé cheio de dúvida, e isso é fato. Depois do trauma de 1966, na Copa da Inglaterra, ele foi literalmente chutado para fora do torneio e saiu do Goodison Park carregado, em lágrimas, dizendo publicamente que não jogaria mais uma Copa. Não era papo de vestiário. Ele repetiu isso várias vezes em entrevistas. A ESPN recuperou uma declaração direta do rei: ‘O motivo pelo qual eu disse que não ia jogar [pela seleção] foi por causa da minha lesão na Copa de 1966’. A série captura esse peso com precisão. Lucas Agrícola entrega um Pelé que o público nunca viu: não o monumento, mas o homem que precisava decidir se ainda valia a pena.
Rodrigo Santoro interpreta um treinador que era jornalista de profissão, comunista declarado e nunca escondeu nada disso, mesmo durante a fase mais dura do regime militar. Saldanha foi nomeado técnico da Seleção em 1969, classificou o Brasil para a Copa com seis vitórias em seis jogos. Saldanha enfrenta Médici pela convocação de Dadá Maravilha e diz a frase famosa: ‘O presidente escolhe os ministros, eu escolho os jogadores’, sendo demitido menos de três meses antes de a Copa começar. O que a série adiciona é o que acontecia nos bastidores dessas tensões, onde esses trechos foram recriados. O conflito com o regime militar, a recusa em escalar Dadá Maravilha por pressão presidencial, a incompatibilidade entre um comunista e um governo de direita que tentava usar a Copa como vitrine, tudo isso é verdade.
Bruno Mazzeo tem um dos trabalhos mais delicados da série: interpretar Mário Zagallo, o homem que herdou uma equipe pronta e levantou a taça. A minissérie não o trata como vilão, mas também não o poupa da pergunta que o perseguiu por décadas: quanto daquela conquista era mesmo dele?
Historicamente, Zagallo foi um profissional competente que chegou numa situação impossível e entregou o resultado. Ele manteve o esqueleto da equipe montada por Saldanha, fez ajustes táticos inteligentes e não tentou reinventar o que já funcionava. O que a série explora: a insegurança, a pressão de suceder alguém que havia sido afastado, a necessidade de ganhar a confiança de jogadores.
A série também mostra militares armados em cena de fundo no México, Importante destacar que não há registro histórico de soldados brasileiros circulando pela concentração no México dessa forma.
Nas partidas, a série opera num terreno mais seguro. Os resultados são fatos históricos: o Brasil chegou à final e venceu a Itália por 4 a 1. Os gols, as jogadas clássicas, a escalação, tudo registrado. O que os Morelli fizeram foi oferecer algo diferente: em vez de reproduzir as imagens de arquivo com câmeras distantes e qualidade dos anos 70, eles optaram pelo ponto de vista dos jogadores em campo. A decisão foi explicada pelo próprio Paulo Morelli: as câmeras de 1970 eram muito distantes e a imagem, muito ruim. A solução foi criar uma perspectiva imersiva, quase em primeira pessoa, que o arquivo jamais poderia oferecer.
O regime de Médici como pano de fundo não é dramatização, é história documentada. O governo militar investiu pesado na Copa de 1970 como instrumento de propaganda, construiu estádios, encheu o noticiário e usou a conquista como narrativa de unidade nacional num período de censura, prisões e tortura. A ironia que a série captura com cuidado, um time montado por um comunista sendo apropriado pela ditadura, é real. O que Saldanha disse ao jornal francês Le Monde sobre as prisões e torturas no Brasil, ainda com o torneio em andamento, está documentado.
Na véspera da semifinal contra o Uruguai, a série mostra como o trauma da Copa de 1950 ainda pesava sobre a Seleção. Félix passa a ver o ‘fantasma’ de Barbosa nos treinos e no vestiário, enquanto outros sinais de azar surgem ao longo do episódio. O tratamento é bastante exagerado e aposta em elementos quase sobrenaturais, como os espelhos quebrados e Zagallo deixando a concentração para consertar a imagem de seu santo de estimação. Essas cenas funcionam como uma metáfora para a pressão psicológica enfrentada pelo elenco, mas não têm base nos registros históricos. É o episódio em que a série mais se afasta dos fatos para reforçar o drama”.
A produção também conta com Marcelo Adnet, Ravel Andrade, Val Perré, Lara Tremouroux e José Beltrão no elenco, dentre outros.
