
Comentário: Alain Ughetto herdou do seu pai e do seu avô – camponeses que exerciam atividades como pedreiro, carpinteiro e carvoeiro - um gosto pronunciado pelo DIY: o famoso ‘do-it-yourself’ ou ‘faça você mesmo’ - essa herança do fazer com as próprias mãos que infunde no seu cinema de animação um veículo para explorar o íntimo.
Dentre suas produções estão "La Boule" que, em 1985, recebeu o César de Melhor Curta-Metragem de Animação. Em 2013, dirigiu "Jasmine", na qual a sua história de amor se desenrola no tumulto de Teerã no final da década de 1970. Após uma longa maturação, ele regressa em 2022 para moldar a história do seu avô e, através dela, a de muitos imigrantes italianos.
Para reconstruir a história da sua família, ele usa materiais simples como carvão, açúcar ou massinha. O açúcar vira tijolo, o brócolis vira árvore. É comum vermos as mãos do próprio Ughetto em cena, interagindo com os bonecos. Isso quebra a ‘quarta parede’ e transforma o cinema em um diálogo direto entre o presente e o passado. Através dessa técnica manual e aparentemente ingênua, ele consegue abordar temas pesados como imigração, pobreza e fascismo com uma sensibilidade que o cinema tradicional dificilmente alcançaria.
Roger Lerina do site Matinal nos conta que "A busca pela história da família italiana que migrou pela Europa motivou o realizador francês Alain Ughetto a rodar a divertida e emocionante animação 'Proibido a Cães e Italianos' (2022). Misturando bonecos em stop motion e imagens de arquivo, o filme narra a jornada de Luigi Ughetto, um camponês determinado do norte da Itália no início do século 20 que decide cruzar os Alpes com a família em busca de uma vida melhor na França.
'Proibido a Cães e Italianos' recebeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Animação no European Film Awards. A história do longa é construída a partir de um diálogo ficcional com a falecida avó do diretor, Cesira – dublada por Ariane Ascaride, ótima atriz francesa conhecida por seus papéis nos filmes do cineasta Robert Guédiguian –, a quem o próprio Alain Ughetto pergunta sobre a vida de seus ancestrais. A velha camponesa relata então para o neto – e os espectadores – as lembranças da dura vida em Ughettera, uma pequena e pobre aldeia no alto das montanhas no Piemonte.
Em tom de poesia e recuperando vestígios do passado, como fotografias e correspondências, a narrativa imprime a essa história pessoal uma dimensão universal ao expressar os sonhos, frustrações e desafios vividos por imigrantes de todos os lugares e épocas. Durante essa experiência de deslocamento, a família Ughetto improvisou uma nova casa cuja memória é o alicerce – e que se relaciona especificamente com a trajetória de muitos imigrantes italianos que se espalharam pelo continente europeu ou vieram para as Américas nessa época.
'O que me interessava era voltar no tempo para conectar memórias íntimas com um contexto histórico mais amplo', conta Ughetto. 'Inspirei-me na realidade. Mergulhei na minha própria memória, depois na dos meus primos, irmãos e irmãs. Entre a guerra e a migração, entre o nascimento e a morte, surgiu uma história. Além da tristeza de uma história pessoal, descobri uma jornada surpreendente, contada no filme', complementa o diretor de 'Jasmine' (2013), longa de animação sobre uma história de amor que se desenrola no tumulto de Teerã no final da década de 1970.
Sobre o título de seu novo filme, Ughetto explica: 'Uma velha imagem circulando na internet me intrigou: um sinal em preto e branco pendurado em frente a um velho café dizia: ‘Proibido a cães e italianos’. A violência, a crueldade e a ferocidade desse pequeno sinal que recebia os migrantes se encaixam perfeitamente na evocação histórica que é a base do tema desse filme'”.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "'Proibido a Cães e Italianos' é um filme bonito sobre a busca por origem. De certa forma, também é uma ode à persistência de homens e mulheres que se adaptaram às mudanças históricas, enfrentando com a mesma coragem a guerra e a fome, para finalmente conseguir morrer em paz. Levando em consideração que Alain Ughetto está refletindo sobre o passado da própria família, fica implícito um elogio cheio de ternura e orgulho a essa jornada pregressa que ficou cristalizada em seu imaginário como um legado de bravura. Os Ughetto são vistos como testemunhas e vítimas da História, mas nem por isso a produção abre tanto o seu escopo para compreender as guerras e o preconceito sofrido pelos italianos pobres em países vizinhos, como a França e a Suíça. Aliás, em apenas uma cena essa discriminação fica evidente, exatamente quando os Ughetto se deparam com um estabelecimento em que há uma placa com os dizeres que dão nome ao filme".
