
Comentário: Emilie Blichfeldt (1991) é uma diretora e roteirista norueguesa. São dela os curtas "How Do You Like My Hair?" (2013) e "Saras Intime Betroelser" (2018) e o longa "A Meia-Irmã Feia" (2025), que é o primeiro filme que vejo dela.
Thiago Gelli da Revista Veja nos diz: "Desde que propriedades dos estúdios Disney como o Ursinho Pooh e o rato Mickey entraram em domínio público, filmes de terror calcados no simples apelo de transformar material infantil em horror provocativo têm chegado às salas de cinema. Esse, porém, não é o caso de 'A Meia-Irmã Feia', um refinado longa norueguês que troca o foco do conto de fadas "Cinderela" para uma das filhas da madrasta malvada. Longe de 'Ursinho Pooh: Sangue e Mel' (2023), a produção está mais para 'A Substância' (2024) (...).
Com liberdade criativa, a cineasta Emilie Blichfeldt retrata o cotidiano de Elvira (Lea Myren), a mais velha das duas herdeiras de Rebekka (Ane Dahl Torp), uma interesseira que se casa por dinheiro com o pai de Agnes (Thea Sofie Loch Næss) - a Cinderela da versão. O que ela não sabe é que o patriarca não é só moribundo como pobre e, após um vômito de sangue na noite de casamento, se vai e deixa as quatro mulheres em ruína financeira. Daí em diante, a história é similar: um baile organizado pelo príncipe promete selecionar uma noiva cuja vida será completamente transformada. Para desbancar a meia-irmã loira, Elvira então tem que recorrer a todo e qualquer recurso para se tornar a bela dama que sua mãe exige que seja.
Aí está o grande trunfo da obra, que se torna uma sucessão de procedimentos tão assustadores quanto reais. Se o pós-operatório de uma rinoplastia já pode ser agonizante em 2025, imagine no século XIX. Ou, em vez de dietas radicais e medicamentos para emagrecimento, imagine os efeitos exercidos sobre uma jovem insegura que ingere vermes para ajustar o próprio peso - e nem se pergunte como a protagonista aplica seus cílios postiços.
O longa também não deixa de lado a infame trama original dos irmãos Grimm, na qual ambas as meias-irmãs feias decepam seus pés para caber na sapatilha de Cinderela. Entre estes e outros momentos repugnantes, o filme se mostra um exemplar magistral do horror corpóreo, influenciado por David Cronenberg, Lucio Fulci e Julia Ducournau".
Em entrevista, a diretora Emilie Blichfeldt, conhecida por trazer personagens que têm a vida impactada pela pressão estética sobre os corpos femininos, acabou pensando no enredo de "Cinderela", onde Elvira enfrenta a missão dolorosa de se adequar a padrões para conquistar o príncipe. Ela disse: “Tive uma visão em que minha personagem sonhava que era a Cinderela e calçava o sapato e ficava muito feliz porque o príncipe era o garoto dos seus sonhos, ou algo assim. Mas então, para seu horror e desespero, ela percebeu que havia cortado os dedos do pé para calçar o sapato, porque havia sangue saindo do sapato. (...) Quando acordei daquele cochilo, pensei: ‘Meu Deus, essa é uma personagem que eu nunca tinha visto antes’”.
A ideia foi aprimorada durante oito anos, sendo cinco deles para criar o roteiro com o qual Blichfeldt admite se identificar, já que viveu pessoalmente o ponto de principal crítica presente no enredo. “Eu nunca tinha sentido uma conexão com essa personagem antes”, disse Blichfeldt à Variety. “Eu também cresci achando-as horríveis e tendo empatia pela Cinderela, torcendo para que eu fosse aquela garota. Mas, de repente, caiu a ficha: passei muito tempo tentando me encaixar em sapatos pequenos demais, lutando com a imagem e sonhando desesperadamente que me encaixaria nos padrões de beleza. Quando redescobri essa personagem já adulta, foi marcante, porque ela é a personagem que eu sempre fui até agora”.
O que disse a crítica 1: Sheila O'Malley do site Roger Ebbert avaliou com o equivalente a 3,75 estrelas, algo entre o muito bom e o ótimo. Escreveu: "'A Meia-Irmã Feia' apresenta seus argumentos repetidamente, criando uma sensação de repetição sem progresso. Não é novidade que nossa cultura obcecada pela beleza prejudica a autoestima das jovens. 'A Substância' é uma comparação óbvia, mas 'A Meia-Irmã Feia' é mais desagradável, mais raivosa e mais grotesca, acredite se quiser. A abordagem de Blichfeldt, de 'destruir tudo', gera turbulência e perturbação ao mesmo tempo em que aborda temas já bastante explorados".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Interpretada por Lea Myren com intensidade e complexidade que a tornam ainda mais fascinante, Elvira é vista sob uma nova luz não por ser mal compreendida, mas por perpetuar, de certa maneira, as violências das quais ela própria é vítima – e é importante notar que a Cinderela vivida por Thea Sofie Loch Næss não é o retrato de humildade e inocência eternizado pela Disney, mas uma jovem que também exibe facetas egocêntricas e mesmo cruéis. Aliás, até a madrasta encarnada por Ane Dahl Torp pode ser encarada, de certo modo, como uma mulher obrigada a atos desesperados para sobreviver e cuidar das filhas. Contando ainda com um terceiro ato brilhante, 'A Meia-Irmã Feia' leva seu revisionismo ao extremo enquanto se mantém fiel à base da história que o inspirou".