O que eu achei: Eu tinha apenas dez anos quando o Brasil conquistou o tricampeonato da Copa do Mundo, e foi impossível assistir a esta série sem reviver lembranças de infância: a vila ao lado da minha casa toda enfeitada, os rádios ligados, a expectativa antes dos jogos e a família reunida vendo diversos desses jogos. Como eu era muito criança, não guardo praticamente nenhuma lembrança do contexto político da época, e a série acabou me fazendo recordar não só essa face festiva da conquista do tri, como me mostrou a maneira como o regime militar se apropriou daquele feito esportivo para reforçar sua propaganda. Creio que o que essa minissérie tem de interessante é justamente equilibrar essas duas facetas: a emoção daquele futebol extraordinário jogado por craques eternizados como Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto e a reflexão sobre o país que vivia um dos períodos mais duros de sua história. Os depoimentos ajudam a humanizar personagens já transformados em lendas, enquanto o material de época reforça como esporte e política sempre estiveram profundamente entrelaçados. Misturando imagens de arquivo com uma narrativa fluida, a produção revisita a campanha da Seleção de 1970 sem transformar tudo em mera celebração nostálgica. A série até tem um certo excesso de tratamento de imagem que, a princípio, me pareceu exagerado. As falas, em geral, também são bastante simplificadas. Porém não achei que isso comprometeu a qualidade informativa do conjunto que, no meu caso, veio justamente desse encontro entre memória e descoberta. Revivi a felicidade de uma criança de dez anos vendo seu país ganhar a Copa, mas, agora como adulta, pude compreender muito do que acontecia fora dos gramados. Nesse clima de Copa do Mundo, com nossa atual Seleção formada por jogadores cuja grande maioria joga no estrangeiro ganhando salários altíssimos, com pouco envolvimento com seu próprio país, sem personalidade para decidir partidas cruciais que dependem de um funcionamento em equipe, um técnico que recebe interferência de patrocinadores em suas decisões de escalação e uma CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com uma gestão fraudulenta, nada como ver a história de uma Seleção Brasileira raiz, dessas que nunca mais veremos pela frente. Não que aquela época fosse perfeita, longe disso. Mas era um grupo de jogadores empenhados a trabalhar em equipe, bem diferente do que se vê hoje. É uma série que emociona, informa e convida a revisitar um capítulo fundamental da nossa história.
A produção é brasileira, realizada pela Netflix em parceria com a O2 Filmes, e chega com a proposta de recriar a caminhada da Seleção Brasileira até o título mundial de 1970. Para quem gosta de futebol, estamos falando do time de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson, Carlos Alberto Torres e Félix, comandado por Zagallo na fase final da campanha, em uma Copa que entrou para a história. A criação é de Naná Xavier e do Rafael Dornellas e a direção geral dos episódios de Paulo Morelli e Pedro Morelli.
João Belarmindo do site Observatório de Cinema nos conta o que é real e o que é ficção na série. Veja o que ele diz: “A série é bonita, emocionante e tecnicamente impressionante. Mas, desde o primeiro episódio, ela deixa claro que não é um documentário. É ficção baseada em fatos, e a linha entre esses dois territórios é mais tênue do que parece.
Um dos pilares da minissérie é mostrar um Pelé cheio de dúvida, e isso é fato. Depois do trauma de 1966, na Copa da Inglaterra, ele foi literalmente chutado para fora do torneio e saiu do Goodison Park carregado, em lágrimas, dizendo publicamente que não jogaria mais uma Copa. Não era papo de vestiário. Ele repetiu isso várias vezes em entrevistas. A ESPN recuperou uma declaração direta do rei: ‘O motivo pelo qual eu disse que não ia jogar [pela seleção] foi por causa da minha lesão na Copa de 1966’. A série captura esse peso com precisão. Lucas Agrícola entrega um Pelé que o público nunca viu: não o monumento, mas o homem que precisava decidir se ainda valia a pena.
Rodrigo Santoro interpreta um treinador que era jornalista de profissão, comunista declarado e nunca escondeu nada disso, mesmo durante a fase mais dura do regime militar. Saldanha foi nomeado técnico da Seleção em 1969, classificou o Brasil para a Copa com seis vitórias em seis jogos. Saldanha enfrenta Médici pela convocação de Dadá Maravilha e diz a frase famosa: ‘O presidente escolhe os ministros, eu escolho os jogadores’, sendo demitido menos de três meses antes de a Copa começar. O que a série adiciona é o que acontecia nos bastidores dessas tensões, onde esses trechos foram recriados. O conflito com o regime militar, a recusa em escalar Dadá Maravilha por pressão presidencial, a incompatibilidade entre um comunista e um governo de direita que tentava usar a Copa como vitrine, tudo isso é verdade.
Bruno Mazzeo tem um dos trabalhos mais delicados da série: interpretar Mário Zagallo, o homem que herdou uma equipe pronta e levantou a taça. A minissérie não o trata como vilão, mas também não o poupa da pergunta que o perseguiu por décadas: quanto daquela conquista era mesmo dele?
