29.6.26

“O Homem Que Quis Matar Hitler” - Fritz Lang (EUA, 1941)

Sinopse:
 
Alan Thorndike (Walter Pidgeon), um atirador inglês, planeja matar Hitler (Carl Ekberg), mas quando está prestes a atirar no líder nazista é capturado pela Gestapo. Ele então é obrigado a assinar um termo responsabilizando o governo inglês pelo atentado. A ideia é usar o termo como pretexto para começar uma guerra.
Comentário: Fritz Lang (1890-1976) foi um cineasta, realizador, argumentista e produtor nascido na Áustria, mas que dividiu sua carreira entre a Alemanha e Hollywood. É considerado uma das maiores figuras do cinema alemão e o mais notável e proeminente diretor a emergir da escola do expressionismo alemão, juntamente com Friedrich Wilhelm Murnau, muito embora Lang tenha sempre negado qualquer relação com o movimento expressionista. Assisti dele 9 filmes: as obras-primas "Dr. Mabuse – Partes 1 e 2” (1922), "Metrópolis" (1927) e "M, O Vampiro de Dusseldorf" (1931), os ótimos “A Mulher na Lua” (1929), "Vive-se Só Uma Vez" (1937) e "Quando Desceram as Trevas" (1944), o mediano "O Segredo da Porta Fechada" (1947) e o curioso “A Morte Cansada” (1921). Desta vez vou conferir “O Homem Que Quis Matar Hitler”, uma produção americana de 1941.
Segundo o site DW “Nascido em 5 de dezembro de 1890 em Viena, Lang é um dos principais artigos culturais de exportação da Alemanha - embora não seja tão simples definir a nacionalidade do diretor que atuou por longos anos nos Estados Unidos. Além do passaporte da Áustria natal, em 1922, após casar-se com a roteirista e atriz Thea von Harbou, Lang naturalizou-se alemão. E, tendo emigrado para os EUA, recebeu em 1939 também a cidadania americana.
Com o filme mudo ‘A Morte Cansada’, em 1921 Fritz Lang alcançou seu primeiro sucesso na República de Weimar. Seguiram-se produções monumentais, que lhe valeram fama internacional: ‘Os Nibelungos’ (1924), a visionária ficção científica ‘Metrópolis’ (1927), ‘A Mulher na Lua’ (1929) e ‘O Testamento do Dr. Mabuse’ (1933). No entanto, até hoje sua obra mais influente é ‘M, O Vampiro de Düsseldorf’, de 1931. O papel do sinistro assassino de crianças definiria a carreira futura do ator de origem húngara Peter Lorre. (...)
Em 1933, porém, Lang rompeu com a indústria cinematográfica alemã e a produtora Universum Film (futura UFA): Josef Goebbels tentara instrumentalizar o celebrado diretor para fins de propaganda nazista. Admirador de seus filmes, o ministro da Propaganda de Hitler lhe ofereceu o posto de superintendente de Cinema do Terceiro Reich. Mas Lang pediu um tempo para decidir (...), seguiu trabalhando na Alemanha, [e resolveu partir] para o exílio meses mais tarde, no fim de 1933.
Durante sua breve estada na França, Fritz Lang realizou com o produtor Erich Pommer, igualmente emigrado da Alemanha, ‘Coração Vadio’ (...). Em 1934, o cineasta conseguiu dar o salto para Hollywood. Mas, apesar de altamente produtivo no exílio, ele nunca conseguiu lançar raízes nos EUA. Em sua minuciosa biografia, Grob explica que, possuidor de uma personalidade autoritária, Lang era mal adequado a funcionar no rígido sistema dos estúdios americanos, onde quem detinha o poder eram os poderosos produtores e os influentes chefes de estúdio, não o diretor.
Na década de 1940, tendo se empenhado pela criação da Anti-Nazi-League nos EUA, ele fez alguns filmes de cunho político, como este ‘O Homem Que Quis Matar Hitler’, em 1941”, baseado no livro “Rogue Male” de Geoffrey Household. A trama é a seguinte: em Berchtesgaden, próximo à casa de Hitler, o capitão inglês Alan Thorndike (Walter Pidgeon) tem o Führer em sua mira, mas falha no tiro. Ele é capturado pelos nazistas, que desejam que Thorndike assine um documento afirmando que trabalha a serviço da majestade britânica. Como ele se recusa a assinar a confissão falsa, é jogado de um penhasco para simular um acidente, mas sobrevive e consegue fugir recebendo a ajuda do garoto Vaner (Roddy McDowell e da prostituta Jerry (Joan Bennett), uma mulher de origem humilde e pouca educação, que fica absolutamente fascinada pelo cavalheiro.
No livro “Fritz Lang in America” (1969) escrito por Peter Bogdanovich, Fritz Lang conta algumas curiosidades sobre o filme: “Este papel que Joan Bennett interpretava, de uma pequena prostituta que se apaixona por [Walter] Pidgeon - um amor condenado desde o início -, preciso admitir que ele tinha todo o meu coração. (…) Mas, naturalmente, o escritório de Hays insistiu que não poderíamos mostrar ou glamourizar uma prostituta, que isso era impossível. (Disseram que não deveríamos mostrá-la rodando a bolsinha.) Sabe como driblamos isso? Tivemos de mostrar acentuadamente uma máquina de costura em seu apartamento: assim, ela não era uma puta, mas uma costureira. Fale-me agora de autenticidade.