O que eu achei: Trata-se de uma releitura da história de Cinderela por um ângulo inesperado e perturbador. Em vez de acompanhar a jovem bela e oprimida eternizada pelas adaptações da Disney, o filme desloca o foco para Elvira, sua ‘irmã feia’, transformando-a em protagonista de uma narrativa cruel sobre beleza, desejo e sobrevivência. A diretora norueguesa estreante em longas se aproxima muito mais da versão sombria dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, do que da leitura romantizada de Charles Perrault, responsável por popularizar elementos como a fada madrinha e o sapatinho de cristal. Aqui, o conto de fadas ganha contornos de horror corporal para mostrar até onde alguém pode ir em busca de aceitação e ascensão social. A disputa para casar com o príncipe é apresentada como uma competição brutal, movida não apenas por vaidade, mas por necessidade econômica. Cinderela tenta escapar da ruína deixada pelo pai endividado, enquanto Elvira e sua mãe viúva enfrentam a precariedade. Nesse contexto, a beleza deixa de ser um ideal romântico e se torna uma ferramenta de sobrevivência. O filme é especialmente incômodo ao mostrar as transformações físicas às quais Elvira se submete para competir com a deslumbrante irmã. Há cenas difíceis de assistir - tive que virar o rosto em diversos momentos -, principalmente quando a obsessão para caber no pequeno sapato assume contornos grotescos. Definitivamente, não é uma obra voltada ao público infantil; trata-se de uma releitura muito mais cruel e perturbadora do que qualquer animação da Disney. Visualmente, o longa impressiona. A fotografia de Marcel Zyskind cria uma atmosfera sombria que flerta com o gótico, enquanto os figurinos de Manon Rasmussen reforçam o clima decadente da narrativa. E no centro de tudo está a excelente atuação de Lea Myren, que consegue tornar Elvira ao mesmo tempo trágica, desesperada e humana. O resultado é um filme peculiar, que utiliza o terror para revisitar um conto clássico sob uma ótica amarga e bastante contemporânea. Atenção para o sobrenome dado à personagem Sofie von Kronenberg – uma homenagem clara ao cineasta que ficou conhecido por obras que exploram o body horror como “A Mosca”, “Videodrome” e “Crash”. Veja preparado.
Thiago Gelli da Revista Veja nos diz: "Desde que propriedades dos estúdios Disney como o Ursinho Pooh e o rato Mickey entraram em domínio público, filmes de terror calcados no simples apelo de transformar material infantil em horror provocativo têm chegado às salas de cinema. Esse, porém, não é o caso de 'A Meia-Irmã Feia', um refinado longa norueguês que troca o foco do conto de fadas "Cinderela" para uma das filhas da madrasta malvada. Longe de 'Ursinho Pooh: Sangue e Mel' (2023), a produção está mais para 'A Substância' (2024) (...).
Com liberdade criativa, a cineasta Emilie Blichfeldt retrata o cotidiano de Elvira (Lea Myren), a mais velha das duas herdeiras de Rebekka (Ane Dahl Torp), uma interesseira que se casa por dinheiro com o pai de Agnes (Thea Sofie Loch Næss) - a Cinderela da versão. O que ela não sabe é que o patriarca não é só moribundo como pobre e, após um vômito de sangue na noite de casamento, se vai e deixa as quatro mulheres em ruína financeira. Daí em diante, a história é similar: um baile organizado pelo príncipe promete selecionar uma noiva cuja vida será completamente transformada. Para desbancar a meia-irmã loira, Elvira então tem que recorrer a todo e qualquer recurso para se tornar a bela dama que sua mãe exige que seja.
Aí está o grande trunfo da obra, que se torna uma sucessão de procedimentos tão assustadores quanto reais. Se o pós-operatório de uma rinoplastia já pode ser agonizante em 2025, imagine no século XIX. Ou, em vez de dietas radicais e medicamentos para emagrecimento, imagine os efeitos exercidos sobre uma jovem insegura que ingere vermes para ajustar o próprio peso - e nem se pergunte como a protagonista aplica seus cílios postiços.
O longa também não deixa de lado a infame trama original dos irmãos Grimm, na qual ambas as meias-irmãs feias decepam seus pés para caber na sapatilha de Cinderela. Entre estes e outros momentos repugnantes, o filme se mostra um exemplar magistral do horror corpóreo, influenciado por David Cronenberg, Lucio Fulci e Julia Ducournau".
