
Comentário: François Truffaut (1932-1984) foi um cineasta francês, um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague que marcou uma ruptura com os padrões tradicionais do cinema industrial e introduziu inovações narrativas, estéticas e conceituais. Assisti dele os ótimos "Fahrenheit 451" (1966) e "A História de Adele H." (1975), os bons “Um Só Pecado” (1964) e "A Noiva Estava de Preto" (1968) e o mediano “Jules e Jim - Uma Mulher para Dois” (1962). Desta vez vou conferir "Os Incompreendidos" (1959).
Davi Pieri do site Cine-Stylo publicou: "'Os Incompreendidos', de 1959, é um filme que se inicia em homenagem a André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma (onde François Truffaut, diretor do filme, trabalhou como crítico) e mentor dos jovens diretores da Nouvelle Vague, movimento moderno de renovação do cinema francês. Mais do que isso, Bazin foi uma verdadeira figura paterna para Truffaut, cuidando dele e de seus estudos por boa parte da vida. Conhecendo a relação pai e filho que os dois mantinham, é lindo ver um filme como este, que reverencia Bazin atendo-se às suas propostas estéticas enquanto teórico do cinema.
Em um sentido, 'Os Incompreendidos' remete ao verismo do Neorrealismo Italiano, movimento admirado por Bazin que buscava o hiper-realismo cinematográfico. Porém, o que realmente cria uma poesia única na mise-en-scène de Truffaut não é puramente seu realismo, mas o embate interessantíssimo entre o que é filmado e mostrado de forma muito direta (tal qual os neorrealistas faziam) e os vestígios de uma forte expressão emocional do diretor (já que este é um filme com inspirações autobiográficas).
De fato, o que mais remete ao movimento moderno italiano é a forma como Truffaut lida com as situações dramáticas filmadas. Para explicar isso melhor, cito Bazin: 'O neorrealismo, por definição, rejeita a análise, seja ela política, moral, psicológica, lógica ou social, dos personagens e de suas ações. Ele olha para a realidade como um todo, não incompreensível, certamente, mas indissociavelmente uno'. É essa a relação que Truffaut mantém com seu drama: o julgamento, a análise, estão fora de questão. Ainda que esteja expressando sentimentos sofridos de sua infância, o diretor jamais coloca Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu protagonista, como absoluta vítima de malfeitores (que poderiam ser, no caso, seus professores, diretor da escola ou seus pais). Cada personagem é contraditório e, por vezes, incompreensível (como é na vida real): é só pensarmos nas constantes mudanças de comportamento dos pais de Antoine ao longo do filme. Igualmente, a câmera e o corte são impassíveis diante dos acontecimentos, se atém justamente a mostrar. Na organização interna dos planos é que Truffaut irá construir o impacto de seu filme, bem aos moldes cinematográficos que André Bazin defendia.
Mas, apesar disso, 'Os Incompreendidos' assemelha-se mais uma vez ao Neorrealismo em um ponto que pode soar contraditório: a denúncia social. Pois a verdade é que, apesar de a consideração de Bazin ser plenamente aceitável, ainda há - até mesmo pelo contexto da época - rastros de uma insatisfação social do Neorrealismo Italiano. Um pessimismo que surge de um país devastado e descrente, visto que o movimento se desenvolveu num momento de crise na Itália pós-Segunda Guerra. Trazendo essa insatisfação a um nível pessoal, a tocante beleza com que Truffaut conta a história de Antoine demonstra a incapacidade de uma sociedade tão ordenada e conservadora, como a França daquele período, compreender as crianças, os jovens, aqueles que vivem por e necessitam de liberdade. A repressão extrema, na realidade, afeta a todos, e a infelicidade no filme surge não por haverem pessoas 'más', mas sim porque todos estão acorrentados a uma estrutura social aprisionadora. Parece quase impossível que os adultos do filme tomassem outra decisão que não a repressiva, já que toda a conjuntura na qual estão inseridos age através da repressão.
