
Comentário: Sandhya Suri (1970) é uma cineasta britânica-indiana. São dela os documentários "I for India" (2005) que conta as experiências de seu pai como imigrante indiano no Reino Unido e o documentário mudo "Around India with a Movie Camera" (2018) que explora a vida na Índia britânica através de imagens de arquivo do British Film Institute. É dela também o curta-metragem "The Field" (2018). "Santosh" (2024) é seu primeiro longa de ficção e o primeiro filme que vejo dela.
Peter Bradshaw do The Guardian publicou "A roteirista e diretora Sandhya Suri criou um tenso, violento e politicamente perspicaz drama policial ambientado na Índia: um filme sobre sexismo, intolerância de castas e islamofobia que também funciona como um estudo da complexa relação entre duas policiais, uma veterana cínica e uma novata ingênua. Elas são interpretadas de forma magnífica por Sunita Rajwar e Shahana Goswami, em uma espécie de versão indiana com inversão de gênero de 'Dia de Treinamento'.
Suri é uma cineasta que, há 20 anos, nos presenteou com o extraordinário filme-ensaio pessoal 'I for India', e este é seu primeiro longa-metragem de ficção, que, segundo consta, começou como um projeto de documentário inspirado pelas manifestações públicas contra o estupro coletivo e assassinato de Jyoti Singh.
O filme gira em torno da convenção indiana de 'nomeação por compaixão': a viúva dependente de um funcionário público pode se candidatar ao mesmo cargo. Goswami interpreta Santosh, cujo marido policial foi morto em um tumulto; há rumores sombrios sobre a identidade muçulmana do culpado desconhecido. Sem filhos e sem dinheiro, ela se candidata com sucesso ao cargo do falecido marido e se vê envolvida em um caso controverso: o corpo de uma jovem Dalit, estuprada e assassinada, foi encontrado em um poço de uma aldeia – e a comunidade está revoltada com o evidente preconceito de casta da polícia por não ter feito nada a respeito.
A inspetora veterana Geeta Sharma assume o caso para acalmar a mídia e se interessa pela nova policial, Santosh. Goswami mostra como Santosh é inteligente e trabalhadora, porém submissa, e como ela consegue lidar com o problema que os policiais homens são meticulosos demais para resolver: um cadáver feminino.
Mesmo antes da duvidosa mentoria de Sharma, Santosh já demonstrava aptidão natural para o trabalho (...). Apesar de sua evidente nobreza de espírito, Santosh está longe de ser avessa às artes de ameaçar, intimidar, mentir e torturar suspeitos, num mundo onde encontrar o culpado exato não é tão importante quanto punir brutalmente alguém para dissuadir outros.
De uma forma complexa e disfuncional que ela mesma não compreende, Santosh está em uma missão pessoal para obter justiça ou vingança pela morte do marido. Goswami nos permite ver seu orgulho discreto e até mesmo uma euforia reprimida em seu uniforme: como mulher, ela foi uma cidadã de segunda classe a vida toda e agora, embora naturalmente subordinada aos policiais arrogantes e negligentes, seu uniforme lhe permite caminhar pelas ruas com uma nova confiança.
Como era seu relacionamento com o marido? Era um 'casamento por amor', diz ela, e aconteceu apesar da oposição da família dele, que se ressentia do dote irrisório. Mas será que agora ela ama o marido mais por sua ausência, seu sacrifício, por tê-la recriado como Santosh, a policial, a detetive, a vingadora?".
O que disse a crítica 1: Ayaan Paul Chowdhury do site The Hindu gostou. Disse: "Um dos triunfos mais impressionantes do filme é o uso de não-atores, que se inserem na tela com naturalidade e nos fazem questionar onde termina a atuação e começa a realidade. (...) A grande sacada do longa é apresentar o poder como algo que (...) se infiltra sorrateiramente, oferecendo pequenas transgressões justificáveis como regras ligeiramente flexibilizadas até que essa flexibilização se torne um hábito. Santosh, como tantas outras antes dela, começa apenas tentando sobreviver. Mas sobreviver na polícia indiana (ou em qualquer força policial, aliás) dificilmente é um ato neutro. O uniforme não concede autoridade; exige cumplicidade. E assim, sem perceber, Santosh absorve as hierarquias de casta que ditam quem merece ser protegido e quem é descartável, a política comunitária que torna certos suspeitos mais 'culpados' do que outros, e a misoginia institucionalizada que garante que seu poder seja sempre provisório".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Este é um feito fenomenal: a estreia na direção de longas-metragens da ex-documentarista britânica-indiana Sandhya Suri é um policial contundente e vigoroso em hindi, ambientado na zona rural do norte da Índia. Com roteiro elegante de Suri, 'Santosh' combina uma narrativa envolvente e crua com um reconhecimento perspicaz de alguns dos aspectos mais obscuros da Índia moderna: a corrupção e a brutalidade policial, o sexismo enraizado, o preconceito de casta e o sentimento anti-muçulmano. O filme encontra um equilíbrio delicado entre uma produção cinematográfica perspicaz e focada em questões sociais e um entretenimento dinâmico".