Historicamente, Zagallo foi um profissional competente que chegou numa situação impossível e entregou o resultado. Ele manteve o esqueleto da equipe montada por Saldanha, fez ajustes táticos inteligentes e não tentou reinventar o que já funcionava. O que a série explora: a insegurança, a pressão de suceder alguém que havia sido afastado, a necessidade de ganhar a confiança de jogadores.
A série também mostra militares armados em cena de fundo no México, Importante destacar que não há registro histórico de soldados brasileiros circulando pela concentração no México dessa forma.
Nas partidas, a série opera num terreno mais seguro. Os resultados são fatos históricos: o Brasil chegou à final e venceu a Itália por 4 a 1. Os gols, as jogadas clássicas, a escalação, tudo registrado. O que os Morelli fizeram foi oferecer algo diferente: em vez de reproduzir as imagens de arquivo com câmeras distantes e qualidade dos anos 70, eles optaram pelo ponto de vista dos jogadores em campo. A decisão foi explicada pelo próprio Paulo Morelli: as câmeras de 1970 eram muito distantes e a imagem, muito ruim. A solução foi criar uma perspectiva imersiva, quase em primeira pessoa, que o arquivo jamais poderia oferecer.
O regime de Médici como pano de fundo não é dramatização, é história documentada. O governo militar investiu pesado na Copa de 1970 como instrumento de propaganda, construiu estádios, encheu o noticiário e usou a conquista como narrativa de unidade nacional num período de censura, prisões e tortura. A ironia que a série captura com cuidado, um time montado por um comunista sendo apropriado pela ditadura, é real. O que Saldanha disse ao jornal francês Le Monde sobre as prisões e torturas no Brasil, ainda com o torneio em andamento, está documentado.
Na véspera da semifinal contra o Uruguai, a série mostra como o trauma da Copa de 1950 ainda pesava sobre a Seleção. Félix passa a ver o ‘fantasma’ de Barbosa nos treinos e no vestiário, enquanto outros sinais de azar surgem ao longo do episódio. O tratamento é bastante exagerado e aposta em elementos quase sobrenaturais, como os espelhos quebrados e Zagallo deixando a concentração para consertar a imagem de seu santo de estimação. Essas cenas funcionam como uma metáfora para a pressão psicológica enfrentada pelo elenco, mas não têm base nos registros históricos. É o episódio em que a série mais se afasta dos fatos para reforçar o drama”.
A produção também conta com Marcelo Adnet, Ravel Andrade, Val Perré, Lara Tremouroux e José Beltrão no elenco, dentre outros.
O que eu achei: Eu tinha apenas dez anos quando o Brasil conquistou o tricampeonato da Copa do Mundo, e foi impossível assistir a esta série sem reviver lembranças de infância: a vila ao lado da minha casa toda enfeitada, os rádios ligados, a expectativa antes dos jogos e a família reunida vendo diversos desses jogos. Como eu era muito criança, não guardo praticamente nenhuma lembrança do contexto político da época, e a série acabou me fazendo recordar não só essa face festiva da conquista do tri, como me mostrou a maneira como o regime militar se apropriou daquele feito esportivo para reforçar sua propaganda. Creio que o que essa minissérie tem de interessante é justamente equilibrar essas duas facetas: a emoção daquele futebol extraordinário jogado por craques eternizados como Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto e a reflexão sobre o país que vivia um dos períodos mais duros de sua história. Os depoimentos ajudam a humanizar personagens já transformados em lendas, enquanto o material de época reforça como esporte e política sempre estiveram profundamente entrelaçados. Misturando imagens de arquivo com uma narrativa fluida, a produção revisita a campanha da Seleção de 1970 sem transformar tudo em mera celebração nostálgica. A série até tem um certo excesso de tratamento de imagem que, a princípio, me pareceu exagerado. As falas, em geral, também são bastante simplificadas. Porém não achei que isso comprometeu a qualidade informativa do conjunto que, no meu caso, veio justamente desse encontro entre memória e descoberta. Revivi a felicidade de uma criança de dez anos vendo seu país ganhar a Copa, mas, agora como adulta, pude compreender muito do que acontecia fora dos gramados. Nesse clima de Copa do Mundo, com nossa atual Seleção formada por jogadores cuja grande maioria joga no estrangeiro ganhando salários altíssimos, com pouco envolvimento com seu próprio país, sem personalidade para decidir partidas cruciais que dependem de um funcionamento em equipe, um técnico que recebe interferência de patrocinadores em suas decisões de escalação e uma CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com uma gestão fraudulenta, nada como ver a história de uma Seleção Brasileira raiz, dessas que nunca mais veremos pela frente. Não que aquela época fosse perfeita, longe disso. Mas era um grupo de jogadores empenhados a trabalhar em equipe, bem diferente do que se vê hoje. É uma série que emociona, informa e convida a revisitar um capítulo fundamental da nossa história.