
Comentário: Joe Wright (1972) é um cineasta britânico. Ele começou sua carreira trabalhando no teatro de fantoches dos seus pais, além de ter interesse pela pintura, pelo cinema e pela atuação. Assisti dele os ótimos "Desejo e Reparação" (2007), "Anna Karenina" (2012) e “O Destino de uma Nação” (2017) e os bons "Orgulho & Preconceito" (2005) e “Hanna” (2010). Desta vez vou conferir a minissérie em 8 episódios "Mussolini: O Filho do Século" (2024-2025).
Alexandre Freitas Campos do site Vermelho publicou: "A série 'Mussolini, O Filho do Século' expõe as raízes do fascismo na Itália do pós Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador.
Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por 'Orgulho e Preconceito'), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.
Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: 'Make Italy great again'. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.
Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar 'muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista'. Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios. Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de 'Mussolini, O Filho do Século'. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.
O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre 'Deus, pátria e família'. Isso lembra algo?
Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.
Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam 'lados de uma mesma moeda', que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo.
'Mussolini, O Filho do Século' é baseado no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.
Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo, o contexto da Itália de Mussolini e suas influências no Brasil. (...)
'A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida', diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?"
Resumo dos episódios:
01: Estamos em Milão, Benito Mussolini é um jornalista e ex-professor que rompeu com os socialistas. Em 23 de março de 1919, na Piazza San Sepolcro, ele reúne cerca de cem pessoas - a maioria veteranos de guerra desiludidos e trabalhadores empobrecidos - para fundar o movimento fascista Fasci Italiani di Combattimento. Nesse momento inicial, o grupo é pequeno e marginalizado, mas carrega o rancor e o embrutecimento da I Guerra Mundial (1914-1918). O estilo de governo que ele deseja para a Itália vai precisar enfrentar obstáculos como a monarquia, a Igreja Católica, o Estado liberal e os processos eleitorais. Contudo, o seu principal inimigo prático são os socialistas. Usando de extrema violência, Mussolini passa a liderar capangas – os Camisas Negras - que agridem opositores e atacam sedes de jornais de esquerda. É nesse contexto que o poeta e nacionalista radical Gabriele D'Annunzio lidera uma milícia para ocupar a cidade de Fiume. Embora Mussolini inveje o protagonismo e o magnetismo do poeta, ele rapidamente planeja capitalizar politicamente seu feito. Ele usa o golpe do escritor no campo para inflamar a retórica nacionalista e atrair o apoio das elites financeiras e latifundiárias locais, que temem uma revolução comunista na Itália.
02: O episódio foca nas eleições parlamentares italianas de novembro de 1919, que resultam em uma vitória absoluta dos socialistas. O recém-criado grupo fascista de Mussolini não consegue votos suficientes para ser eleito e chega a ser ridicularizado e brevemente detido pelos opositores. Amargurado e isolado, Mussolini cogita seriamente abandonar a carreira política. O retrato do protagonista atinge um ponto de profunda degradação humana. A sorte política de Mussolini muda drasticamente com a eclosão do chamado Biênio Vermelho (Biennio Rosso). Uma onda massiva de greves, ocupações de fábricas e revoltas camponesas lideradas por socialistas que paralisa e assusta a Itália. Diante do pânico de uma revolução comunista inspirada no modelo soviético, grandes latifundiários e industriais ricos recorrem a Mussolini. Eles passam a financiar e dar cobertura aos fascistas para que seu grupo aja como uma milícia privada encarregada de esmagar as greves por meio da força brutal. O fechamento do episódio consolida a grande contradição do fascismo original. O movimento, que havia nascido meses antes com promessas de apelo popular e defesa dos trabalhadores menos favorecidos, muda completamente de lado. Mussolini abraça de vez a causa da burguesia tradicional e do patronato financeiro, descobrindo que o caminho mais rápido para o poder seria o de servir de braço armado para as elites conservadoras.