Em entrevista, a diretora Emilie Blichfeldt, conhecida por trazer personagens que têm a vida impactada pela pressão estética sobre os corpos femininos, acabou pensando no enredo de "Cinderela", onde Elvira enfrenta a missão dolorosa de se adequar a padrões para conquistar o príncipe. Ela disse: “Tive uma visão em que minha personagem sonhava que era a Cinderela e calçava o sapato e ficava muito feliz porque o príncipe era o garoto dos seus sonhos, ou algo assim. Mas então, para seu horror e desespero, ela percebeu que havia cortado os dedos do pé para calçar o sapato, porque havia sangue saindo do sapato. (...) Quando acordei daquele cochilo, pensei: ‘Meu Deus, essa é uma personagem que eu nunca tinha visto antes’”.
A ideia foi aprimorada durante oito anos, sendo cinco deles para criar o roteiro com o qual Blichfeldt admite se identificar, já que viveu pessoalmente o ponto de principal crítica presente no enredo. “Eu nunca tinha sentido uma conexão com essa personagem antes”, disse Blichfeldt à Variety. “Eu também cresci achando-as horríveis e tendo empatia pela Cinderela, torcendo para que eu fosse aquela garota. Mas, de repente, caiu a ficha: passei muito tempo tentando me encaixar em sapatos pequenos demais, lutando com a imagem e sonhando desesperadamente que me encaixaria nos padrões de beleza. Quando redescobri essa personagem já adulta, foi marcante, porque ela é a personagem que eu sempre fui até agora”.
O que disse a crítica 1: Sheila O'Malley do site Roger Ebbert avaliou com o equivalente a 3,75 estrelas, algo entre o muito bom e o ótimo. Escreveu: "'A Meia-Irmã Feia' apresenta seus argumentos repetidamente, criando uma sensação de repetição sem progresso. Não é novidade que nossa cultura obcecada pela beleza prejudica a autoestima das jovens. 'A Substância' é uma comparação óbvia, mas 'A Meia-Irmã Feia' é mais desagradável, mais raivosa e mais grotesca, acredite se quiser. A abordagem de Blichfeldt, de 'destruir tudo', gera turbulência e perturbação ao mesmo tempo em que aborda temas já bastante explorados".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Interpretada por Lea Myren com intensidade e complexidade que a tornam ainda mais fascinante, Elvira é vista sob uma nova luz não por ser mal compreendida, mas por perpetuar, de certa maneira, as violências das quais ela própria é vítima – e é importante notar que a Cinderela vivida por Thea Sofie Loch Næss não é o retrato de humildade e inocência eternizado pela Disney, mas uma jovem que também exibe facetas egocêntricas e mesmo cruéis. Aliás, até a madrasta encarnada por Ane Dahl Torp pode ser encarada, de certo modo, como uma mulher obrigada a atos desesperados para sobreviver e cuidar das filhas. Contando ainda com um terceiro ato brilhante, 'A Meia-Irmã Feia' leva seu revisionismo ao extremo enquanto se mantém fiel à base da história que o inspirou".
O que eu achei: Trata-se de uma releitura da história de Cinderela por um ângulo inesperado e perturbador. Em vez de acompanhar a jovem bela e oprimida eternizada pelas adaptações da Disney, o filme desloca o foco para Elvira, sua ‘irmã feia’, transformando-a em protagonista de uma narrativa cruel sobre beleza, desejo e sobrevivência. A diretora norueguesa estreante em longas se aproxima muito mais da versão sombria dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, do que da leitura romantizada de Charles Perrault, responsável por popularizar elementos como a fada madrinha e o sapatinho de cristal. Aqui, o conto de fadas ganha contornos de horror corporal para mostrar até onde alguém pode ir em busca de aceitação e ascensão social. A disputa para casar com o príncipe é apresentada como uma competição brutal, movida não apenas por vaidade, mas por necessidade econômica. Cinderela tenta escapar da ruína deixada pelo pai endividado, enquanto Elvira e sua mãe viúva enfrentam a precariedade. Nesse contexto, a beleza deixa de ser um ideal romântico e se torna uma ferramenta de sobrevivência. O filme é especialmente incômodo ao mostrar as transformações físicas às quais Elvira se submete para competir com a deslumbrante irmã. Há cenas difíceis de assistir - tive que virar o rosto em diversos momentos -, principalmente quando a obsessão para caber no pequeno sapato assume contornos grotescos. Definitivamente, não é uma obra voltada ao público infantil; trata-se de uma releitura muito mais cruel e perturbadora do que qualquer animação da Disney. Visualmente, o longa impressiona. A fotografia de Marcel Zyskind cria uma atmosfera sombria que flerta com o gótico, enquanto os figurinos de Manon Rasmussen reforçam o clima decadente da narrativa. E no centro de tudo está a excelente atuação de Lea Myren, que consegue tornar Elvira ao mesmo tempo trágica, desesperada e humana. O resultado é um filme peculiar, que utiliza o terror para revisitar um conto clássico sob uma ótica amarga e bastante contemporânea. Atenção para o sobrenome dado à personagem Sofie von Kronenberg – uma homenagem clara ao cineasta que ficou conhecido por obras que exploram o body horror como “A Mosca”, “Videodrome” e “Crash”. Veja preparado.