10.5.26

“Linguagem Universal” - Matthew Rankin (Canadá, 2024)

Sinopse:
Em uma interzona misteriosa e surreal entre Teerã e Winnipeg, as vidas de vários personagens se entrelaçam. As estudantes Negin (Rojina Esmaeili) e Nazgol (Saba Vahedyousefi) encontram um dinheiro congelado no gelo do inverno e tentam reivindicá-lo. Massoud (Pirouz Nemati) conduz um grupo de turistas confusos pelos monumentos e locais históricos de Winnipeg. Matthew (Matthew Rankin) abandona seu emprego sem sentido num escritório do governo de Quebec e inicia uma jornada enigmática para visitar a mãe.
Comentário: Matthew Rankin (1980) é um cineasta canadense. Ele estudou história na universidade e viajou ao Irã com a esperança de estudar cinema, mas o plano não deu certo. Mesmo assim ele dirigiu cerca de 40 filmes de diferentes gêneros, exibidos em Sundance, SXSW, Annecy, TIFF, Berlim, Semana da Crítica de Cannes e no Criterion Channel. Seu longa-metragem de estreia, “The 20th Century” (2019), ganhou o Prêmio FIPRESCI e foi eleito o Melhor Filme Canadense no Festival de Berlim. “Linguagem Universal” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Jorge Pereira Rosa do site C7nema publicou: “Homenagem profunda à cultura e cinema iraniano, ‘Linguagem Universal’ é uma comédia conceitual de toada surrealista que nos faz mentalmente viajar entre o Irã e o Canadá, acompanhando várias histórias que se entrelaçam.
Com filmes como ‘O Balão Branco’ de Jafar Panahi como inspiração, em ‘Linguagem Universal’ encontramos crianças numa missão que são arrastadas para os caprichos do mundo dos adultos. E neles temos um guia turístico que orienta turistas confusos em Winnipeg; e um homem que se despede do seu emprego e vai visitar a mãe”.
O C7nema conversou em Cannes com o realizador Matthew Rankin, que explicou um pouco mais das suas ideias para aquele que se transformou o primeiro vencedor do Prêmio do Público da Quinzena de Cineastas do Festival de Cannes.
Ele declarou ter um amigo, que é iraniano e vive no Canadá, que lhe apresentou os filmes do Abbas Kiarostami. Isso o levou a um grupo enorme de outros cineastas que ele começou a amar intensamente, como Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi. Segundo ele, o cinema iraniano é muito vasto, o movimento que mais lhe atrai é o meta-realismo, em que muitas vezes somos apresentados a crianças a quem são apresentados dilemas de adultos. Existe muita ternura e otimismo nesses filmes, além de magia e poesia na sua inocência. Por alguma razão esses filmes tiveram um enorme poder na sua vida e isso o levou a querer ir para o Irã estudar cinema. Ele foi ao Irã, o projeto de estudar não deu certo, mas ele conheceu muita gente com as quais ele se conectou. Paralelamente a isto, a razão que o levou derradeiramente a querer fazer este filme e usar a linguagem cinematográfica do meta-realismo e filmar tudo em persa, emergiu do material que ele foi juntando.
Sua avó contou-lhe uma história, durante a Grande Depressão, no Canadá, em que as pessoas viviam na extrema pobreza. Um dia, no Inverno, ela e o irmão encontraram uma nota de 2 dólares congelada num passeio em Winnipeg e entraram numa aventura para a conseguir resgatar. Esta história acaba por ser a que encontramos no filme. Era uma história que tinha mistério, aventura e lhe fazia lembrar dos filmes iranianos, em particular ‘O Balão Branco’, de Jafar Panahi. Ele usou a câmera como o cinema iraniano faz, num jogo entre espaço, tempo e geografia. Fazer o filme em persa tornou-se óbvio e, como ele tem muitos amigos iranianos, aproveitou para fazer uma espécie de filme comunitário.
Rankin declarou que ele fez o storyboard de cada cena, com muita captura com a câmera parada, utilizando-se de zooms. Boa parte do filme e dos planos foi escolhido a partir das locações, onde ele estudou os ângulos e viu os espaços para pensar na mise-en-scène, deixando um certo espaço para a espontaneidade. Muita coisa aconteceu enquanto filmavam. Isso foi aproveitado. Mas o desenho visual estava bem definido desde o início.