03: Após conseguir uma vaga no Parlamento, Mussolini tenta mudar de postura e adotar um perfil mais estratégico, diplomático e de estadista. No entanto, seus planos são frustrados quando os membros das milícias armadas Camisas Negras ignoram tal postura e mantém suas ações violentas em curso.
04: Após uma onda de greves e protestos contínuos, o Rei da Itália, Vítor Emanuel III, ao invés de chamar seu Exército para colocar ordem no país, covardemente decide excluir os socialistas do governo. Frente a isso, Mussolini ganha terreno, abandona a ideia da via diplomática e organiza uma insurreição armada. Ele aproveita o pânico das instituições diante do caos e se arrisca a organizar a famosa Marcha sobre Roma (1922) que poderia facilmente ter sido combatida e ter fracassado. Porém, para surpresa do próprio Mussolini, a pressão funciona surpreendentemente bem: o rei Vítor, apavorado com a possibilidade de uma guerra civil, cede e nomeia Mussolini chefe de governo, ou seja, ele vira Primeiro-Ministro da Itália, que era quem de fato mandava no país já que, na época, a Itália era uma monarquia absolutista no papel, mas parlamentar na prática. O rei, aliás, continuou no trono durante todo esse período posterior de ditadura fascista, agindo como uma figura decorativa sem poder real.
05: No quinto episódio Mussolini tenta aprovar uma nova lei eleitoral que garanta ao seu partido a maioria absoluta no Parlamento. Claro que seus opositores tentarão resistir, especialmente o líder católico antifascista Dom Luigi Sturzo. Mas Mussolini apela para um cardeal influente do Vaticano, vende a ele a ideia de que o fascismo protegeria os interesses católicos e a ordem social no país, e consegue fazer com que o próprio Vaticano retire Sturzo de cena.
06: Para obter maioria parlamentar, Mussolini toma a decisão de abrir as listas de seu partido para políticos oportunistas vindos de outras correntes. Essa manobra gera forte oposição interna, fazendo com que Cesare Forni, um dos primeiros líderes fascistas, se posicione contra ele já que isso faria o movimento fascista perder sua ‘pureza revolucionária original’. Nem é preciso dizer que essa oposição custa caro e Forni acaba sendo duramente espancado e isolado politicamente.
07: O episódio começa após as eleições gerais de 1924. O Partido Nacional Fascista conquista uma vitória esmagadora nas urnas. Porém, em 30 de maio de 1924, desafiando o clima de intimidação, o líder socialista Giacomo Matteotti faz um discurso histórico e feroz no Parlamento, denunciando formalmente as fraudes, as violências e os abusos cometidos pelos fascistas para garantir o resultado eleitoral, exigindo a anulação do pleito. Profundamente irritado com a audácia de Matteotti e temendo vazamentos sobre um grande esquema de corrupção corporativa, Mussolini decide ‘dar uma lição’ no opositor. Sob as ordens da polícia secreta do regime, as squadracce realizam uma operação violenta em plena luz do dia. Matteotti é sequestrado e, após resistir bravamente dentro de um veículo, ele é assassinado a facadas. Seu corpo é ocultado na tentativa de abafar o caso. Embora o público testemunhe o crime, para sua esposa e toda a sociedade da época o deputado está apenas desaparecido. Começa então a circular um clima de forte suspeita que deixará o governo de Mussolini à beira do colapso.
08: No último episódio o corpo enterrado do deputado socialista Giacomo Matteotti é encontrado por um cidadão comum e toda a população fica sabendo que ele havia sido assassinado e que teve seu cadáver ocultado. Diante da indignação pública e da oposição, o regime balança e quase desmorona. Mussolini fica acuado pela iminência do escândalo e pelo vazamento do "Memorial Rossi", documento que o ligava diretamente ao crime. A narrativa expõe a decadência interna do líder e o distanciamento de figuras que o moldaram. Mussolini então vai à Câmara dos Deputados e profere o pronunciamento mais emblemático de sua carreira. Em uma encenação teatral impactante, ele desafia o parlamento e assume toda a responsabilidade política, moral e histórica pelo que aconteceu, confrontando os deputados com o artigo legal que permitia tirá-lo do poder, sabendo que ninguém ali teria a coragem de enfrentá-lo, como de fato ocorre. O seriado se encerra assim mostrando o chamado marco zero da ditadura italiana. O silêncio covarde do parlamento sela o destino do país, as leis fascistas começam a ser rascunhadas imediatamente após o discurso, extinguindo a democracia liberal e iniciando oficialmente os 20 anos de controle absoluto e totalitário do fascismo na Itália.