Zanuck [produtor do filme] não acreditava na cena da ponte londrina, que estava no roteiro original. Nesta cena, Pidgeon - que tinha uma cicatriz no rosto e estava sendo procurado pela polícia – tem a última conversa com Joan Bennett, a prostituta. Ela tem o pressentimento de que jamais o verá novamente e de repente um policial se aproxima. Ela tem medo de que o policial reconheça e prenda Pidgeon, então começa a bancar a puta e diz: ‘Venha, querido, suba aqui no meu quarto, eu lhe mostrarei algumas coisas novas.’ (…) Falei com Zanuck e ele me deu uma resposta muito característica: ‘Quando uma puta banca a puta diante do homem que ama, isso não é trágico. Quando uma garota decente banca a puta, aí sim é trágico.’ Eu sequer poderia discutir este tipo de coisa - para mim, é muito bobo - e, de todo modo, não teria convencido Zanuck. Então pensei e falei com Benny Silvi, um cara maravilhoso que era o produtor local do filme (…) e com Arthur Miller, o câmera. ‘Quero filmar esta cena’, disse. E Ben disse: ‘Fritz, você não pode. Eu não posso, por ordens de Zanuck, gastar nem um tostão nesta cena.’ (…) Então eu disse: ‘Ben, eu vi um corrimão por aí que se parece com o de uma ponte.’ Ele disse: ‘Sim.’ Eu disse: ‘Isso custa alguma coisa?’ Ele disse: ‘Não, isso você pode ter.’ (…) Falei com Arthur Miller - que era um gênio como câmera - e ele disse que era possível iluminar de forma que o fundo fosse gradualmente se apagando na fumaça - assim, nem precisaríamos de um fundo. (…) Pusemos sobre a coisa toda um pouco da névoa londrina. (…) Filmei a cena e Zanuck não disse uma palavra. Tudo o que falou foi: ‘onde diabos isso foi filmado?’”
O que disse a crítica 1: Iann Jeliel do site Plano Crítico avaliou o filme com 2 estrelas, ou seja, ruim. Disse: “Mesmo que se encaixe em estruturas que o alemão Fritz Lang estava acostumado desde quando chegou em território americano (a fuga de um protagonista da autoria de um crime que não cometeu, contexto que se transformava em um romance proibido, dentre outras características), ‘O Homem que Quis Matar Hitler’ se caracteriza como muitas outras histórias do início da década de 1940, uma mera propaganda antinazista envelopada em um filme genérico de gêneros populares à época. Nesse caso, ainda se agrava pela inserção de vários numa mistura de espionagem, drama, comédia e suspense que simplesmente não funciona por carecer justamente de uma execução mais particular de Lang, que no papel parecia ser o cineasta ideal para dirigir o longa, uma vez que a fuga do diretor de seu país de origem muito se relacionou a essa crescente do regime autoritário por lá”.
O que disse a crítica 2: Cristian Oliveira Bruno do site Cineplayers avaliou com o equivalente a 3,75 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “’O Homem Que Quis Matar Hitler’ pode não estar no mesmo nível de outras obras grandiosas desse monstro que foi Fritz Lang, mas é um filme que mescla muito bem argumentos inteligentes e interessantes, com um apuro técnico invejável, uma boa dose de suspense, um toque de romance e boas investidas no humor e isso é coisa rara”.
O que eu achei: Após fazer dois filmes muito críticos do que ocorria nos anos 30 na Alemanha – “M, o Vampiro de Dusseldorf” (1931) e “O Testamento do Dr. Mabuse” (1933) -, Josef Goebbels (Ministro da Propaganda e do Esclarecimento Público da Alemanha Nazista) convida Fritz Lang para ser o cineasta oficial do 3º Reich. Resultado: Lang resolve fugir do país, indo primeiro para a França e depois para os EUA. Na década de 1940, tendo se empenhado pela criação da Anti-Nazi-League nos EUA, foi que ele fez “O Homem Que Quis Matar Hitler” (1941). Uma adaptação de um livro chamado “Rogue Male” - uma expressão em inglês que significa ‘macho solitário’ ou ‘macho rebelde’ de autoria de Geoffrey Household. Na trama, um famoso caçador britânico, que está de férias na Alemanha em 1939, tem Adolf Hitler na mira de seu rifle esportivo, mas é capturado antes de puxar o gatilho pelos guardas que fazem a segurança do entorno. Embora a premissa de um homem tentando matar Hitler possa sugerir um filme de ação, Lang está menos interessado na aventura do que na perseguição e na resistência individual diante de um regime totalitário. O resultado é um thriller eficiente, marcado por um clima de tensão e suspense constante e um toque de romance. Ele não alcança a força de suas obras-primas, mas é um bom filme, agradável de assistir tanto por suas qualidades cinematográficas quanto por refletir a posição política de um diretor que conhecia o nazismo por experiência própria.