O que eu achei: Falar sobre os aspectos mais obscuros da polícia indiana, retratando a misoginia profundamente enraizada, a discriminação contra os Dalits (a casta mais baixa da Índia considerada intocável, não por serem divindades, mas por serem a casta dos trabalhadores da limpeza), a normalização de maus-tratos e tortura por policiais, a violência sexual contra mulheres e a crescente onda de preconceito antimuçulmano no país era uma missão que a documentarista Sandhya Suri queria abraçar, mas logo percebeu que o gênero documentário não seria adequado. Primeiro por expor as vítimas e segundo porque se infiltrar - especialmente como mulher - nas engrenagens internas da polícia na Índia seria praticamente impossível, além de perigoso. Então a opção foi criar um retrato ficcional a partir da personagem Santosh, uma mulher que fica viúva de um policial e acaba, por lei, herdando seu cargo. Acostumada a ficar em casa, trabalhando como professora particular, ela sofrerá um choque de realidade quando tiver que investigar o caso de uma jovem adolescente Dalit morta, encontrada dentro de um poço, cujo suspeito é um muçulmano. O longa foi todo gravado nos arredores da cidade de Lucknow, na região de Uttar Pradesh, Índia. Porém, ele acabou se tornando a indicação oficial do Reino Unido ao Oscar, já que em seu país ele sofreu censura por conta dos temas ali expostos. Os censores indianos exigiram mudanças drásticas que não foram atendidas pela produção. Assim, o filme acabou vetado definitivamente pelo Conselho Central de Certificação de Filmes do governo indiano e está impedido de ser exibido não só nos cinemas locais, mas também no streaming. Acabou estreando em Cannes na mostra competitiva Un Certain Regard, onde foi bem acolhido pela crítica e, posteriormente, pelo público internacional. É uma oportunidade ímpar para conhecer os meandros dessa sociedade num filme implacável que captura o fascínio sombrio do poder através da perspectiva daqueles que o exercem expondo com maestria todos os temas propostos. Boa pedida.
Peter Bradshaw do The Guardian publicou "A roteirista e diretora Sandhya Suri criou um tenso, violento e politicamente perspicaz drama policial ambientado na Índia: um filme sobre sexismo, intolerância de castas e islamofobia que também funciona como um estudo da complexa relação entre duas policiais, uma veterana cínica e uma novata ingênua. Elas são interpretadas de forma magnífica por Sunita Rajwar e Shahana Goswami, em uma espécie de versão indiana com inversão de gênero de 'Dia de Treinamento'.
Suri é uma cineasta que, há 20 anos, nos presenteou com o extraordinário filme-ensaio pessoal 'I for India', e este é seu primeiro longa-metragem de ficção, que, segundo consta, começou como um projeto de documentário inspirado pelas manifestações públicas contra o estupro coletivo e assassinato de Jyoti Singh.
O filme gira em torno da convenção indiana de 'nomeação por compaixão': a viúva dependente de um funcionário público pode se candidatar ao mesmo cargo. Goswami interpreta Santosh, cujo marido policial foi morto em um tumulto; há rumores sombrios sobre a identidade muçulmana do culpado desconhecido. Sem filhos e sem dinheiro, ela se candidata com sucesso ao cargo do falecido marido e se vê envolvida em um caso controverso: o corpo de uma jovem Dalit, estuprada e assassinada, foi encontrado em um poço de uma aldeia – e a comunidade está revoltada com o evidente preconceito de casta da polícia por não ter feito nada a respeito.
A inspetora veterana Geeta Sharma assume o caso para acalmar a mídia e se interessa pela nova policial, Santosh. Goswami mostra como Santosh é inteligente e trabalhadora, porém submissa, e como ela consegue lidar com o problema que os policiais homens são meticulosos demais para resolver: um cadáver feminino.
Mesmo antes da duvidosa mentoria de Sharma, Santosh já demonstrava aptidão natural para o trabalho (...). Apesar de sua evidente nobreza de espírito, Santosh está longe de ser avessa às artes de ameaçar, intimidar, mentir e torturar suspeitos, num mundo onde encontrar o culpado exato não é tão importante quanto punir brutalmente alguém para dissuadir outros.