O que eu achei: Trata-se de uma minissérie de 8 episódios que mostra a ascensão de Benito Mussolini ao poder, entre 1919 e 1925. Mais precisamente, entre o dia em que o fascismo foi fundado até o discurso de Mussolini no Parlamento, em janeiro de 1925, que estabeleceu oficialmente a ditadura fascista na Itália. Para contar essa história, o diretor britânico Joe Wright utilizou como base o livro “M, O Filho do Século” (2018) escrito pelo italiano Antonio Scurati. Esse escritor fez uma pesquisa histórica rigorosa e escreveu seu livro em formato de romance. O seriado aproveita esse formato, mas também estabelece um tom provocativo, quebrando a quarta parede ao colocar Mussolini – interpretado por Luca Marinelli - dialogando diretamente com o público. Mesmo que você não saiba nada sobre o assunto é possível acompanhar e compreender cada um desses episódios, que são verdadeiras aulas de História. Terminei de ver me perguntando o que, afinal, seria o fascismo. Utilizamos tanto essa palavra – fulano é fascista – que não sabemos mais se isso de fato corresponde ao seu verdadeiro sentido ou se virou apenas uma forma de xingamento. Uma breve pesquisa me levou a um texto que o filósofo Rodrigo S. Manzano publicou na Revista Filosofia, Ciência e Vida, em 2019. Ele diz: “De uma forma bem simples, o fascismo pode ser definido como uma teoria política autoritária, paradoxalmente excludente e inclusiva. Inclusiva pois prega um forte coletivismo, porém, de cunho diferente do que prega o marxismo. Não se trata de um coletivismo que tem por base atender às necessidades de todos, superando a desigualdade e a exploração de classes, mas um coletivismo que nega a luta de classes, pois para o bem de um povo, as diferenças devem ser deixadas de lado, inclusive as diferenças sociais, tendo por base um intenso conformismo ante a desigualdade social. E excludente pois historicamente os regimes fascistas elegem inimigos comuns, grupos considerados párias na sociedade, geralmente porque são sustentados pelo Estado. Ou usam o regime a seu favor, somente para os seus interesses e não para o bem da coletividade. Trata-se de uma teoria conservadora, no sentido de não propor mudanças estruturais voltadas ao desenvolvimento da sociedade”. É importante dizer que, apesar de sua pregação coletivista, o fascismo nada tem a ver com o socialismo ou o marxismo, uma vez que hoje difunde-se a ideia de o fascismo ser ‘de esquerda’. Na verdade, o fascismo surge justamente como um movimento radical de direita para conter o possível sucesso socialista de revoluções após a Revolução Russa de 1917, principalmente em uma Europa fragilizada pelo pós Primeira Guerra. Para quem quer se aprofundar nessa pesquisa, vi várias recomendações de leitura do livro “Fascismo Eterno” de Umberto Eco que trabalha o conceito de ‘Ur-fascismo’, que é mais elástico e abrangente para a caracterização do termo. Quanto ao seriado, li que o escritor do livro aqui retratado - Antonio Scurati - já escreveu e publicou mais três volumes sobre a vida de Mussolini: “M, O Homem da Providência” que cobre os anos de 1925 a 1932, explorando a consolidação do poder absoluto, a transformação da Itália em um Estado totalitário e o declínio físico do ditador; “M, Os Últimos Dias da Europa” que narra o período de 1938, abordando a aliança crescente entre Mussolini e Hitler, o antissemitismo do regime e a entrada catastrófica da Itália na Segunda Guerra Mundial; e, por fim, “M, A Hora do Destino” que retrata o envolvimento e as derrotas da Itália nas diversas frentes da Segunda Guerra. Então não é difícil que essa série venha a ter novas temporadas. Excelente.