Rankin não se considera um dramaturgo. Ele gosta de contar histórias, mas estas têm que ter abstrações e tem que ser muito visuais. O que o atrai é a emoção cinematográfica e os artifícios do cinema. Colocar duas imagens em contraste, numa experiência temporal, deixando isso criar significado é algo que ele gosta pois é com isso que surgem poesia e abstração.
Outra coisa que ele declarou é que neste filme ele olhou muito para a arquitetura, procurando estruturas aborrecidas como o brutalismo, tentando encontrar nessas estruturas chatas, o divino e a poesia do banal.
Com relação ao roteiro ele seguiu aberto até o fim das filmagens. A cena final em que se canta para os perus não estava no roteiro. Ela simplesmente foi capturada e encaixada no filme. Hoje ele nem consegue imaginar o filme sem essa cena. O que o levou a inclui-la no longa foi o fato do Benjamin Franklin ter lutado para que os perus fossem o símbolo nacional dos EUA. Acabou por ficar a águia-de-cabeça-branca, mas ele era contra isso. Ele achava que a águia tinha pouca moral, pois roubava os outros pássaros. Já os perus são um pouco ridículos, o que os torna de certa maneira doces. E andam em grupo, o que traz até nós o sentido de comunidade”.
O que disse a crítica 1: David Ehrlich da Indie Wire avaliou com B+. Disse: “O que Rankin tenta alcançar aqui é tão fascinante e consistente ao longo do filme que os vários momentos à parte adquirem seu próprio peso emocional. Meu favorito de todos: a maleta esquecida, deixada fechada em um banco desde 1978, e desde então consagrada como Patrimônio Mundial da UNESCO por ser ‘um monumento à absoluta solidariedade inter-humana, mesmo em sua forma mais banal’, já que ninguém jamais olhou dentro e revelou seu conteúdo”.
O que disse a crítica 2: Claudio Alves do Magazine HD avaliou com o equivalente a 4,75 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “Numa fantasia multicultural e transnacional, Matthew Rankin propõe o cinema como linguagem universal capaz de unir mundos díspares e tornar as maiores especificidades em experiências que todos conseguem entender, a nível cerebral e também no âmago do seu ser. ‘Linguagem Universal’ pode parecer um exercício de hiper formalismo, mas as suas qualidades vão além do primor audiovisual dos mecanismos em cena. Trata-se de um milagre cinematográfico do mais alto gabarito. O melhor do filme são os ritmos cômicos, os pequenos traços absurdistas, a estranha beleza desta Winnipeg onde se fala persa e o Tim Hortons servindo chá doce do Irã. Ah, e tem os perus também!”.
O que eu achei: Coloque no liquidificador a fotografia bem cuidada em tons pastéis e o absurdo explorado nos filmes do sueco Roy Andersson, misture com as tramas iranianas envolvendo crianças como nos filmes do Abbas Kiarostami, nos quais é mais importante o trajeto (a jornada) do que a finalização (a chegada), bata bem: aí está o estilo Matthew Rankin de ser. O filme se passa numa Winnipeg (Canadá) onde se fala francês, mas cuja língua oficial é persa. Com uma estética que deleita ele conta histórias díspares e aparentemente sem pontos de contato: duas meninas que tentam retirar um dinheiro que ficou congelado no chão para ajudar um colega da escola que teve seus óculos roubados por um peru; um grupo de turistas que participa de uma visita guiada suis generis; um professor que já perdeu a paciência com seus alunos; um homem que deixou seu emprego e viaja para reencontrar a mãe. Tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. Trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local colocando-a em choque de maneira inteligente para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. O próprio diretor faz o papel de Matthew – o tal homem que perdeu seu emprego e está à procura de sua mãe. Ele descreve o longa como uma ‘alucinação autobiográfica’ de um canadense branco de 43 anos que se apaixonou pelo cinema iraniano e quis, desta forma, abordar temas como pertencimento (família, cidade, país), desilusão e esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) mais tênues. O resultado é um filme original, singular, estranho, peculiar e ao mesmo tempo engraçado, não sabemos se estamos no Canadá ou no Irã, é diferente de tudo o que já vi. É simultaneamente uma carta de amor cinematográfica, uma crise de identidade e uma piada melancólica contada com uma sinceridade tão direta que acaba por revelar algo surpreendentemente profundo. Indicado para apreciadores da mistura entre o bizarro e o poético, para pessoas dispostas a ver um cinema bem distante do comercial convencional.