Nesse sentido, alguns dos momentos mais tocantes são aqueles em que Truffaut contrapõe essa ordenação extrema com um vislumbre de liberdade (...) O que acontece, então, é que Truffaut adota esse estilo que, por sua representação tão natural da vida em cena, permite amplamente a expressão interior do diretor numa espécie de recorte autobiográfico fílmico. É um dos exemplos mais potentes da capacidade ontológica da câmera em que André Bazin tanto acreditava, onde o impacto maior surge ao mostrar a ação e não ao analisá-la. Essa abordagem brilhante acaba agregando vestígios românticos para o viés neorrealista. E em sua 'neutralidade moral' quanto ao que filma, Truffaut consegue caminhar da denúncia social à reflexão íntima sobre liberdade (...)".
O que disse a crítica 1: O site Cinema com Rapadura avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "'Les 400 Coups' é o título original de 'Os Incompreendidos'. O termo na língua francesa é uma expressão equivalente a 'pintar o sete'. Sim, Antoine pinta todos os números e possui a indiferença da gente adulta, é incompreendido. Ambos os títulos fazem sentido e são bastante simbólicos. (...) A obra de Truffaut é uma das mais belas parábolas sobre a infância. Antoine sobrevive no tempo da delicadeza, na idade da inocência. Assim, como o primeiro filme do decurso de um grande cineasta, 'Os Incompreendidos' há de permanecer imaculado, juntamente com todo o resto de sua vasta e conceituada carreira cinematográfica".
O que disse a crítica 2: Robledo Milani do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e premiado como Melhor Direção no Festival de Cannes, 'Os Incompreendidos' é o longa que todo realizador estreante gostaria de ter feito, mas que somente Truffaut alcançou em sua plenitude. Muitos outros trabalhos do cineasta ficariam marcados na memória de cinéfilos e apreciadores da sétima arte, mas poucos com tamanha força como a aqui experimentada. Assim como o protagonista deste romance de formação, somos levados pelos acasos e desatinos diários, aprendendo como lidar com eles no durante, sem nenhum preparo prévio. Se Doinel escapa de casa, da escola, das ruas, do reformatório e do abandono, o vemos sorrir de verdade apenas diante da tela grande exposta na sala escura. Assim como qualquer um que tenha o privilégio de conferir e vivenciar este filme absolutamente arrebatador".
O que eu achei: Trata-se do primeiro filme dirigido por François Truffaut. Conta a história do pré-adolescente Antoine Doinel vivendo em Paris, negligenciado pelos pais e rebelando-se contra a escola, cometendo pequenos delitos até ser enviado a um reformatório. Dizem que o personagem representa um suposto alter ego autobiográfico de Truffaut, com Doinel sendo uma versão do diretor em uma realidade alternativa: um eu sem a redenção do cinema. O cinema salvou a vida de François Truffaut, ele repetia constantemente. Pegou um estudante delinquente e lhe deu algo para amar, e com o incentivo de André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma, ele se tornou crítico e, aos 27 anos, realizou este excelente filme. Não é a toa que logo no início da película há uma dedicação à memória de Bazin. Interessante que esse personagem icônico - Antoine Doinel - interpretado por Jean-Pierre Léaud reapareceu em cinco filmes entre 1959 e 1979. A saga do pré-adolescente se inicia neste "Os Incompreendidos" (1959), mas depois ele aparece em "Antoine e Colette" (1962), um curta-metragem onde Doinel já está com 18 anos, vivendo suas primeiras desilusões amorosas e buscando sua independência. Já adulto, ele aparece novamente em "Beijos Roubados" (1968), passando por vários empregos e buscando estabilidade sentimental. Em "Domicílio Conjugal" (1970) ele se casa e enfrenta os desafios e infidelidades da vida adulta. E finalmente em "O Amor em Fuga" (1979) ele aparece mais maduro, mas ainda emocionalmente imaturo, lidando com o divórcio e tecendo reflexões sobre sua trajetória. Esse envelhecimento real do ator ao longo de duas décadas marcou a história do cinema, além disso, o filme teve um impacto imediato e colossal na sétima arte, popularizando o movimento vanguardista conhecido como Nouvelle Vague que fervilhava na França inspirando realizadores e espectadores pelo mundo todo. Excelente.