Alexandre Freitas Campos do site Vermelho publicou: "A série 'Mussolini, O Filho do Século' expõe as raízes do fascismo na Itália do pós Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador.
Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por 'Orgulho e Preconceito'), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.
Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: 'Make Italy great again'. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.
Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar 'muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista'. Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios. Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de 'Mussolini, O Filho do Século'. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.
O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre 'Deus, pátria e família'. Isso lembra algo?
Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.
Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam 'lados de uma mesma moeda', que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo.
'Mussolini, O Filho do Século' é baseado no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.
Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo, o contexto da Itália de Mussolini e suas influências no Brasil. (...)
'A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida', diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?"
Resumo dos episódios:
01: Estamos em Milão, Benito Mussolini é um jornalista e ex-professor que rompeu com os socialistas. Em 23 de março de 1919, na Piazza San Sepolcro, ele reúne cerca de cem pessoas - a maioria veteranos de guerra desiludidos e trabalhadores empobrecidos - para fundar o movimento fascista Fasci Italiani di Combattimento. Nesse momento inicial, o grupo é pequeno e marginalizado, mas carrega o rancor e o embrutecimento da I Guerra Mundial (1914-1918). O estilo de governo que ele deseja para a Itália vai precisar enfrentar obstáculos como a monarquia, a Igreja Católica, o Estado liberal e os processos eleitorais. Contudo, o seu principal inimigo prático são os socialistas. Usando de extrema violência, Mussolini passa a liderar capangas – os Camisas Negras - que agridem opositores e atacam sedes de jornais de esquerda. É nesse contexto que o poeta e nacionalista radical Gabriele D'Annunzio lidera uma milícia para ocupar a cidade de Fiume. Embora Mussolini inveje o protagonismo e o magnetismo do poeta, ele rapidamente planeja capitalizar politicamente seu feito. Ele usa o golpe do escritor no campo para inflamar a retórica nacionalista e atrair o apoio das elites financeiras e latifundiárias locais, que temem uma revolução comunista na Itália.
02: O episódio foca nas eleições parlamentares italianas de novembro de 1919, que resultam em uma vitória absoluta dos socialistas. O recém-criado grupo fascista de Mussolini não consegue votos suficientes para ser eleito e chega a ser ridicularizado e brevemente detido pelos opositores. Amargurado e isolado, Mussolini cogita seriamente abandonar a carreira política. O retrato do protagonista atinge um ponto de profunda degradação humana. A sorte política de Mussolini muda drasticamente com a eclosão do chamado Biênio Vermelho (Biennio Rosso). Uma onda massiva de greves, ocupações de fábricas e revoltas camponesas lideradas por socialistas que paralisa e assusta a Itália. Diante do pânico de uma revolução comunista inspirada no modelo soviético, grandes latifundiários e industriais ricos recorrem a Mussolini. Eles passam a financiar e dar cobertura aos fascistas para que seu grupo aja como uma milícia privada encarregada de esmagar as greves por meio da força brutal. O fechamento do episódio consolida a grande contradição do fascismo original. O movimento, que havia nascido meses antes com promessas de apelo popular e defesa dos trabalhadores menos favorecidos, muda completamente de lado. Mussolini abraça de vez a causa da burguesia tradicional e do patronato financeiro, descobrindo que o caminho mais rápido para o poder seria o de servir de braço armado para as elites conservadoras.
03: Após conseguir uma vaga no Parlamento, Mussolini tenta mudar de postura e adotar um perfil mais estratégico, diplomático e de estadista. No entanto, seus planos são frustrados quando os membros das milícias armadas Camisas Negras ignoram tal postura e mantém suas ações violentas em curso.