O que disse a crítica 2: Letícia Alassë do site Cine POP avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Como o Brasil é composto exatamente por essa população imigrante, sejam italianos, portugueses, japoneses, libaneses, sejam até mesmo os traficados para este país, esta obra de 70 minutos consegue nos tocar e nos atiçar a descortinar a nossa própria crônica genealógica. Ganhador do prêmio da crítica no My French Film Festival, o qual participei do júri deste ano, e do Festival de Animação de Annecy 2022, 'Proibido a Cães e Italianos' conversa igualmente com os mais jovens articulando o olhar infantil para estes períodos de guerras e xenofobia, tanto no passado quanto no presente".
O que eu achei: "Proibido a Cães e Italianos”, dirigido por Alain Ughetto, é um filme lindo e extremamente delicado, daqueles que transformam memórias familiares em algo universal. Utilizando um misto de animação stop motion com bonecos e imagens de arquivo, a obra reconstrói a trajetória da família do diretor, a família Ughetto, que deixou o norte da Itália no início do século 20 em busca de sobrevivência e dignidade em outros países da Europa e da América. A história começa em Ughettera, região de origem da família, no norte da Itália, e acompanha especialmente Luigi Ughetto, seu avô, atravessando os Alpes para iniciar uma nova vida na França. O contexto histórico - pobreza, fome, preconceito contra imigrantes italianos - aparece sempre filtrado por um olhar íntimo e afetivo. O grande diferencial do filme está justamente nessa dimensão pessoal. O próprio Alain Ughetto surge em cena com suas mãos manipulando objetos e interferindo nos cenários enquanto conversa com a boneca que representa sua avó Cesira - esposa do Luigi - já falecida. É como se o diretor tentasse preencher lacunas da memória familiar perguntando tudo aquilo que nunca pôde perguntar em vida. Esse recurso acaba funcionando de maneira profundamente humana e tocante. Visualmente, o filme encontra beleza na simplicidade. Os bonecos - lindíssimos por sinal - têm um aspecto artesanal que combina perfeitamente com o tom nostálgico da narrativa. Há uma sensação constante de álbum de família ganhando vida, reforçada pelas fotografias e imagens históricas inseridas ao longo do percurso. Talvez o maior mérito seja justamente sua capacidade de despertar identificação. Para descendentes de italianos - especialmente aqueles cujas famílias também imigraram em busca de uma vida melhor -, o impacto emocional tende a ser ainda mais forte. Muitos, assim como eu, reconhecerão ali fragmentos das próprias histórias familiares. Finaliza como um filme sobre memória, pertencimento e transmissão entre gerações. E faz isso com uma sensibilidade rara, sem jamais perder a leveza e a ternura. Super recomendo.
Dentre suas produções estão "La Boule" que, em 1985, recebeu o César de Melhor Curta-Metragem de Animação. Em 2013, dirigiu "Jasmine", na qual a sua história de amor se desenrola no tumulto de Teerã no final da década de 1970. Após uma longa maturação, ele regressa em 2022 para moldar a história do seu avô e, através dela, a de muitos imigrantes italianos.
Para reconstruir a história da sua família, ele usa materiais simples como carvão, açúcar ou massinha. O açúcar vira tijolo, o brócolis vira árvore. É comum vermos as mãos do próprio Ughetto em cena, interagindo com os bonecos. Isso quebra a ‘quarta parede’ e transforma o cinema em um diálogo direto entre o presente e o passado. Através dessa técnica manual e aparentemente ingênua, ele consegue abordar temas pesados como imigração, pobreza e fascismo com uma sensibilidade que o cinema tradicional dificilmente alcançaria.
Roger Lerina do site Matinal nos conta que "A busca pela história da família italiana que migrou pela Europa motivou o realizador francês Alain Ughetto a rodar a divertida e emocionante animação 'Proibido a Cães e Italianos' (2022). Misturando bonecos em stop motion e imagens de arquivo, o filme narra a jornada de Luigi Ughetto, um camponês determinado do norte da Itália no início do século 20 que decide cruzar os Alpes com a família em busca de uma vida melhor na França.
'Proibido a Cães e Italianos' recebeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Animação no European Film Awards. A história do longa é construída a partir de um diálogo ficcional com a falecida avó do diretor, Cesira – dublada por Ariane Ascaride, ótima atriz francesa conhecida por seus papéis nos filmes do cineasta Robert Guédiguian –, a quem o próprio Alain Ughetto pergunta sobre a vida de seus ancestrais. A velha camponesa relata então para o neto – e os espectadores – as lembranças da dura vida em Ughettera, uma pequena e pobre aldeia no alto das montanhas no Piemonte.
Em tom de poesia e recuperando vestígios do passado, como fotografias e correspondências, a narrativa imprime a essa história pessoal uma dimensão universal ao expressar os sonhos, frustrações e desafios vividos por imigrantes de todos os lugares e épocas. Durante essa experiência de deslocamento, a família Ughetto improvisou uma nova casa cuja memória é o alicerce – e que se relaciona especificamente com a trajetória de muitos imigrantes italianos que se espalharam pelo continente europeu ou vieram para as Américas nessa época.