Davi Pieri do site Cine-Stylo publicou: "'Os Incompreendidos', de 1959, é um filme que se inicia em homenagem a André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma (onde François Truffaut, diretor do filme, trabalhou como crítico) e mentor dos jovens diretores da Nouvelle Vague, movimento moderno de renovação do cinema francês. Mais do que isso, Bazin foi uma verdadeira figura paterna para Truffaut, cuidando dele e de seus estudos por boa parte da vida. Conhecendo a relação pai e filho que os dois mantinham, é lindo ver um filme como este, que reverencia Bazin atendo-se às suas propostas estéticas enquanto teórico do cinema.
Em um sentido, 'Os Incompreendidos' remete ao verismo do Neorrealismo Italiano, movimento admirado por Bazin que buscava o hiper-realismo cinematográfico. Porém, o que realmente cria uma poesia única na mise-en-scène de Truffaut não é puramente seu realismo, mas o embate interessantíssimo entre o que é filmado e mostrado de forma muito direta (tal qual os neorrealistas faziam) e os vestígios de uma forte expressão emocional do diretor (já que este é um filme com inspirações autobiográficas).
De fato, o que mais remete ao movimento moderno italiano é a forma como Truffaut lida com as situações dramáticas filmadas. Para explicar isso melhor, cito Bazin: 'O neorrealismo, por definição, rejeita a análise, seja ela política, moral, psicológica, lógica ou social, dos personagens e de suas ações. Ele olha para a realidade como um todo, não incompreensível, certamente, mas indissociavelmente uno'. É essa a relação que Truffaut mantém com seu drama: o julgamento, a análise, estão fora de questão. Ainda que esteja expressando sentimentos sofridos de sua infância, o diretor jamais coloca Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu protagonista, como absoluta vítima de malfeitores (que poderiam ser, no caso, seus professores, diretor da escola ou seus pais). Cada personagem é contraditório e, por vezes, incompreensível (como é na vida real): é só pensarmos nas constantes mudanças de comportamento dos pais de Antoine ao longo do filme. Igualmente, a câmera e o corte são impassíveis diante dos acontecimentos, se atém justamente a mostrar. Na organização interna dos planos é que Truffaut irá construir o impacto de seu filme, bem aos moldes cinematográficos que André Bazin defendia.
Mas, apesar disso, 'Os Incompreendidos' assemelha-se mais uma vez ao Neorrealismo em um ponto que pode soar contraditório: a denúncia social. Pois a verdade é que, apesar de a consideração de Bazin ser plenamente aceitável, ainda há - até mesmo pelo contexto da época - rastros de uma insatisfação social do Neorrealismo Italiano. Um pessimismo que surge de um país devastado e descrente, visto que o movimento se desenvolveu num momento de crise na Itália pós-Segunda Guerra. Trazendo essa insatisfação a um nível pessoal, a tocante beleza com que Truffaut conta a história de Antoine demonstra a incapacidade de uma sociedade tão ordenada e conservadora, como a França daquele período, compreender as crianças, os jovens, aqueles que vivem por e necessitam de liberdade. A repressão extrema, na realidade, afeta a todos, e a infelicidade no filme surge não por haverem pessoas 'más', mas sim porque todos estão acorrentados a uma estrutura social aprisionadora. Parece quase impossível que os adultos do filme tomassem outra decisão que não a repressiva, já que toda a conjuntura na qual estão inseridos age através da repressão.