04: Após uma onda de greves e protestos contínuos, o Rei da Itália, Vítor Emanuel III, ao invés de chamar seu Exército para colocar ordem no país, covardemente decide excluir os socialistas do governo. Frente a isso, Mussolini ganha terreno, abandona a ideia da via diplomática e organiza uma insurreição armada. Ele aproveita o pânico das instituições diante do caos e se arrisca a organizar a famosa Marcha sobre Roma (1922) que poderia facilmente ter sido combatida e ter fracassado. Porém, para surpresa do próprio Mussolini, a pressão funciona surpreendentemente bem: o rei Vítor, apavorado com a possibilidade de uma guerra civil, cede e nomeia Mussolini chefe de governo, ou seja, ele vira Primeiro-Ministro da Itália, que era quem de fato mandava no país já que, na época, a Itália era uma monarquia absolutista no papel, mas parlamentar na prática. O rei, aliás, continuou no trono durante todo esse período posterior de ditadura fascista, agindo como uma figura decorativa sem poder real.
05: No quinto episódio Mussolini tenta aprovar uma nova lei eleitoral que garanta ao seu partido a maioria absoluta no Parlamento. Claro que seus opositores tentarão resistir, especialmente o líder católico antifascista Dom Luigi Sturzo. Mas Mussolini apela para um cardeal influente do Vaticano, vende a ele a ideia de que o fascismo protegeria os interesses católicos e a ordem social no país, e consegue fazer com que o próprio Vaticano retire Sturzo de cena.
06: Para obter maioria parlamentar, Mussolini toma a decisão de abrir as listas de seu partido para políticos oportunistas vindos de outras correntes. Essa manobra gera forte oposição interna, fazendo com que Cesare Forni, um dos primeiros líderes fascistas, se posicione contra ele já que isso faria o movimento fascista perder sua ‘pureza revolucionária original’. Nem é preciso dizer que essa oposição custa caro e Forni acaba sendo duramente espancado e isolado politicamente.
07: O episódio começa após as eleições gerais de 1924. O Partido Nacional Fascista conquista uma vitória esmagadora nas urnas. Porém, em 30 de maio de 1924, desafiando o clima de intimidação, o líder socialista Giacomo Matteotti faz um discurso histórico e feroz no Parlamento, denunciando formalmente as fraudes, as violências e os abusos cometidos pelos fascistas para garantir o resultado eleitoral, exigindo a anulação do pleito. Profundamente irritado com a audácia de Matteotti e temendo vazamentos sobre um grande esquema de corrupção corporativa, Mussolini decide ‘dar uma lição’ no opositor. Sob as ordens da polícia secreta do regime, as squadracce realizam uma operação violenta em plena luz do dia. Matteotti é sequestrado e, após resistir bravamente dentro de um veículo, ele é assassinado a facadas. Seu corpo é ocultado na tentativa de abafar o caso. Embora o público testemunhe o crime, para sua esposa e toda a sociedade da época o deputado está apenas desaparecido. Começa então a circular um clima de forte suspeita que deixará o governo de Mussolini à beira do colapso.
08: No último episódio o corpo enterrado do deputado socialista Giacomo Matteotti é encontrado por um cidadão comum e toda a população fica sabendo que ele havia sido assassinado e que teve seu cadáver ocultado. Diante da indignação pública e da oposição, o regime balança e quase desmorona. Mussolini fica acuado pela iminência do escândalo e pelo vazamento do "Memorial Rossi", documento que o ligava diretamente ao crime. A narrativa expõe a decadência interna do líder e o distanciamento de figuras que o moldaram. Mussolini então vai à Câmara dos Deputados e profere o pronunciamento mais emblemático de sua carreira. Em uma encenação teatral impactante, ele desafia o parlamento e assume toda a responsabilidade política, moral e histórica pelo que aconteceu, confrontando os deputados com o artigo legal que permitia tirá-lo do poder, sabendo que ninguém ali teria a coragem de enfrentá-lo, como de fato ocorre. O seriado se encerra assim mostrando o chamado marco zero da ditadura italiana. O silêncio covarde do parlamento sela o destino do país, as leis fascistas começam a ser rascunhadas imediatamente após o discurso, extinguindo a democracia liberal e iniciando oficialmente os 20 anos de controle absoluto e totalitário do fascismo na Itália.