'O que me interessava era voltar no tempo para conectar memórias íntimas com um contexto histórico mais amplo', conta Ughetto. 'Inspirei-me na realidade. Mergulhei na minha própria memória, depois na dos meus primos, irmãos e irmãs. Entre a guerra e a migração, entre o nascimento e a morte, surgiu uma história. Além da tristeza de uma história pessoal, descobri uma jornada surpreendente, contada no filme', complementa o diretor de 'Jasmine' (2013), longa de animação sobre uma história de amor que se desenrola no tumulto de Teerã no final da década de 1970.
Sobre o título de seu novo filme, Ughetto explica: 'Uma velha imagem circulando na internet me intrigou: um sinal em preto e branco pendurado em frente a um velho café dizia: ‘Proibido a cães e italianos’. A violência, a crueldade e a ferocidade desse pequeno sinal que recebia os migrantes se encaixam perfeitamente na evocação histórica que é a base do tema desse filme'”.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "'Proibido a Cães e Italianos' é um filme bonito sobre a busca por origem. De certa forma, também é uma ode à persistência de homens e mulheres que se adaptaram às mudanças históricas, enfrentando com a mesma coragem a guerra e a fome, para finalmente conseguir morrer em paz. Levando em consideração que Alain Ughetto está refletindo sobre o passado da própria família, fica implícito um elogio cheio de ternura e orgulho a essa jornada pregressa que ficou cristalizada em seu imaginário como um legado de bravura. Os Ughetto são vistos como testemunhas e vítimas da História, mas nem por isso a produção abre tanto o seu escopo para compreender as guerras e o preconceito sofrido pelos italianos pobres em países vizinhos, como a França e a Suíça. Aliás, em apenas uma cena essa discriminação fica evidente, exatamente quando os Ughetto se deparam com um estabelecimento em que há uma placa com os dizeres que dão nome ao filme".
O que disse a crítica 2: Letícia Alassë do site Cine POP avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Como o Brasil é composto exatamente por essa população imigrante, sejam italianos, portugueses, japoneses, libaneses, sejam até mesmo os traficados para este país, esta obra de 70 minutos consegue nos tocar e nos atiçar a descortinar a nossa própria crônica genealógica. Ganhador do prêmio da crítica no My French Film Festival, o qual participei do júri deste ano, e do Festival de Animação de Annecy 2022, 'Proibido a Cães e Italianos' conversa igualmente com os mais jovens articulando o olhar infantil para estes períodos de guerras e xenofobia, tanto no passado quanto no presente".
O que eu achei: "Proibido a Cães e Italianos”, dirigido por Alain Ughetto, é um filme lindo e extremamente delicado, daqueles que transformam memórias familiares em algo universal. Utilizando um misto de animação stop motion com bonecos e imagens de arquivo, a obra reconstrói a trajetória da família do diretor, a família Ughetto, que deixou o norte da Itália no início do século 20 em busca de sobrevivência e dignidade em outros países da Europa e da América. A história começa em Ughettera, região de origem da família, no norte da Itália, e acompanha especialmente Luigi Ughetto, seu avô, atravessando os Alpes para iniciar uma nova vida na França. O contexto histórico - pobreza, fome, preconceito contra imigrantes italianos - aparece sempre filtrado por um olhar íntimo e afetivo. O grande diferencial do filme está justamente nessa dimensão pessoal. O próprio Alain Ughetto surge em cena com suas mãos manipulando objetos e interferindo nos cenários enquanto conversa com a boneca que representa sua avó Cesira - esposa do Luigi - já falecida. É como se o diretor tentasse preencher lacunas da memória familiar perguntando tudo aquilo que nunca pôde perguntar em vida. Esse recurso acaba funcionando de maneira profundamente humana e tocante. Visualmente, o filme encontra beleza na simplicidade. Os bonecos - lindíssimos por sinal - têm um aspecto artesanal que combina perfeitamente com o tom nostálgico da narrativa. Há uma sensação constante de álbum de família ganhando vida, reforçada pelas fotografias e imagens históricas inseridas ao longo do percurso. Talvez o maior mérito seja justamente sua capacidade de despertar identificação. Para descendentes de italianos - especialmente aqueles cujas famílias também imigraram em busca de uma vida melhor -, o impacto emocional tende a ser ainda mais forte. Muitos, assim como eu, reconhecerão ali fragmentos das próprias histórias familiares. Finaliza como um filme sobre memória, pertencimento e transmissão entre gerações. E faz isso com uma sensibilidade rara, sem jamais perder a leveza e a ternura. Super recomendo.