22.6.26

"Bye Bye Brasil" - Cacá Diegues (Brasil, 1979)

Sinopse:
 
Salomé (Betty Faria), Lorde Cigano (José Wilker) e Andorinha (Príncipe Nabor) são três artistas ambulantes que cruzam o país juntamente com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e sua esposa Dasdô (Zaira Zambelli). A Caravana cruza a Amazônia até chegar a Brasília.
Comentário: Cacá Diegues (1940–2025), foi um roteirista, produtor, cineasta e escritor brasileiro. Um dos fundadores do movimento do Cinema Novo, Diegues participou de uma série de momentos distintos da história do cinema brasileiro, com uma obra que atravessou mais de 5 décadas de produção. “Bye Bye Brasil” (1979) é seu oitavo longa-metragem e o primeiro filme que vejo dele.
O site Wikipédia nos conta que “Bye Bye Brasil” narra a história de uma trupe de artistas mambembes, que roda com a Caravana Rolidei pelo interior do Brasil. O mágico Lorde Cigano (José Wilker), a 'rainha da rumba' Salomé (Betty Faria) e o homem-músculo Andorinha (Príncipe Nabor) chegam a uma cidadezinha do interior do Nordeste e encontram o sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior) e sua mulher grávida, Dasdô (Zaira Zambelli). Esses se juntam à trupe e partem no caminhão para conhecer o país. Na cidade de Maceió, em Alagoas, Ciço vê o mar pela primeira vez; em um pequeno vilarejo, conhecem Zé da Luz (Jofre Soares), projecionista de filmes como “O Ébrio” (1946). Já no caminho para Altamira, no Pará, encontram índios que querem andar de avião e possuem rádios de pilha; em Altamira, perdem o caminhão em uma aposta, e Salomé tem de se prostituir. Em seguida, vão à zona de Belém, no Pará, brigam, separam-se e, por fim, reencontram-se em Brasília com Salomé e o Lorde Cigano, com novo caminhão, cheio de luzes, em direção a Rondônia.
No enredo, há ainda duas tramas importantes: o amor de Ciço por Salomé e o declínio de espectadores com a chegada da televisão. As antenas de TV, chamadas de 'espinhas de peixe' pela trupe, são o sinal da modernidade homogeneizante, que hipnotiza o público. A cena da população altamirense diante da televisão pública é real: foi vista pelo diretor durante viagem pelo interior de Alagoas, em 1973. Para o grupo de artistas, a sobrevivência é uma corrida contra o tempo, que se traduz em uma fuga pelo espaço. Sobre isso, o crítico de cinema David Neves (1938-1994) fala que “o Brasil é tão grande e desconhecido que o espaço vira tempo”.
A anacronia de índios portando rádios de pilha ou de televisores transmitindo apenas barras de cores em Altamira, pois o sinal televisivo não está presenta na cidade, é reforçada na canção-tema do filme: “Puseram uma usina no mar / Talvez fique ruim pra pescar / (...) No Tocantins / O chefe dos Parintintins / Vidrou na minha calça Lee”. Há uma contraposição constante entre arcaico e moderno, miséria e progresso, natural e artificial. Sobre isso, fala o diretor: “Botamos grua no sertão, traveling na Amazônia”. Além de máquinas importadas, a 'invasão' estrangeira é perceptível no título, no nome da caravana, nos dólares da fábrica flutuante de papel, na neve falsa caindo ao som de “White Christmas”. E também na música da discoteca em Belém, na novela “Dancing Days”, na interpretação do estadunidense Frank Sinatra para “Aquarela do Brasil” e na música-tema: ‘O Som é Que Nem os Bee Gees’; ‘Baby, Bye Bye’; ‘Eu Penso em Vocês Night and Day / Explica Que Tá Tudo Okay’.
Na época, alguns intérpretes do filme cobram do cineasta posicionamento mais crítico sobre o processo de modernização, na medida em que a essência capitalista predatória é avaliada como imutável.
O crítico Jairo Ferreira ataca o filme: “Diegues força a barra dessa esperança: seus personagens se arrumam na vida. Se adaptam ao sistema. ‘Bye bye’ parece um filme institucional”. Raquel Gerber tenta demonstrar a abordagem insuficiente da reação política de agentes sociais: “Diegues documenta o ‘crepúsculo de uma nação’ sem nunca discuti-lo a partir de novas formas vitais (...). O teatro de Diegues encena um encontro entre brancos, índios, um negro e as mulheres e desperdiça esse encontro”.
José Carlos Avellar (1936-2016), em posição conciliadora, admira “o que se passa lá no fundo da imagem”, sem impor-se ao olhar: o brinquedo na mão de um indiozinho, o cartaz da fábrica flutuante, a procissão na cidade seca, o casario à beira do rio, a floresta engolindo a estrada. Essa faceta documental do filme funciona como 'reflexo da realidade', e outro lado, que a ela se sobrepõe, “age como uma ficção, como algo ditado só pela emoção”, quase uma 'estorinha' de telenovela. Na metáfora do analista, o espectador tem a opção de ficar com um olho na TV e o outro na janela.
Avellar aponta o pragmatismo da obra de Diegues: o olho na janela persiste no desejo de captar a realidade brasileira, como o cinema novo, do qual Diegues é representante; o olho na TV assume os compromissos com o mercado, dos quais não se sai ileso. Um dos aparentes paradoxos – ou a 'atitude antropofágica da cultura brasileira', em conformidade com a temática do filme – é que, concomitantemente à crítica à televisão, o filme incorpora artistas e recursos simplificadores da narrativa televisiva. Além disso, é cofinanciado por Walter Clark, executivo da Rede Globo de Televisão, uma das criações do regime militar, segundo afirmação do próprio diretor.