De uma forma complexa e disfuncional que ela mesma não compreende, Santosh está em uma missão pessoal para obter justiça ou vingança pela morte do marido. Goswami nos permite ver seu orgulho discreto e até mesmo uma euforia reprimida em seu uniforme: como mulher, ela foi uma cidadã de segunda classe a vida toda e agora, embora naturalmente subordinada aos policiais arrogantes e negligentes, seu uniforme lhe permite caminhar pelas ruas com uma nova confiança.
Como era seu relacionamento com o marido? Era um 'casamento por amor', diz ela, e aconteceu apesar da oposição da família dele, que se ressentia do dote irrisório. Mas será que agora ela ama o marido mais por sua ausência, seu sacrifício, por tê-la recriado como Santosh, a policial, a detetive, a vingadora?".
O que disse a crítica 1: Ayaan Paul Chowdhury do site The Hindu gostou. Disse: "Um dos triunfos mais impressionantes do filme é o uso de não-atores, que se inserem na tela com naturalidade e nos fazem questionar onde termina a atuação e começa a realidade. (...) A grande sacada do longa é apresentar o poder como algo que (...) se infiltra sorrateiramente, oferecendo pequenas transgressões justificáveis como regras ligeiramente flexibilizadas até que essa flexibilização se torne um hábito. Santosh, como tantas outras antes dela, começa apenas tentando sobreviver. Mas sobreviver na polícia indiana (ou em qualquer força policial, aliás) dificilmente é um ato neutro. O uniforme não concede autoridade; exige cumplicidade. E assim, sem perceber, Santosh absorve as hierarquias de casta que ditam quem merece ser protegido e quem é descartável, a política comunitária que torna certos suspeitos mais 'culpados' do que outros, e a misoginia institucionalizada que garante que seu poder seja sempre provisório".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Este é um feito fenomenal: a estreia na direção de longas-metragens da ex-documentarista britânica-indiana Sandhya Suri é um policial contundente e vigoroso em hindi, ambientado na zona rural do norte da Índia. Com roteiro elegante de Suri, 'Santosh' combina uma narrativa envolvente e crua com um reconhecimento perspicaz de alguns dos aspectos mais obscuros da Índia moderna: a corrupção e a brutalidade policial, o sexismo enraizado, o preconceito de casta e o sentimento anti-muçulmano. O filme encontra um equilíbrio delicado entre uma produção cinematográfica perspicaz e focada em questões sociais e um entretenimento dinâmico".
O que eu achei: Falar sobre os aspectos mais obscuros da polícia indiana, retratando a misoginia profundamente enraizada, a discriminação contra os Dalits (a casta mais baixa da Índia considerada intocável, não por serem divindades, mas por serem a casta dos trabalhadores da limpeza), a normalização de maus-tratos e tortura por policiais, a violência sexual contra mulheres e a crescente onda de preconceito antimuçulmano no país era uma missão que a documentarista Sandhya Suri queria abraçar, mas logo percebeu que o gênero documentário não seria adequado. Primeiro por expor as vítimas e segundo porque se infiltrar - especialmente como mulher - nas engrenagens internas da polícia na Índia seria praticamente impossível, além de perigoso. Então a opção foi criar um retrato ficcional a partir da personagem Santosh, uma mulher que fica viúva de um policial e acaba, por lei, herdando seu cargo. Acostumada a ficar em casa, trabalhando como professora particular, ela sofrerá um choque de realidade quando tiver que investigar o caso de uma jovem adolescente Dalit morta, encontrada dentro de um poço, cujo suspeito é um muçulmano. O longa foi todo gravado nos arredores da cidade de Lucknow, na região de Uttar Pradesh, Índia. Porém, ele acabou se tornando a indicação oficial do Reino Unido ao Oscar, já que em seu país ele sofreu censura por conta dos temas ali expostos. Os censores indianos exigiram mudanças drásticas que não foram atendidas pela produção. Assim, o filme acabou vetado definitivamente pelo Conselho Central de Certificação de Filmes do governo indiano e está impedido de ser exibido não só nos cinemas locais, mas também no streaming. Acabou estreando em Cannes na mostra competitiva Un Certain Regard, onde foi bem acolhido pela crítica e, posteriormente, pelo público internacional. É uma oportunidade ímpar para conhecer os meandros dessa sociedade num filme implacável que captura o fascínio sombrio do poder através da perspectiva daqueles que o exercem expondo com maestria todos os temas propostos. Boa pedida.