Nesse sentido, alguns dos momentos mais tocantes são aqueles em que Truffaut contrapõe essa ordenação extrema com um vislumbre de liberdade (...) O que acontece, então, é que Truffaut adota esse estilo que, por sua representação tão natural da vida em cena, permite amplamente a expressão interior do diretor numa espécie de recorte autobiográfico fílmico. É um dos exemplos mais potentes da capacidade ontológica da câmera em que André Bazin tanto acreditava, onde o impacto maior surge ao mostrar a ação e não ao analisá-la. Essa abordagem brilhante acaba agregando vestígios românticos para o viés neorrealista. E em sua 'neutralidade moral' quanto ao que filma, Truffaut consegue caminhar da denúncia social à reflexão íntima sobre liberdade (...)".
O que disse a crítica 1: O site Cinema com Rapadura avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "'Les 400 Coups' é o título original de 'Os Incompreendidos'. O termo na língua francesa é uma expressão equivalente a 'pintar o sete'. Sim, Antoine pinta todos os números e possui a indiferença da gente adulta, é incompreendido. Ambos os títulos fazem sentido e são bastante simbólicos. (...) A obra de Truffaut é uma das mais belas parábolas sobre a infância. Antoine sobrevive no tempo da delicadeza, na idade da inocência. Assim, como o primeiro filme do decurso de um grande cineasta, 'Os Incompreendidos' há de permanecer imaculado, juntamente com todo o resto de sua vasta e conceituada carreira cinematográfica".
O que disse a crítica 2: Robledo Milani do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e premiado como Melhor Direção no Festival de Cannes, 'Os Incompreendidos' é o longa que todo realizador estreante gostaria de ter feito, mas que somente Truffaut alcançou em sua plenitude. Muitos outros trabalhos do cineasta ficariam marcados na memória de cinéfilos e apreciadores da sétima arte, mas poucos com tamanha força como a aqui experimentada. Assim como o protagonista deste romance de formação, somos levados pelos acasos e desatinos diários, aprendendo como lidar com eles no durante, sem nenhum preparo prévio. Se Doinel escapa de casa, da escola, das ruas, do reformatório e do abandono, o vemos sorrir de verdade apenas diante da tela grande exposta na sala escura. Assim como qualquer um que tenha o privilégio de conferir e vivenciar este filme absolutamente arrebatador".
O que eu achei: Trata-se do primeiro filme dirigido por François Truffaut. Conta a história do pré-adolescente Antoine Doinel vivendo em Paris, negligenciado pelos pais e rebelando-se contra a escola, cometendo pequenos delitos até ser enviado a um reformatório. Dizem que o personagem representa um suposto alter ego autobiográfico de Truffaut, com Doinel sendo uma versão do diretor em uma realidade alternativa: um eu sem a redenção do cinema. O cinema salvou a vida de François Truffaut, ele repetia constantemente. Pegou um estudante delinquente e lhe deu algo para amar, e com o incentivo de André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma, ele se tornou crítico e, aos 27 anos, realizou este excelente filme. Não é a toa que logo no início da película há uma dedicação à memória de Bazin. Interessante que esse personagem icônico - Antoine Doinel - interpretado por Jean-Pierre Léaud reapareceu em cinco filmes entre 1959 e 1979. A saga do pré-adolescente se inicia neste "Os Incompreendidos" (1959), mas depois ele aparece em "Antoine e Colette" (1962), um curta-metragem onde Doinel já está com 18 anos, vivendo suas primeiras desilusões amorosas e buscando sua independência. Já adulto, ele aparece novamente em "Beijos Roubados" (1968), passando por vários empregos e buscando estabilidade sentimental. Em "Domicílio Conjugal" (1970) ele se casa e enfrenta os desafios e infidelidades da vida adulta. E finalmente em "O Amor em Fuga" (1979) ele aparece mais maduro, mas ainda emocionalmente imaturo, lidando com o divórcio e tecendo reflexões sobre sua trajetória. Esse envelhecimento real do ator ao longo de duas décadas marcou a história do cinema, além disso, o filme teve um impacto imediato e colossal na sétima arte, popularizando o movimento vanguardista conhecido como Nouvelle Vague que fervilhava na França inspirando realizadores e espectadores pelo mundo todo. Excelente.