“Bye Bye Brasil” consolida as discussões político-culturais que atravessam a década de 1970. A trilha sonora de Chico Buarque (1944) e Roberto Menescal (1937) também faz referência ao momento político e à contradição entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira. Um ano antes da produção do filme, Diegues lança a polêmica sobre 'patrulhas ideológicas'. O diretor acusa alguns setores da esquerda de imporem, na redemocratização do país, 'um novo tipo de censura', uma 'espécie de autoritarismo cultural', em que se procura restaurar os anseios pré-golpe de 1964. O diretor reivindica pluralismo de pensamentos e pede para que enterrem a pedagogia revolucionária e a estética radical do cinema novo.
O longa torna-se o grande lançamento da Embrafilme, conquista vários prêmios em festivais nacionais e internacionais, repercute na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. O sucesso comercial está em sintonia com as declarações de Carlos Diegues: a devoção ao sofrimento, à razão e ao derrotismo deve ser substituída pelo prazer, pelo amor sem opressão e pela esperança no povo brasileiro do século XXI, para o qual o filme é dedicado.
O que disse a crítica 1: Frederico Franco do site Plano Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: "No final das contas, 'Bye Bye Brasil' torna-se um filme episódico pouco empolgante. As cidades visitadas pela caravana possuem seus próprios arcos narrativos que nascem tortos e terminam sem grandes conclusões. Por mais que a Caravana Rolidei siga seu caminho e veja de passagem as mudanças sociais do Brasil, seus personagens, por outro lado, não buscam deslocamento. Ou sequer são colocados frente a situações limítrofes. A caravana viaja enquanto sua tripulação para no tempo".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Mesmo após a dissolução do Cinema Novo, Cacá Diegues (um dos próceres do movimento) continuou dando voz e rosto aos que padecem à margem do progresso, expondo noutras chaves as mazelas de uma sociedade doente. Musicado pela virtuosa trilha sonora de Chico Buarque de Hollanda e Roberto Menescal, 'Bye Bye Brasil' guarda significâncias densas, extraídas de suas paisagens geográfica, social e afetiva. Possui rara beleza, não apenas por expor (no bom sentido) o sofrido povo tupiniquim, mas, sobretudo por fazê-lo graciosamente, tomado da incorrigível esperança dessa gente que, a despeito de todas as evidências, crê num sol capaz de nunca mais se pôr".
O que eu achei: Trata-se de um retrato singular de um país em transformação. Acompanhamos a Caravana Rolidei, formada por artistas mambembes como Lorde Cigano (José Wilker), Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor), que cruzam o Brasil oferecendo números de mágica, dança, adivinhação e demonstrações de força enquanto tentam sobreviver em um cenário cada vez menos favorável ao seu ofício. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e Dasdô (Zaira Zambelli), casal de retirantes que passa a integrar essa jornada pelo interior do país. O road movie funciona como uma metáfora do choque entre tradição e modernidade. A caravana simboliza formas de entretenimento populares que começam a desaparecer diante do avanço da televisão, das antenas parabólicas e da cultura de massa. O Brasil rural, que durante décadas sustentou circos, cinemas itinerantes e trupes ambulantes, passa a consumir novelas, programas televisivos e música pop, alterando profundamente os hábitos da população. O percurso dos personagens também permite observar as contradições do chamado projeto de integração nacional promovido durante a ditadura militar. Ao atravessar regiões como a Amazônia e Altamira, o filme registra os efeitos da ocupação da fronteira amazônica impulsionada pela abertura da Transamazônica, antecipando discussões que décadas depois reapareceriam com a construção da usina de Belo Monte. O progresso surge como promessa, mas também como força capaz de apagar modos de vida e identidades culturais. A melancolia dessa transformação encontra eco na memorável canção-tema composta por Chico Buarque e Roberto Menescal. Menescal fez a música e Chico escreveu a letra – impecável como sempre - quando o filme já estava praticamente montado, incorporando imagens e situações vistas na moviola, como a chegada da televisão ao sertão e as mudanças provocadas pelas grandes obras de infraestrutura. Pode-se argumentar que falta ao longa uma crítica mais contundente ao contexto político da época. Ainda assim, sua força permanece intacta como documento histórico e cultural. Entre o humor, a aventura e a nostalgia, “Bye Bye Brasil” captura com rara sensibilidade um momento em que um país se despedia de um passado sem saber exatamente o que encontraria pela frente.