O que eu achei: Trata-se de uma minissérie de 8 episódios que mostra a ascensão de Benito Mussolini ao poder, entre 1919 e 1925. Mais precisamente, entre o dia em que o fascismo foi fundado até o discurso de Mussolini no Parlamento, em janeiro de 1925, que estabeleceu oficialmente a ditadura fascista na Itália. Para contar essa história, o diretor britânico Joe Wright utilizou como base o livro “M, O Filho do Século” (2018) escrito pelo italiano Antonio Scurati. Esse escritor fez uma pesquisa histórica rigorosa e escreveu seu livro em formato de romance. O seriado aproveita esse formato, mas também estabelece um tom provocativo, quebrando a quarta parede ao colocar Mussolini – interpretado por Luca Marinelli - dialogando diretamente com o público. Mesmo que você não saiba nada sobre o assunto é possível acompanhar e compreender cada um desses episódios, que são verdadeiras aulas de História. Terminei de ver me perguntando o que, afinal, seria o fascismo. Utilizamos tanto essa palavra – fulano é fascista – que não sabemos mais se isso de fato corresponde ao seu verdadeiro sentido ou se virou apenas uma forma de xingamento. Uma breve pesquisa me levou a um texto que o filósofo Rodrigo S. Manzano publicou na Revista Filosofia, Ciência e Vida, em 2019. Ele diz: “De uma forma bem simples, o fascismo pode ser definido como uma teoria política autoritária, paradoxalmente excludente e inclusiva. Inclusiva pois prega um forte coletivismo, porém, de cunho diferente do que prega o marxismo. Não se trata de um coletivismo que tem por base atender às necessidades de todos, superando a desigualdade e a exploração de classes, mas um coletivismo que nega a luta de classes, pois para o bem de um povo, as diferenças devem ser deixadas de lado, inclusive as diferenças sociais, tendo por base um intenso conformismo ante a desigualdade social. E excludente pois historicamente os regimes fascistas elegem inimigos comuns, grupos considerados párias na sociedade, geralmente porque são sustentados pelo Estado. Ou usam o regime a seu favor, somente para os seus interesses e não para o bem da coletividade. Trata-se de uma teoria conservadora, no sentido de não propor mudanças estruturais voltadas ao desenvolvimento da sociedade”. É importante dizer que, apesar de sua pregação coletivista, o fascismo nada tem a ver com o socialismo ou o marxismo, uma vez que hoje difunde-se a ideia de o fascismo ser ‘de esquerda’. Na verdade, o fascismo surge justamente como um movimento radical de direita para conter o possível sucesso socialista de revoluções após a Revolução Russa de 1917, principalmente em uma Europa fragilizada pelo pós Primeira Guerra. Para quem quer se aprofundar nessa pesquisa, vi várias recomendações de leitura do livro “Fascismo Eterno” de Umberto Eco que trabalha o conceito de ‘Ur-fascismo’, que é mais elástico e abrangente para a caracterização do termo. Quanto ao seriado, li que o escritor do livro aqui retratado - Antonio Scurati - já escreveu e publicou mais três volumes sobre a vida de Mussolini: “M, O Homem da Providência” que cobre os anos de 1925 a 1932, explorando a consolidação do poder absoluto, a transformação da Itália em um Estado totalitário e o declínio físico do ditador; “M, Os Últimos Dias da Europa” que narra o período de 1938, abordando a aliança crescente entre Mussolini e Hitler, o antissemitismo do regime e a entrada catastrófica da Itália na Segunda Guerra Mundial; e, por fim, “M, A Hora do Destino” que retrata o envolvimento e as derrotas da Itália nas diversas frentes da Segunda Guerra. Então não é difícil que essa série venha a ter novas temporadas. Excelente.